Governo admite retirar 50 utentes a cada médico de família. Sindicatos querem muito mais

Segunda greve dos médicos deste ano avançou na região Norte, provocando o adiamento de cirurgias e de consultas . Sindicatos aguardam contraproposta do Governo ainda esta semana.

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Nelson Garrido
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Os sindicatos que representam os médicos mantêm a intenção de avançar com mais duas greves regionais - nesta quarta-feira realizou-se a primeira, no Norte -, enquanto aguardam que o Governo apresente uma nova contraproposta às suas reivindicações ainda esta semana. Esta foi a segunda paralisação convocada este ano e provocou o adiamento de cirurgias e de consultas, uma contabilidade impossível de fazer, uma vez que a tutela e as unidades de saúde não avançam com números.

Calculando que a adesão à greve desta quarta-feira rondou os "80%" nos blocos operatórios e nos centros de saúde e os "60%" nas consultas hospitalares, números próximos da greve nacional de 10 e 11 de Maio passado, o secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), Jorge Roque da Cunha, considera que, apesar da "intransigência" revelada pelo Governo ao longo dos negociações que duram há mais de um ano, ainda será possível chegar a um acordo em breve.

Na última contraproposta, os ministérios da Saúde e das Finanças aceitaram já uma das três principais reivindicações dos sindicatos - a redução de 200 para 150 horas obrigatórias de trabalho suplementar por ano - e mostraram-se dispostos a retirar 50 utentes aos médicos de família, com uma série de condições, adiantou Roque da Cunha. Mas esta última proposta foi considerada inaceitável - os sindicatos reclamam que as listas de utentes baixem paulatinamente de 1900 para 1550 utentes, à semelhança do que acontecia antes de a troika chegar a Portugal. Querem também fazer apenas 12 horas por semana na urgência, em vez das actuais 18 horas.

Ao mesmo tempo que dizem não haver médicos de família em número suficiente para colmatar as necessidades da população, lamenta o dirigente sindical, atrasaram os concursos para os jovens especialistas, o que terá feito com que "cerca de um terço dos 290" que termiram o internato tivessem entretanto "deixado do Serviço Nacional de Saúde - foram trabalhar para o sector privado ou emigraram". 

A greve vai repetir-se agora no Centro na próxima quarta-feira e, no Sul, no dia 25. O protesto culminará com uma greve nacional, em 8 de Novembro.

Esta quarta-feira, segundo a versão dos sindicatos, foram muitas as cirurgias e consultas que tiveram que ser adiadas. Em Viana do Castelo e na Póvoa de Varzim/Vila do Conde, os blocos operatórios estiveram "encerrados", em Matosinhos "apenas funcionou um bloco operatório central para um doente oncológico" e no Hospital de São João e no Centro Hospitalar do Porto só houve "duas salas de bloco operatório abertas", sintetizou o SIM, num comunicado conjunto com a Federação Nacional dos Médicos (Fnam) ao fim da tarde. 

Só no hospital de Matosinhos deverão ser “canceladas 45 cirurgias”, precisou Manuela Dias, dirigente do SIM, enfatizando que a classe está "a lutar por melhores condições de trabalho". 

No Hospital de S. João, na zona das consultas externas, o movimento era mais reduzido do que o habitual, como admitia um segurança, mas pelos corredores circulavam vários médicos que não aderiram à paralisação. "Nem consegui ter tempo para ler a convocatória e perceber quais são as razões do protesto. Não sou sindicalizado... Agora, é óbvio que há muita coisa que é preciso mudar no Serviço Nacional de Saúde", disse um jovem médico.

Nos centros de saúde o impacto foi maior. No Centro da Saúde da Senhora da Hora (Matosinhos), 80% dos médicos fizeram greve e num dos centros de saúde de Leça da Palmeira a adesão foi mesmo de 100%, segundo Hermínia Teixeira, do SIM. No Centro de Saúde do Carandá (Braga), terão também sido “muitos” os clínicos que aderiram à greve, deixando algumas das Unidades de Saúde Familiar que ali funcionam sem médicos. "Tive de faltar ao trabalho para vir aqui a uma consulta, que já me foi remarcada duas vezes e vou embora sem a consulta. Isto causa-me muito transtorno", lamentou Cláudia Silva à Lusa.

 

 

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