Dez datas essenciais para perceber Che Guevara

Podia ser implacável, e foi. Podia ser o melhor ser humano, como lhe chamou Jean-Paul Sartre, e foi. Morreu há 50 anos — nove balas numa aldeia da selva boliviana. Nem monstro nem herói, é um nome da História — da rebelião, da revolução e do socialismo.

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A imagem de Ernesto ''Che'' Guevara é omnipresente em Cuba LUSA/ALEJANDRO ERNESTO
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Presidente cubano Raúl Castro cumprimenta cidadãos cubanos por altura da sessão que assinalou os 50 anos da morte de "Che" Guevara LUSA/ALEJANDRO ERNESTO
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Centenas de pessoas erguem imagens alusivas ao guerrilheiro revolucionário LUSA/ALEJANDRO ERNESTO
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O vice-presidente de Cuba, Miguel Diaz-Canel, intervém durante a sessão, que decorreu em Santa Clara Reuters/STRINGER
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Imagens do ex-Presidente cubano Fidel Castro e do herói revolucionário Ernesto "Che" Guevara na cerimónia de Santa Clara Reuters/STRINGER
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Imagem do homenageado numa parede, horas antes da cerimónia LUSA/ALEJANDRO ERNESTO
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Santa Clara, Cuba LUSA/ALEJANDRO ERNESTO

1951 — Viajar para conhecer a América           

É o ano em que tudo começa para Ernesto Guevara, nascido a 14 de Junho de 1928 em Rosario, Argentina, e que estudou Medicina em Buenos Aires. Já começara a ler Marx e decide percorrer o interior do país. O que viu levou-o a querer viajar mais. Em 1951 interrompe o curso (termina em 53) e faz, de moto, oito mil quilómetros pela América do Sul. Vê sempre a mesma paisagem: pobreza endémica e condições de trabalho degradantes. Não sabe como se cura esta doença, mas já lhe atribui uma causa: o capitalismo.     

1954 — O nascimento de um revolucionário

Em 1953, parte numa segunda viagem, pela América Latina, 12 mil quilómetros desta vez: Bolívia, Peru, Equador, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras e El Salvador. A viagem termina na Guatemala, onde um presidente inspirado na URSS, Jacobo Árbenz Guzmán, combate a pobreza e aplica a reforma agrária. Em 1954 é derrubado por um golpe militar apoiado pelos EUA. Guevara está lá. Descobre o indigenismo e conclui que a dependência regional é alimentada pelo neocolonialismo americano — decide combatê-lo. 

1955 — Uma relação muito intensa

No dia 26 de Julho de 1953, Fidel e Raúl Castro, irmãos cubanos, tentam derrubar a ditadura de Fulgêncio Batista. O assalto ao Quartel Moncada (onde há armas para distribuir) fracassa — três anos de prisão e, depois, exílio no México. É aqui que Fidel e Guevara se conhecem e o argentino se junta aos guerrilheiros — primeiro como médico, a seguir como combatente. Desde o primeiro momento, a relação foi intensa — dez horas durou a primeira conversa —, e “reflectiu sempre um complexo jogo geopolítico em que as mentiras, a manipulação e a luta pelo poder selaram o destino de Cuba” (Revolutionary Friends, Al-Jazira).

1956 — Uma ideia para mudar o mundo

É o ano do desembarque em Cuba e do início dos combates contra Batista. O médico argentino Ernesto Guevara de La Serna já não existe. Entre os camaradas do Movimento 26 de Julho é o “Che” — a palavra que os argentinos usam para “pá”. Já não é o jovem marxista que viajava de moto e escrevia diários à procura de uma resposta intelectual para o subdesenvolvimento da América Latina. É um chefe militar, braço direito de Fidel, e está pronto a chegar ao poder porque tem uma visão para mudar o mundo: o socialismo revolucionário.

1959 — Bom soldado, mau político

A 1 de Janeiro de 1959, as tropas entram em Havana. Mas agora a revolução acabou e é preciso reconstruir o país. Che é o arquitecto da mudança económica. Nacionaliza, cria um plano acelerado de industrialização (quase fatal para a indústria estratégica do açúcar), diversifica a produção agrícola, diverge das orientações de Moscovo — a sua visão económica está mais próxima de Pequim. No final de 1963, a economia cubana “é um fracasso” e, em 1965, Castro quer mesmo afastar Guevara, diz o relatório da CIA sobre “A queda de Guevara e as mudanças na revolução”.

1962 — Mísseis soviéticos apontados ao vizinho

Durante 13 dias, o mundo está à beira da guerra nuclear. Já passara o momento de Cuba poder ser “radical, anticomunista” — como dissera Fidel ao New York Times ainda na Sierra Maestra. Havana aproximara-se de Moscovo. Che foi crucial na decisão de receber os mísseis soviéticos apontados ao país imperialista. Moscovo recua e Che está descontente — critica a URSS, criando desconforto numa Havana que precisa cada vez mais da ajuda deste aliado. Fidel quer Che fora de cena, primeiro a prazo, depois de forma mais permanente. 

1964 — Exportar a revolução para o mundo

Che Guevara é agora o diplomata de Cuba que percorre o mundo a falar do socialismo cubano. Durante três meses está na China. Conversa no encontro com Mao Tsetung: 
“Mao: Vocês são internacionalistas?
Che: Internacionalistas da América Latina.”
Visita a Rússia, a Checoslováquia. O guevarismo está pronto a ir para o terreno: o nó pobreza/dependência/imperialismo/neocolonialismo que oprime o terceiro mundo só pode ser desfeito com a luta armada.

1965 — “Esta é a história de um fracasso”

No dia 3 de Outubro, Fidel Castro divulga a carta que confirma a sua ruptura com Che e o regresso do revolucionário à sua velha vocação. Guevara renuncia a todos os seus cargos (foi presidente do Banco Nacional e ministro da Indústria) para se dedicar “a outros campos de batalha”. Visita países africanos para onde quer levar a revolução, entre eles Zaire e Congo — também escreveu um diário sobre o seu sonho africano, a primeira frase resume o que aconteceu com a expedição militar no Congo, onde queria apoiar uma revolta para depor o governo apoiado pelos EUA após o assassínio de Patrice Lumumba, em 1961: “Esta é a história de um fracasso.” 

1967 — Morto e atirado para a vala comum

Fidel não quer Che dentro de casa. Nunca quis Cuba tornada base para lançar revoluções noutros países (outro pomo de discórdia). Uma viagem — Argentina, Paraguai, Brasil e, finalmente, Bolívia, o país que escolheu para lançar as revoluções na América Latina. A CIA segue-lhe os passos. A 8 de Outubro é ferido e capturado, a 9 é executado pelo Exército boliviano em La Higuera. Tem 39 anos. O seu corpo fica ali, na vala comum, até Castro o reabilitar como herói da revolução e lhe dar um mausoléu em Cuba... em 1997. 

2017 — Que significa “seremos como el Che”?

Passaram 50 anos — e as datas redondas pedem reflexões. Uns recordam o militar cruel que mandou executar centenas de pessoas, outros que apesar da “pinta de messias quis impor a tirania ao mundo” (HuffPost). Mas a pergunta mais pertinente é se ainda é relevante. 
Há quem garanta que sim, como modelo utópico num momento em que o mundo quanto mais globalizado está, mais individualista se torna (La Repubblica). “Seremos como el Che”, cantam os alunos das escolas primárias cubanas. O que quer dizer que querem pôr os ideais à frente das ambições.