Crítica

Noites brancas sobre o Douro

Um belo exercício de “romantismo”, fora de tempo e quase fora de lugar: o Porto de Gabe Klinger, um brasileiro radicado nos Estados Unidos, conhecido como crítico de cinema.

Espraiando-se entre o que é muito físico e o que é muito mental, uma história de encontro e separação
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Espraiando-se entre o que é muito físico e o que é muito mental, uma história de encontro e separação

Porto é a primeira ficção de Gabe Klinger, brasileiro radicado nos Estados Unidos, conhecido como crítico de cinema, e que previamente ensaiara a realização num documentário sobre os cineastas James Benning e Richard Linklater, Double Play, que chegou a conhecer estreia comercial em Portugal. Belo filme, Porto está bastante à margem dos caminhos mais percorridos pela “independência” contemporânea, com ecos que parecem vir tanto do cinema americano dos anos 90 (convém notar que Jim Jarmusch é creditado como produtor) como do mais duro e intimista cinema francês dos anos 70 (como se, de forma subtil, algumas das preferências cinematográficas de Klinger ressoassem através do seu filme, com ponto alto simbólico na breve presença de Françoise Lebrun, que foi um dos vértices do triângulo de La Maman et la Putain de Jean Eustache).

Rodado na cidade do Porto, encontra aí o oposto de um cenário turístico: é um filme de interiores, maioritariamente, e um filme de “ruas interiores”, a câmara raramente se elevando do nível da rua para os planos gerais e para as vistas globais – fica, como imagem leitmotiv a pontuar os vários segmentos do filme que se passam em “suspensão”, uma vista da Ribeira, do Douro e da Ponte D. Luís, com uma textura reminiscente do super 8 (ou que será mesmo em super 8, sendo que um dos factores distintivos de Porto é ter sido rodado em película, abundando em imagens escuras e bem distintas do chapadão de luz que, por norma, acompanha a imagem digital). É uma cidade na confluência do “real” e do “imaginário”, como se Klinger (é ver o que ele faz com as fachadas e os interiores de restaurantes e snack-bars com um arquitectura e uma decoração aparentemente intocadas desde os anos 60 ou 70) desenhasse uma cidade dentro da cidade, e conciliasse a precisão geográfica com a imaginação de uma “cidade de cinema”, de uma cidade de “estúdio” (e é por isso que ora nos podemos lembrar dos diners, por exemplo dos filmes de Jarmusch, ora nos podemos lembrar da Las Vegas made in Zoetrope do One From the Heart de Coppola).

Este último, de resto, é uma referência particularmente pertinente, porque também Porto, conservando sempre uma atmosfera sonhadora, melancólica e musical (a banda sonora é notável, diga-se), e espraiando-se entre o que é muito físico e o que é muito mental, conta uma história de encontro e separação amorosa. Eles são Anton Yelchin (entretanto falecido num acidente estúpido) e a francesa Lucie Lucas, e o filme remói – é o termo – esta paixão fugaz condenada à dissolução, variando o ponto de vista mas sempre mais próximo do dele (que além de ser o “abandonado” é, digamos, também o mais perplexo). Pensamos naquilo que James Gray dizia sobre o protagonista de “Duplo Amor”, como é “ridículo” um homem apaixonado.

Há um pouco desse espírito na abordagem da paixão aqui, a começar pela figura narrativa privilegiada por Klinger, a repetição: são três capítulos expressamente definidos que repetem a mesma história, subtraindo ou acrescentando detalhes, fragmentos de diálogo, gestos e acções que parecem os mesmos mas também podem parecer completamente diferentes, como a se a acção de Porto correspondesse a um trabalho de memória em loop, uma revisão incessante, obsessiva e interior da mesma sequência de acontecimentos, como se fosse preciso desgastar a memória, levá-la a um ponto de exaustão, para que a perda se torne aceitável. O espectador entra facilmente nesse ritmo feito de fragmentos e de flashes (ou de flickers), de avanços e de recuos, num filme cuja construção precisa, de facto, do tempo para se revelar (por oposição aos filmes que estão totalmente “dados” ao fim de cinco minutos). Um belo exercício de “romantismo”, fora de tempo e quase fora de lugar (ou de vários tempos e de vários lugares), que muito merece ser descoberto.