Partilhar a noite com 700 árvores e 130 animais

A Quinta das Águias é uma organização sem fins lucrativos, um santuário para animais resgatados e uma unidade de alojamento em Rubiães, Paredes de Coura. Os hóspedes que a procuram são sobretudo os que gostam da natureza e têm consciência ecológica, mas as portas estão abertas para todos.

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Paulo Pimenta
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Da estrada de terra batida vêem-se árvores. Muitas — saberemos depois que são mais de 700, plantadas numa propriedade com cinco hectares. Ivone Ingen Housz sobe o caminho de pedra que dá acesso ao portão da Quinta das Águias em passo ligeiro, com um molho de plantas na mão. “Ia agora mesmo apanhar couves para o almoço”, diz, ainda de longe, com um gato à espreita por detrás das pernas. Tímido nos primeiros momentos, logo se aproxima à procura de uma festa e é o primeiro dos mais de 130 animais da quinta que se deixa ver. Ainda antes de conhecermos os quartos desta unidade de alojamento, Ivone conduz-nos até à horta, já com vários gatos no encalço. Afinal, o marido, Joep Ingen Housz, já está nos preparativos para o almoço. Vegetariano, como tudo o que se cozinha nesta quinta sustentável que é também uma organização sem fins lucrativos.

“Tudo começa com um sonho, não é?”, vai dizendo Ivone. E o projecto da Quinta das Águias parece dar razão a esta minhota de 60 anos que, antes de dedicar a vida aos animais e à natureza, se formou em Psicologia e abriu um consultório próprio, já depois de trabalhar numa companhia de seguros. A certa altura, o sonho da portuguesa cruzou-se com o de um engenheiro informático holandês. Conheceram-se em França, durante um retiro budista, e Joep partilhou outro sonho: “Ter uma casa de madeira no meio do bosque.” Juntos, percorreram Portugal em busca de um terreno para comprar e transformar em casa. Rubiães, freguesia de Paredes de Coura, foi a localização escolhida, para, em 2005, construírem a tal casa de madeira no meio de árvores. A propriedade esteve abandonada durante 30 anos, com um “terreno muito fértil”; a prova é a quantidade de plantas que aí crescem.

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“Tudo começa com um sonho, não é?”, diz Ivone Paulo Pimenta

Com o tempo, a casa de família passou a assumir, também, o papel de santuário para animais resgatados e local de retiros e masterclasses de ioga. “Temos de partilhar esta paz com as pessoas”, acabaram por decidir, em 2013. Recuperaram duas construções antigas, de pedra, presentes na quinta, e criaram duas opções de alojamento: uma casa de hóspedes (com duas suítes e quarto duplo) e uma outra casinha independente, de tipologia T0. “Quem nos procura gosta de natureza e de animais, tem consciência ecológica e está, muitas vezes, num caminho de desenvolvimento pessoal”, conta Ivone.

A casa independente — a Peacock Cottage — é a primeira quando se passa o portão. O nome não engana: os pavões que passeiam livremente pela quinta têm uma predilecção por ocupar este telhado. São 70 metros quadrados em espaço aberto, com um módulo que agrega uma minicozinha, arrumação e uma casa de banho. Com paredes de pedra e um tecto alto de madeira, a Peacock Cottage reúne algumas lembranças familiares de Ivone. O espelho grande de madeira maciça que ocupa uma das paredes fazia parte da casa do Porto, onde Ivone viveu durante toda a vida adulta, e um armário, também de madeira escura, está recheado de livros antigos. A “paz” que o casal procurava e que pode ser experienciada pelos hóspedes é uma realidade nesta cabana de pedra, mas fiquem descansados aqueles que não vivem sem um televisor, Internet ou ar condicionado. O mesmo acontece na casa de hóspedes, que oferece salas de estar e de jantar comuns, assim como uma cozinha completa.

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A Peacock Cottage Paulo Pimenta

Estamos numa quinta sustentável, onde os animais são livres (com algumas excepções) e os hóspedes são convidados a participar na rotina diária. Ivone e Joep levam hora e meia para alimentar todos os animais, todos os dias. Ao fim do ano são consumidas dez toneladas de alimento por gatos, cães, cavalos, porcos, coelhos, perus, patos, gansos, pavões, ovelhas, codornizes, porquinhos-da-Índia, tartarugas. “Salvamos animais da panela”, resume Ivone.

As panelas em que são cozinhadas as refeições vegetarianas aqui servidas são da responsabilidade de Joep. Nascido em Eindhoven há 69 anos, este engenheiro informático nunca imaginou que, nesta altura da vida, estaria a viver em Portugal, dedicado aos animais e à cozinha vegetariana. “Noutra vida, passava férias no Algarve a jogar golfe”, brinca, em língua portuguesa. Ambos vivem “segundo o budismo tibetano”, no qual reconhecem muitos dos valores que consideram importantes: “O respeito por todos os seres vivos, a não hipervalorização do homem e a auto-responsabilização”. “Não é uma religião”, sublinham. “É uma filosofia.”

As couves apanhadas por Ivone ao fim da manhã são cozinhadas por Joep para o almoço, juntamente com batatas também cultivadas na quinta, um estufado de grão de bico e cogumelos e arroz selvagem. O chá de ervas que Ivone faz, várias vezes ao dia, acompanha o almoço e muffins totalmente vegan rematam a refeição. Mediante marcação, Joep prepara almoços e jantares para os hóspedes (10 euros/pessoa), servidos na sala de jantar da casa de pedra. Os hambúrgueres vegetarianos costumam fazer sucesso, diz, assim como o queijo vegan e o leite de amêndoa dos pequenos-almoços. Vegetarianos há largos anos, praticam aquilo a que chamam “activismo positivo”. Não criticam quem come produtos animais, preferem sugerir “um caminho novo”. “Tentamos mostrar às pessoas que o vegetarianismo é uma alternativa ao estilo de vida que levam. É possível ser vegetariano sem gastar muito dinheiro.”

Não há quem não se renda às camas de rede espalhadas pela quinta, com vista para os campos, ou a fotografar os animais que espreitam um pouco por todos os cantos da propriedade. Os gatos e os cães são os que mais se aproximam a pedir atenção, mas as três porcas conquistam os mais pequenos. As famílias que chegam à procura do contacto com a natureza são conduzidas numa visita guiada por Ivone, conhecedora dos nomes dos animais e das plantas. Há crianças que nunca viram porcos sem ser num ambiente fechado e adultos com a ideia pré-concebida de que estes são “animais maus”. “Queremos que vejam os animais de maneira diferente.”

 A Fugas esteve alojada a convite da Quinta das Águias