Opinião

A Cultura no fim da linha

Há de facto muito pouca imaginação no debate autárquico, nenhuma invenção e muita anedota, folclore, populismos.

A cultura de campanha eleitoral é de temas definidos, rigidamente restrita. Podemos constatá-lo nos debates, os mesmos temas decalcam um mesmo tipo de receitas — a nuance, claro, sempre de dedo ao alto. E principalmente na assunção dos territórios de tema como os mesmos — a hegemonia do cliché salvífico implícito à expressão “crescimento económico” mantém a economia — o dinheiro — como “o tema”, a sua centralidade nunca é posta em causa, o tabu envaidece economistas, plantados no proscénio.

Com variantes sabidas de cor e outras folclóricas, em roleta cronometrada de respostas previsíveis afirmativas e nunca dubitativas, os temas dançam as mesmas danças, os pares de opostos são os mesmos, os para-consensuais também — aliás, como responder a uma interrogação? Corre-se o risco de se fazer pensar e de nos perdermos no discurso, uma gaffe leva a uma derrota, o importante é nada de hesitações. As interrogações, nesta mecânica, são arremesso. Mas como não errar se é a única possibilidade de errar melhor? Quem tem o exclusivo da verdade, ainda por cima única?

Acessibilidades, mobilidade, turismo — já enjoa —, casas e taxas, no limite a questão do emprego e da saúde onde sejam feridas expostas, quer dizer, não coincidam com as médias estatísticas, essas confortam, estar na média é excelente — as estatísticas são, entretanto, disparadas como balas, ciência exacta, a fé estatística cresce imparável, independentemente de métodos e domínios de proveniência. No interior mais desgraçado junte-se-lhe, ao discurso de hegemonia económica, a floresta, eucalipto oblige mais o pinheiro, economia também, pois é.

São temas relevantes, quem diria que não? Mas é como falar do essencial esquecendo outros essenciais, aqueles que nos permitem que a hierarquia das coisas não seja sempre a mesma — a mudança é uma alteração das relações entre hierarquias —, como naquela conversa antiga do saneamento básico e depois os arruamentos e depois etc., quando entretanto se morre de estupidez ou de nova iliteracia, informática, somada ao velho analfabetismo, das letras, essencial para uma literacia internética, se morre de inconsistência, de cultura publicitária, de um ambiente de “comercialização de todas as esferas do espírito”.

Pouco possível será que estes debates-concurso sejam mais que um papo agressivo, já que sendo programáticos são não debate, isto é, abertura, procura de soluções para o que não esteja arrumado mentalmente mais do que confronto de argumentários pré-estabelecido. Uma vez ou outra parece emergir o fragmento de uma ideia, inesperada ponta por onde se pudesse pegar e desenvolver um pensamento, mas a coisa morre de regresso à guerrilha verbal. Quando as pessoas se perdem na fala — ai ele fala tão bem!, diz a voz do grande costume estigmatizando o pensador —, ainda há esperança de algo. Muitas vezes o empenhamento emocional nem sequer é produção de sentido, nem sentido, orgânico, é decibel alto, outras vezes moleza ou arrogância: a escola do debate é pouco escuta, os ouvidos medem tempos, ouve-se sem ouvir enquanto se arma o cão para a próxima estocada. Um cadavre exquis seria impossível num debate destes.

Vale nisto, por razões de saúde mental, que os debates televisivos sejam, seja como for, dependentes do botão. Já a campanha na rua vai menos ruidosa na minha janela — será geral? Há menos cornetas a soar berrando. Na rua o festivo parece ter-se esgotado no Verão e vai automobilizado — toca e foge, as frases não se completam — ou indo físico e presencial, vai de conversa aos bochechos à procura de plateia ou câmara (não a municipal) — os grandes não vivem sem ela. Certamente a campanha por esse Portugal profundo não acede a nenhuma visibilidade e quando entra nas contas é exotismo, seja pelos pastores de circunstância pregarem às pedras para que votem, seja por ser o interior do interior algo fora do mundo — urbano e litoral, quem nos tira mar e sol tira-nos tudo.

Ora depois desta entrada, ao que venho? Que lugar no debate para a cultura ou o que isso seja nas bocas que proferem a palavra, no lugar de uma sequência mais ou menos a mesma: economia, saúde, habitação, emprego, o social — diz-se assim, como se diz, “o histórico” — e cultura, ornamento no fim da fila frásica. E porquê? Porque nunca se descortina o que possa ser para além de umas estratégias de animação locais, festas calendarizadas, pelo que possa ser como fenómeno ordenado transversal — e interior, subjectivante, de fundamento, de saber e experimentação, de formas de imaginar em ensaio socializado — a todas as práticas de comunicação e realidades, fundamento crítico de uma visão a estimular, integrada, sendo esse o papel dos poderes: o estímulo ordenado concreto, uma ordenação das potencialidades específicas de práticas críticas expressivas, sensíveis e intelectuais, para a estruturação livre de formas concretas da democracia no território. A vitalização de uma liberdade laica, quotidiana, baseada — também —, para além daquelas que são próprias da democracia institucional, nas actividades de invenção criativa culturais — identitárias e universais, de literacias disciplinares várias, de culturalização da política como dizia a Natália Correia — promovidas por entidades de criação locais — regionais, europeias, universais —, no quadro de uma qualificação do debate que exerça a crítica como a forma superior de comentário político, do pensamento, que permita ao debate superar o confronto cristalizado de argumentários, pôr o pé em terreno inexplorado — só aí se encontram caminhos de solução, no que não se experimentou ou no que se experimentou errando melhor: há sempre algo por saber, por ver, o fundo das coisas não está à vista desarmada, estão detrás das coisas — Brecht.

Para mudar só se pode fazê-lo para um território não havido, através de um percurso desconhecido porque tentativa de “novo”. Neste aspecto, a reivindicação pura e simples do que houve para trás é a negação da mudança, nada volta ao que foi, a mesma água nunca passa debaixo da mesma ponte duas vezes.

Há de facto muito pouca imaginação em debate, nenhuma invenção e muita anedota, folclore, populismos. Quando ouvimos falar de inovação, como slogan, só nos resta fechar olhos e ouvidos: a repetição gruda o fechado no que se repete, como se falássemos língua de cadeado, letra morta encadeando, inércia de conversa oca enrolada, o exterior de um exterior.