As canções que salvam os dias de Mazgani

Ao quinto álbum, The Poet’s Death, continua a refinar uma escrita de canções despojadas, capazes de o ajudar a encontrar um sentido para a vida. Dia 18 apresenta o disco no Teatro do Bairro, em Lisboa.

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Há quem pratique tai chi chuan ou ioga para descomprimir do frenesim da cidade, há quem faça retiros no campo para desacelerar os dias, há quem procure spas e massagens para oferecer algum sossego ao corpo, há quem se adentre na natureza para ter direito ao silêncio por oposição ao ruído incessante do bulício humano. As canções de Shahryar Mazgani (nascido no Irão em 1975 e chegado a Portugal aos quatro anos, em fuga da Revolução Islâmica de 1979) cumprem um propósito semelhante. São feitas com recursos mínimos, desenvolvidas com lentidão, gravadas sem procurar obsessivamente a perfeição, acolhendo erros e desvios do momento. “É preciso que haja arestas para sermos gente, para sermos indivíduos, para sermos sujeitos”, justifica ao Ípsilon numa altura em que lança o seu quinto álbum, The Poet’s Death.

Mazgani admite que as suas canções são uma forma de resistência pessoal, reacção a um mundo saturado de estímulos e em que o autopoliciamento e o policiamento de todos os outros parece roubar cada vez mais a possibilidade do erro, em que os estúdios e o software de produção musical oferecem uma miríade de ferramentas de correcção e aperfeiçoamento do gesto humano. Cada uma das canções de The Poet’s Death, como acontecia já nos anteriores discos do músico, é talhada num ambiente de despojamento. Em parte, diz Mazgani, porque quer garantir que o ouvinte tem espaço para circular por dentro das canções, para que este possa trazer a sua própria história para a narrativa que o músico vai desenleando. Este despojamento reage, uma vez mais, contra aquilo que é a prática habitual da manipulação dos factos e das imagens, “em que todo o fenómeno violento nos é apresentado com violinos e em que todas as imagens têm de nos ser mostradas com estrondo, sempre uma coisa wagneriana”.

Não se trata, ainda assim, apena de mera reacção à sobre-estimulação dos dias que correm. Mazgani filia-se numa tradição de grandes cantautores anglófonos – Leonard Cohen e Tom Waits à cabeça, PJ Harvey da última década à espreita –  gente que não apressa as canções, que deixa pousar o verso sobre a música sem reboliço, deixando que a palavra e cada narrativa se instale no ouvinte cercando-o lentamente, quase sem esforço. Quando Mazgani desacelera e não inflige constantes guinadas na canção, recusando tomar parte num qualquer campeonato de complexificação ou de estruturas que puxem a cada dois segundos pelo trunfo da surpresa, diz estar a “tentar fazer com menos, a tentar aguentar num mesmo sítio em silêncio, a aguentar a tensão, permitir que não aconteça nada na canção durante algum tempo”.

“Isso nasce da convicção de que quem se propõe fazer este trabalho tem de abraçar uma certa lentidão, um certo silêncio e impor-se um certo ritmo, uma forma de respirar diferente daquela que nos é imposta”, diz. A respiração de The Poet’s Death é, por isso, compassada, indutora de estados contemplativos e pouco dada a cadências ofegantes. “A engenharia da coisa [chamemos-lhe sociedade contemporânea], sem querer parecer um louco da conspiração, está feita para corrermos. É essa informação que recebemos – que temos de correr. E isso não é verdade.”

Mazgani armadilha também, com absoluta consciência, a sua própria engenharia de fazedor de canções. Para escrever The Poet’s Death, tentou encontrar novos processos, novos locais onde deixar as palavras emergirem, novas posições na guitarra que os dedos não conheçam de cor. “Uma tentativa de mapear novas geografias interiores”, resume. The Poet’s Death fareja constantemente esses novos rumos, sem ter de fazer um espectáculo disso, sempre com a graciosidade de quem tenta novos caminhos sabendo que vai chegar ao mesmo sítio. Afinal, Mazgani está convencido de que escreve sempre a mesma canção. Por muito que assuma sempre jeitos diferentes – é ouvi-lo a 18 no Teatro do Bairro, Lisboa, para o testemunhar.

Disco de preces

Por alturas do lançamento do seu álbum de estreia, Song of the New Heart, em 2007, Shahryar Mazgani inscreveu-se na Universidade Católica para poder assistir às aulas do padre e poeta José Tolentino Mendonça. “O encontro com a poesia dele foi uma coisa muito importante para mim, impressionou-me muito”, desvenda. Essa aproximação havia de conduzir gradualmente a uma amizade que se fortificou e se mantém até hoje. A ponto de Tolentino Mendonça assinar o texto de apresentação do novo álbum, chamando-lhe “um disco pop, claro”, mas acrescentando que é também “um livro de preces”.

Mazgani não enjeita a ideia, referindo-se à prece como algo que “pode mudar o nosso passado”. “Há esse milagre, esse fenómeno de podermos mudar o nosso passado. Porque uma coisa é a nossa vida e outra coisa é a nossa biografia. Não são necessariamente a mesma coisa se houver uma religação e a prece muda a relação que temos com a nossa memória.” Ao reescrever de forma consecutiva o seu passado em cada canção, mantém esse canal de comunicação fundamental com o património e com o passado íntimo, percebendo-o, suturando-o, desculpando-o, reforçando-o, integrando-o. Por muito que, como salienta, nada disto seja um processo assim tão calculado.

A ideia de religação é algo que Mazgani associa também a uma forma de “viver com atenção – e isso é viver muito próximo da religião, no sentido de saber o peso e a ressonância de cada gesto, e viver muito próximo da poesia”. Essa sombra de religião, de resto, sempre esteve presente nas suas canções, como se cada uma se construísse sobre alicerces soul, gospel e blues, afectos a uma certa elegância apontada à transcendência. Em sintonia, aliás, com a sua crença de que cada canção carrega em si um potencial salvífico. Se as canções dos outros lhe salvam frequentemente os dias, com Cohen no lugar de salvador-mor, Mazgani confessa que saber a que distância se encontra dos seus mestres é também algo libertador – “a derrota”, diz, “é a própria salvação”. Mas também as suas criações providenciam essa capacidade de atribuir sentido à vida. “Há muitas coisas que não me correm bem no quotidiano, como com toda a gente”, reconhece, “mas tenho sempre as minhas canções, às quais volto. E essa minha ocupação é suficiente para dar um norte ao meu dia e safá-lo.”

E The Poet’s Death, com Peixe (Ornatos Violeta, Zelig) enquanto co-piloto, safa repetidamente Mazgani. Faz-se sempre de canções que não precisam de se reclamar grandiosas; são-no de forma discreta, despretensiosa e bela, movidas por essa missão desmesurada e tocante de safar o dia de um homem. E deixar que no dia seguinte outra lhe tome o lugar.