Reportagem

CDU passa testemunho a PS na presidência da Câmara de Castro Verde

A eleição de pessoas, e não de partidos, é um princípio presente na vitória do jornalista António José Brito, um resultado inesperado até para muitos que nele votaram.

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A autarquia de Castro Verde era uma das últimas fortalezas da CDU no distrito de Beja DANIEL ROCHA

Ao fim de 41 anos de liderança comunista na Câmara de Castro Verde, os socialistas acabam de conquistar uma das derradeiras praças fortes que a CDU mantinha no distrito de Beja, desde 1976. A outra é Serpa, onde os comunistas reforçaram a sua liderança. Não elegeram o quinto vereador de um executivo de sete por meia centena de votos.   

Em Castro Verde, embora só alguns admitissem uma mudança, a maioria da população escolheu o jornalista António José Brito, que finalmente saboreia a vitória, depois da derrota que sofreu nas eleições autárquicas de 2013.

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No dia a seguir às eleições, as conversas de café denotavam a surpresa: “O PC deixou de mandar na câmara”. Foi um dos comentários que se fizeram ouvir, a revelar, nalguns casos, estupefacção.   

Adelina Afonso, residente na freguesia de S. Bárbara de Padrões, confessou ao PÚBLICO que sempre votara “no mesmo partido”. Mas desta vez mudou o sentido do voto. Começa por recordar “o senhor Fernando Caeiros, uma excelente pessoa”, que foi presidente de Câmara de Castro Verde entre 1976 e 2008 - “e de quem nós gostávamos muito”, diz. A explicação para não votar no actual líder da autarquia, Francisco Duarte, um independente eleito na lista da CDU em 2009 e em 2013, reside na sua “idade mais avançada, enquanto António José Brito é uma pessoa mais nova, com ideias novas”. Diz que não conhece muito bem o candidato vencedor, mas acredita que “é uma excelente pessoa".  "Andou na escola com um filho meu”, acrescenta. E fica à espera do cumprimento das promessas que o próximo presidente fez durante a campanha eleitoral.

Os contactos de rua em Castro Verde revelaram-se problemáticos: “Não percebo nada de política”; “não falo do que não sei”, responderam várias das pessoas questionadas pelo PÚBLICO sobre o resultado das autárquicas de domingo. No entanto, há um dado curioso. Boa parte disse ter votado por ser “um dever que tinham de cumprir”.

Maria Estela, residente na aldeia de Almeirim, a sete quilómetros da sede do concelho, assumiu frontalmente a sua interpretação sobre a mudança de sinal político. “Votei como tenho votado sempre. É um direito que conquistámos com muito esforço e sofrimento de alguns. Votar é a nossa voz. O direito de poder dizer que sim ou que não”.

No entanto encara com muito cepticismo a eleição do candidato socialista. “Estou na expectativa, mas não acredito que vá para melhor”. E compara: “O Brito (António José) já encontra tudo feito” observa. Recorda que, antes do 25 de Abril de 1974, o lugar onde vive, não tinha luz, água e esgotos. “Agora temos tudo e até um museu e um centro cultural”, enumera Maria Estela, revelando que não conhece o perfil do futuro presidente, mas “espera que seja bom para bem de todos”.

Na Praça da Liberdade, no centro de Castro Verde, Antunes Barradas  está disposto a falar sobre as autárquicas. Diz que é natural de uma “territa” próxima de Castro Verde, mas vive em Almada desde “rapaz novo” e trabalhou em Lisboa. Está reformado e pensa viver, nos anos que lhe restam de vida, alguns meses por ano na terra onde arranjou uma casa que lhe ficou de herança. “Nunca votei aqui (Castro Verde), pensando que o meu voto fazia mais falta em Almada. Afinal foram as duas camaras da CDU para o PS”, observa desencantando.

Mas se em Almada ele viu sinais de que “a coisa podia dar para o torto”, em Castro Verde pensava que estava firme. “Olhe, está tudo ainda a engolir em seco. Agora andam todos a arranjar desculpas”, critica.

A gestão comunista na Câmara de Castro Verde foi interrompida. Iniciada em 1976, por Fernando Caeiros, na altura o mais jovem presidente de câmara do país, manteve o cargo até que entendeu que era chegada a hora de deixar a função, em 2009. Era militante do MDP/CDE e assim se manteve independente em relação ao PCP durante o seu longo mandato de 33 anos, em que nunca perdeu um acto eleitoral. Foi substituído nas eleições de 2009 por Francisco Duarte, arquitecto na Camara de Odemira, que foi eleito como independente e acaba de perder no segundo mandato o autarquia para o socialista António José Brito, um jornalista que foi director do Diário do Alentejo.