A resistência cultural chegou ao fim. O Club de Vila Real fechou as portas

Falta de apoios, desinteresse da autarquia e problemas com o arrendamento. O Club de Vila Real, palco privilegiado da música alternativa e casa de um antigo salão de jogos, pôs um ponto final na sua história.

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O clube era visto como um “pequeno oásis”, por ter “uma programação fora do comum num sítio que é pouco central” Nelson Garrido
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Há 124 anos que o Club de Vila Real abria as portas à cultura, num edifício centenário da Avenida Carvalho Araújo, na cidade que lhe dá o nome. Nos últimos seis, foi “a casa de Portugal com mais concertos”, garante o programador cultural. 571 nomes da música alternativa pisaram aquele chão. Mas já não o vão poder pisar mais: o clube fechou.

Mário Pinto ainda fala no presente, como se continuasse a entrar e sair música daquele imponente edifício. Tem uma ligação especial com o espaço — cresceu entre aquelas paredes e o seu pai é o segundo sócio mais antigo. Desde 2011 que se tornou no seu posto de trabalho. Como programador cultural e responsável pelo bar, Mário passou a ser a cara do clube. E o que o manteve vivo.

Naquele espaço, já se fez de tudo — teatro, dança, apresentações de livros, poesia, marionetas. Mas foram os concertos com um custo de três a cinco euros que “apanharam uma dinâmica extraordinária”, explica: “Nós não parávamos. De repente mudava-se de punk para jazz, de jazz para fado, de rock para pop. Os concertos eram de um dia para o outro, sem parar.” E passou a ser Mário o procurado pelos músicos e não ao contrário.

O clube fez-se poiso obrigatório para artistas do mercado alternativo português, mas também do internacional — receberam bandas de mais de 70 países. E muitos dos que lá passaram quiseram voltar. Ficaram amigos da casa e do Mário. Foram esses que, no mês passado, inundaram o Facebook com mensagens de luto na página do clube, indignados com a falta de apoios, com o desinteresse da Câmara de Vila Real. Ambos motivos fulcrais para o fecho do espaço. “Nunca conseguimos ter um apoio que fizesse jus à actividade que tivemos”, confessa Mário. E adianta: “Quando eu entrei, o clube já tinha um apoio de 800 euros anuais e, com esta câmara, subiu para 1000. Mas não dá para nada, nem para um mês. Davam-nos os parabéns, mas reflectia-se em zero nos apoios.” Numa nota publicada na página do Club de Vila Real, Mário diz que o apoio era de “35 cêntimos por cada músico” que por lá passou.

Foram várias as cartas que o programador dirigiu à vereadora da Cultura, Eugénia Almeida — “O nível de actividade era tão grande que nós achávamos que era impossível que não nos apoiassem”, confessa. Enviava a lista de concertos e pedia apoio, não só financeiro. Apesar dos contactos, a programação do clube nunca chegou a fazer parte da programação da câmara. E recentemente o desinteresse da autarquia fez-se ouvir mais alto: “Quando eu comecei, a câmara não fazia concertos de música alternativa. Agora já fazem, com os meios deles, mas fazem. Imensas vezes à porta do clube, de graça, à mesma hora que os meus concertos. É uma total ignorância sobre a actividade do clube. E é impossível competir.”

No ano passado, Vila Real e Matosinhos foram Capitais da Cultura do Eixo Atlântico. Mas pouco ou nada mudou para Mário: “Houve 300 eventos. Nós fizemos mais de 70. Não fomos apoiados em nada.”

O PÚBLICO tentou contactar a vereadora da cultura da cidade, mas não obteve qualquer resposta.

À longa luta pelos apoios, juntou-se a confusão com o arrendamento: “Recebemos uma carta do advogado do senhorio a dizer que ele não queria renovar e que nós teríamos de sair. Esta ameaça de despejo afectou o nosso futuro. E eu trabalho com o futuro, faço programação a três, quatro, cinco meses para a frente. Não sabíamos o que é que ia acontecer e eu deixei de fazer a programação.” Entretanto, com os seus próprios meios decidiu contactar um advogado para lhe explicar o que estava a acontecer. “Descobri que, em Junho deste ano, saiu uma lei [Lei n.º 42

2017] a dizer que os locais históricos ou com actividade cultural têm mais cinco anos para permanecer nos sítios. Isso permitia que o clube ficasse nas instalações. Mas alguns membros da direcção do clube, cansados com a situação, optaram por entregar o clube [ao senhorio].” E Mário, já desmotivado pela falta de apoios, deixou cair os braços.

