"Sim" à independência no Curdistão iraquiano é esmagador

Bagdad só aceita conversar com os líderes curdos se os resultados do referendo forem anulados.

Celebração da vitória em Erbil, a capital do Curdistão iraquiano
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Celebração da vitória em Erbil, a capital do Curdistão iraquiano Reuters/ARI JALAL

Quase 93% dos curdos iraquianos votaram a favor da criação de um estado independente no referendo não vinculativo de segunda-feira. Segundo os resultados provisórios, agora conhecidos, participaram na votação 72,16% dos potenciais eleitores, mais de 3,3 milhões de pessoas.

Bastou a realização da consulta para começarem as retaliações, com o Irão a suspender as ligações aéreas e a Turquia a ameaçar encerrar a fronteira terrestre ("deixando os curdos à fome"). Esta quarta-feira, foi a vez de a Jordânia anunciar que vai deixar de voar para Erbil (capital da região autónoma do Curdistão iraquiano) e Suleimanyah, a segunda cidade da região.

O Governo de Bagdad já tinha apelado a todos os países para deixarem de comprar petróleo aos curdos, que têm aqui a sua grande fonte de financiamento; agora pediu que encerrem as suas missões diplomáticas em Erbil. E enquanto o presidente do governo regional do Curdistão convidou o Executivo central a iniciar "um diálogo sério" (o objectivo do referendo era fortalecer a sua posição negocial), o primeiro-ministro, Haider al-Abadi, coloca como condição para quaisquer conversações a anulação dos resultados da consulta.

Desde segunda-feira que Bagdad e Ancara realizam exercícios militares junto à fronteira com o Curdistão iraquiano, numa demonstração de força que deverá ser reforçada: uma delegação das Forças Armadas iraquianas viajou para o Irão para "coordenar esforços militares". Até agora, Teerão fizera voar caças por cima dos curdos iranianos que marchavam em apoio aos iraquianos.

Para aumentar a tensão, o referendo não se limitou às províncias que integram o Curdistão iraquiano, região autónoma mas que desde 2003 funciona quase como independente. Os líderes curdos também abriram urnas em Kirkuk, a província e cidade que reclamam como sua (e que Saddam Hussein arabizou) mas onde vivem igualmente árabes e turcomanos (para além de muitos cristãos).

Os curdos, o maior povo sem Estado, concentram-se na Turquia, Síria, Iraque e Irão, divididos pelas fronteiras resultantes do fim do Império Otomano e do Tratado de Lausanne, de 1923, que nunca aceitaram.