Amianto, uma substância que passou de "mineral mágico" a maldito

Até 2020, o Governo quer remover todos os materiais com amianto dos edifícios públicos. Mas o que se sabe sobre esta substância tão utilizada a partir da II Guerra Mundial e completamente proibida na União Europeia desde 2005?

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Enric Vives Rubio

O amianto (ou asbesto) é uma substância cancerígena, por isso, sempre que é mencionada, semeia o medo e alimenta incertezas. Mas em muitos casos, o risco de inalação das suas fibras ou poeiras cancerígenas é bastante reduzido, diz o especialista em segurança e saúde no trabalho, José Manuel Mendes Delgado, professor no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra (ISEC) e director-geral da empresa 44 Engenharia. No final de Setembro, este engenheiro civil apresentou um novo trabalho sobre o tema. Pretende que seja “uma fonte de informação acessível e objectiva” para proteger os trabalhadores e a população em geral.

Muitos edifícios públicos do país foram construídos com coberturas em fibrocimento que contêm esta substância. E, até 2020, o Governo quer remover todos os materiais com amianto dos edifícios públicos. “O que acontece é que os materiais que contêm amianto em situação não friável — como é o fibrocimento de chapas de coberturas — têm um cimento aglutinante forte capaz de aprisionar as fibras e dificultar a sua libertação para o ar”, explica José Delgado. Assim sendo, a probabilidade de haver libertação de fibras, durante a sua “vida útil” ou a sua remoção, acaba por ser bastante baixa. Já se estivermos a falar de um material que esteja muito envelhecido, degradado ou que já tenha sido alvo de alguma agressão directa (isto é, quebrado, cortado ou perfurado), o cenário pode alterar-se.

“Por isso, é que uma monitorização regular é essencial”, salienta. O objectivo é garantir que as fibras emitidas para o ar não representam uma ameaça para a saúde de quem vive, trabalha ou frequenta espaços onde o amianto está presente.

Ao contrário do não friável, o amianto friável desagrega-se de forma natural (ou facilmente se reduz a pó) e a ligação do amianto ao material é bastante ténue. Portanto, o risco de libertação de fibras e poeiras para o ar é muito maior. “É nestes casos que o amianto é mais perigoso, mas não é o que se passa em muitas escolas do nosso país”, que têm amianto não friável nas coberturas de fibrocimento, sublinha José Delgado.

No fundo, a friabilidade do amianto e o estado do material que o contém acabam por ditar se se efectua ou não a sua remoção. Sempre da responsabilidade de técnicos com formação específica e devidamente protegidos, a remoção nunca deve envolver processos abrasivos. Além disso, os materiais devem ser manuseados com cuidado, embalados e rotulados com a devida identificação, para depois serem encaminhados para “empresas de recepção de resíduos de amianto devidamente autorizadas e certificadas”.

José Delgado diz, de resto, que o trabalho desenvolvido por algumas escolas tem sido interessante por estarem a aliar a remoção do amianto ao isolamento térmico das instalações, aumentando a eficiência energética dos edifícios.

Outro aspecto referido pelo especialista é o facto de estas coberturas em fibrocimento — muito utilizadas não só em escolas, mas também em hospitais, portos e muitas outras infra-estruturas públicas serem todas anteriores a 2005, ano em a Comissão Europeia interditou toda a produção e comercialização de amianto em território europeu.

Esta fibra mineral sedosa extraída de rochas foi intensamente utilizada na Europa entre os anos 40 e 90 do século passado, particularmente nos países mais industrializados — o que não é o caso de Portugal, mas do Reino Unido ou da Alemanha. Foi uma “matéria-prima” de eleição na reconstrução europeia, amplamente usada, por exemplo, em instalações eléctricas, tubagens de água quente, revestimentos, pavimentos ou tectos.

A proibição na União Europeia (UE) em 2005 não inibiu a produção e comercialização de fibrocimento. “O que encontramos agora no mercado é um fibrocimento que não contém amianto (mas outras fibras derivadas da madeira ou de materiais sintéticos) e costuma ser identificado com a designação ‘natura’ nas chapas.” Assim teve de ser porque o “ouro branco” ou “mineral mágico” do pós-II Guerra Mundial tornou-se uma ameaça global.

Na ausência de quaisquer medidas preventivas, a inalação de fibras ou poeiras de amianto (invisível a olho nu) pode estar por detrás de três doenças: a asbestose (quando as fibras microscópicas do amianto penetram os pulmões como pequenos espinhos), o cancro do pulmão ou, mais grave, o mesotelioma — um cancro que costuma atingir a membrana que reveste os pulmões ou aquela que cobre o interior da cavidade abdominal.

“As doenças provocadas pela inalação de fibras de amianto são silenciosas porque, na maioria dos casos, os seus efeitos surgem muitos anos depois das situações de exposição.” Na verdade, o intervalo de tempo entre a exposição ao amianto e os primeiros sintomas de doença pode ser mesmo de 30 ou 40 anos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, todos os anos há entre 20 mil e 30 mil casos de doenças relacionadas com o amianto na UE e estima-se que, até 2030, se registem 300 mil vítimas de mesotelioma.

Texto editado por Teresa Firmino