O centralismo vence

Quem fica a ganhar com o encerramento são o centralismo e a exclusão cultural, explica o programador, que considera que o que se passou é “também um resultado de Vila Real estar fora dos centros de decisões”. Para Mário, trata-se de um problema estrutural: “Não há aqui uma estrutura cultural que permita que haja na câmara, entre as pessoas eleitas, uma percepção do que se passa aqui. Estão vocacionados para ser políticos, não são pessoas ligadas à cultura e, de maneira nenhuma, ligadas à cultura alternativa.” E acrescenta: “Na verdade, o clube é mais aclamado fora de Vila Real do que dentro. O pessoal de Vila Real que estuda no Porto rapidamente se apercebe do que está aqui a acontecer porque vêem as bandas que cá actuam também no Porto. Vêem-nas a actuar na Casa da Música, no Plano B, nos Maus Hábitos. E percebem o trabalho que está aqui a ser feito, orgulham-se.”

Mário queixa-se, ainda, da falta de atenção dos media: “Nunca houve um jornal a vir aqui fazer uma reportagem sobre um concerto. E estamos a falar de concertos que são reportados em Lisboa e no Porto em vários jornais constantemente. É uma luta do interior, isto. É um país bastante desigual. Na cobertura jornalística, nos apoios, em tudo.”

Os grandes promotores do clube eram, antes, as bandas que lá actuavam: “Foram eles os grandes disseminadores do nome do clube como uma coisa de muita qualidade. E foi uma magia bonita, acontecer isso por parte deles”.

Um oásis

A artista portuense Catarina Valadas via o clube como um “pequeno oásis”, por ter “uma programação fora do comum num sítio que é pouco central.” Actuou no espaço com três projectos diferentes — Aquilo que vocês quiserem, Orquestra Fina e Retimbrar — e conhece a batalha de Mário pela sobrevivência do espaço: “O Club de Vila Real foi um sítio marcante tanto para mim, enquanto músico, como para 90% dos meus colegas. Porque o Mário conseguia fazer uma agenda com alta qualidade quase sem apoios. A malta ia lá porque era bem recebida e já era um sítio de culto para os músicos. Não íamos lá ganhar rios de dinheiro e, no entanto, toda a gente queria ir lá tocar.”

Catarina conta que “sempre foi notória a ausência de apoios por parte da câmara”, mas acredita que o encerramento de espaços mais alternativos é algo transversal em todo o país: “Anunciaram o fecho do Cave 45 no Porto. É curioso ver que apesar de haver mais oferta no Porto e Lisboa, estes sítios um pouco mais alternativos têm mais dificuldades em se manterem e não necessariamente pela falta de público.” A consequência é a redução da diversidade musical, conclui.

Pela sala de concertos do Club Vila Real, com vista privilegiada sobre a avenida, passaram alguns nomes sonantes como Mike Watt, baixista dos The Stooges, Diva Dompé, filha do baterista dos Bauhaus, e Soviet Soviet. Dos portugueses, Mário destaca concertos de alguns membros dos Ornatos Violeta, do Bandemónio, os vimaranenses El Rupe, Um Corpo Estranho, de Setúbal, e os portuenses The Rite of Trio.

O clube que nasceu elitista fecha as portas no pico de actividade cultural e deixa um espaço vazio na promoção da cultura alternativa na região. Mas há outros que vão sentir a sua falta. Para além da sala de concertos e dos dois bares, um deles repleto de marcas rectangulares nas paredes e tecto devido à recente retirada de centenas de cartazes, o clube alberga um salão de jogos que se manteve activo desde a sua fundação. É lá que se encontram os sócios mais antigos. E há quem não se tenha, ainda, habituado ao fim de um hábito de anos.

A meio da tarde o Sr. Fernando continua a subir as escadas e a atravessar as portas do edifício emblemático. “Não está aí ninguém, Sr. Fernando”, avisa Mário. “Mas há jornal?”, pergunta. Ao ouvir uma resposta afirmativa, senta-se sozinho no salão de jogos. Quando vê que entra mais do que um par de ouvidos na sala, conta que é sócio do clube desde 1949. É também para ele que as portas se fecham.