Torne-se perito

Obras no palacete de Aga Khan ainda não começaram e já causam preocupação

As sondagens que têm sido feitas nos jardins e no interior de um imóvel classificado levam Fórum Cidadania Lx a pedir a intervenção dos deputados.

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Palácio foi desenhado pelo arquitecto Miguel Ventura Terra e ganhou um Prémio Valmor em 1909 RUI GAUDÊNCIO

A Câmara Municipal de Lisboa e a Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) estão a apreciar um projecto de reabilitação do palacete Henrique Mendonça, desenhado no início do século passado por Miguel Ventura Terra, onde vai funcionar a sede mundial da comunidade ismailita. As obras ainda não têm aprovação, mas estão já a gerar inquietação entre activistas de defesa do património.

O Fórum Cidadania Lx suspeita que o projecto traga “obras profundamente intrusivas” ao palacete, vencedor de um Prémio Valmor em 1909 e classificado como “imóvel de interesse público” desde 1982. Numa carta enviada na quinta-feira aos deputados da Comissão de Cultura da Assembleia da República, os membros do fórum afirmam que está prevista a “colocação de elevadores”, a “abertura de vãos” e “a construção de um parque de estacionamento subterrâneo” por baixo do jardim enorme e verdejante do palacete.

O fórum diz ainda, na mesma carta, que já foram feitos “vários buracos no chão da cozinha e em pelo menos uma das salas do palacete”, na sequência de “sondagens com vista a apurar-se da resistência estrutural do edifício”. O projecto de reabilitação ainda não teve luz verde, mas, tendo em conta estes trabalhos, “parece ter já aprovação garantida”, criticam os membros do Cidadania Lx. Na carta pede-se, por isso, que os deputados intervenham, pressionando a câmara e a DGPC.

A comunidade ismailita, liderada mundialmente pelo príncipe Aga Khan, garante que não há razões para alarme. “Como habitual em projectos desta natureza, realizaram-se sondagens no interior e exterior do palacete para perceber melhor as características do solo e as técnicas de construção”, esclarece um assessor de imprensa da organização. Essas sondagens visam também “aperfeiçoar o projecto de reabilitação”, que está a cargo do arquitecto Frederico Valsassina.

No início de Agosto, na sequência de um primeiro alerta do fórum, técnicos da autarquia deslocaram-se ao palacete para averiguar se estariam a ser feitas obras ilegais. A fiscalização não detectou sinais disso e o vereador do Urbanismo, Manuel Salgado, remeteu ao fórum a garantia de que apenas estavam a ser feitas “sondagens geológicas (recolha de amostras do solo)”.

Foi o facto de as sondagens terem passado do jardim para o interior do palacete fez disparar novamente o alarme do fórum, que considera que aqueles trabalhos precisavam de autorização expressa da câmara e da DGPC, uma vez que se trata de um imóvel classificado. O PÚBLICO perguntou à autarquia em que fase está a apreciação do projecto, mas não obteve resposta até ao fecho da edição.

O assessor de imprensa da comunidade ismailita confirma que vai ser construído “um  pequeno parque de estacionamento subterrâneo”, mas “sempre em escrupuloso cumprimento da legislação” e “respeitando todas as exigências técnicas”.

O palacete Henrique Mendonça foi construído na Rua Marquês de Fronteira no início do século XX. O projecto original é do arquitecto Miguel Ventura Terra, responsável por inúmeros edifícios em Lisboa, Porto e Viana do Castelo, entre outros locais. O imóvel, concluído em 1909, foi nos últimos anos ocupado por serviços da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, que adaptaram alguns espaços a salas de aulas e de trabalho. Os jardins da propriedade, também classificados, eram até há poucos anos de acesso livre e tinham esculturas provenientes da colecção Gulbenkian.

O Estado vendeu o palacete à comunidade ismailita em Maio do ano passado por 12 milhões de euros. A intenção do príncipe Aga Khan é instalar ali a sede mundial da organização, que representa uma corrente discreta e poderosa da religião muçulmana. Em Portugal, há cerca de oito mil fiéis e a Fundação Aga Khan desenvolve inúmeros projectos sociais, culturais e educativos.