O reencontro histórico de Pete Rock & C.L. Smooth também passa pelo Porto

Depois de vários anos de relações cortadas, a lendária dupla do hip-hop americano está de volta aos discos. Esta noite, num Plano B há muito esgotado, oportunidade provavelmente única para os ver ao vivo.

Foto
DR

Estávamos em 2009, a era dos blogues e dos MySpaces – parece que foi no século passado, não é? Sam The Kid decidia, de súbito, criar um blogue chamado Neuronewz, no qual ia partilhando, descontraidamente e sem uma linha definida, curiosidades ligadas à música que amava, sempre com um olhar entre o audiófilo nerd e o ouvinte cool a mandar bitaites numa esquina. Numa dessas publicações, voltava a uma vexata quaestio do hip-hop, ou mais concretamente da sua performance em palco: o dilema entre a apresentação no formato tradicional DJ e MC ou no formato banda (hoje uma prática absolutamente corrente no hip-hop, mas bem rarefeita àquela época, em que os The Roots eram reis e senhores nesse campeonato). O respectivo vídeo – que Sam The Kid fazia acompanhar da frase “Para aqueles que dizem que ter banda ao vivo é ser mais ‘música’” – correspondia a uma extraordinária actuação de Pete Rock & C.L. Smooth em Paris (ainda hoje possível de encontrar no YouTube), um nos pratos e o outro no microfone a levarem uma multidão ao absoluto êxtase, electricidade corporal acompanhada de um som límpido e fortíssimo a sair das colunas.

Acontecimento histórico em finais de 2016: Pete Rock (produtor) & C.L. Smooth (rapper), uma das mais lendárias duplas da história do hip-hop americano, voltavam oficialmente a juntar-se e a pôr o pé na estrada para uma série de concertos que, tendo começado pelos EUA, rapidamente alastrou à Europa. Acontecimento histórico em finais de 2017: a dupla toca no Porto, num concerto organizado pela Versus, promotora portuense que, nos últimos anos, tem trazido gente de peso da velha e nova escola do rap americano a Portugal. Pelo vídeo pixelizado (nostalgia oblige) desse tremendo concerto na capital francesa, passam Down with the king (canção que C.L. gravou em 1993 para o álbum homónimo dos Run-DMC) e, claro, They reminisce over you (T.R.O.Y.), alguns dos clássicos que certamente muitos esperam ouvir esta noite, num há muito esgotado Plano B, da dupla nascida e criada em Mount Vernon, subúrbio de Nova Iorque.

Eram os anos 90

E o fascinante na sua história começa logo aqui: apesar de apenas terem editado três registos nos anos 90 (o EP All Souled Out, 1991, e os LP Mecca And The Soul Brother e The Main Ingredient, de 1992 e 1994, respectivamente), quando pensamos nessa década, por muitos considerada a golden age do hip-hop norte-americano, a tendência imediata é para relembrar Pete Rock e C.L. Smooth como tendo estado permanentemente activos. Algo que se explica, de facto, pela força e pelo impacto da sua música, absolutamente definidora de toda uma matriz estética e ética que jamais abandonou o ADN do hip-hop, seja ele feito em Nova Iorque ou num bairro pobre dos Barbados: o chamado boom-bap nova-iorquino (partilhado por nomes como os A Tribe Called Quest, De La Soul, Gang Starr, enfim, la crème de la crème), fórmula que, “etimologicamente”, se diz ter derivado da abordagem rítmica do kick and snare, ao som do primeiro se assemelhando o boom e ao segundo o bap. Por cima desse padrão, composições instrumentais regadas a samples de jazz, soul e funk, e preenchidas por letras ora introspectivas (tantas vezes poéticas), ora politicamente interventivas (conscious hip-hop, como também se passou a designar).

Além de fundacionais neste sentido, Pete Rock & C.L. Smooth foram também, a par de gente como os EPMD, Erick B & Rakim ou Gang Starr, uns dos grandes responsáveis para a afirmação do sólido conceito de “dupla” na história do hip-hop: de um lado, o rapper, do outro, o produtor (ou beatmaker), que lhe serve instrumentais ajustados ao seu flow, timbre, discurso. E Rock, enciclopédico conhecedor da música negra, sempre soube servir C.L. com conta, peso e medida, algo que se explica, desde logo, pelo facto de, antes de serem músicos, os dois terem crescido juntos, como ainda há tempos sublinhava o produtor e rapper J-Zone à publicação americana Spin: “Percebias que aqueles tipos andavam sempre juntos, isso passava para a música que faziam. Mais tarde, nos anos 2000, os artistas estavam tão preocupados em mostrar a sua versatilidade e em chegar a tantos públicos que já não conseguias sentir que eles viviam a vida do dia-a-dia. Ouvi-los é como passar um dia em Mount Vernon."

Voltar à estrada para voltar aos discos

O porquê da separação nunca quiseram explicar claramente ao longo de todos estes anos (desde 1994, data de The Main Ingredient, embora tenham existido pontuais reencontros), apenas se sabendo que foram vários e profundos os atritos. “Nós não agíamos como adultos, pensávamos como miúdos em termos de dinheiro, de negócios e da forma como nos relacionávamos com quem nos rodeava… Ambos tínhamos as pessoas erradas ao nosso lado e tomámos más decisões baseados no que nos diziam”, confidenciavam no ano passado à mesma publicação americana.

Até ao reencontro, porém, ambos fizeram o seu caminho, cada um à sua maneira. Se Rock foi produzindo ininterruptamente para os grandes nomes do hip-hop e entrando, desse modo, para o panteão dos produtores americanos (J Dilla, Madlib, Premier), C.L. preferiu deliberadamente manter-se na sombra; se Rock, em 1998, já estava a lançar Soul Survivor, houve que esperar por 2006 para se ouvir a C.L. American Me, álbum injustamente esquecido mas portentosa peça do hip-hop da primeira década dos anos 2000.

Numa fase inicial, voltaram a encontrar-se pessoalmente (como algumas fotografias em estúdio revelavam em 2016), para posteriormente anunciarem uma série de concertos, até que, já este ano, oficializaram o regresso aos discos, sobre o qual Pete Rock adiantou (apenas) que será “awesome”. Numa digressão que se iniciou pela Costa Oeste americana em 2016, seguiu depois para a costa natal da dupla e se encontra agora a percorrer praticamente toda a Europa, o Porto é, esta noite, cidade privilegiada e oportunidade provavelmente única para os ver em Portugal – e se a energia for metade da que se vê no vídeo do tal concerto em Paris, então já temos uma noite “awesome” assegurada. Down with the kings.

Sugerir correcção