Editorial

Europa 3.0

Não deixa de ser irónico que, agora que há Macron, possa não haver Merkel.

Tinha tudo para ser um cenário idílico: Macron eleito, Merkel reeleita, uma visão comum para a Europa pronta a ser partilhada pelos dois líderes. Os resultados que saíram da noite eleitoral de Berlim fizeram por contrariar o cenário, mas nem isso demoveu o presidente francês.

Ontem, como previsto, traçou o plano que pretende relançar a Europa depois da década perdida numa uma crise financeira que se transformou numa de identidade. E é mesmo no plano da identidade em que Emmanuel Macron quer jogar: todas as ideias que apresentou têm impacto na forma como a UE se vê e como é vista pelos outros, reconstruindo a identidade europeia a partir de um plano de acção cuja ambição é grande, mas não desmedida. É a Europa 3.0, que se quer poderosa mas realista.

Para discurso motivador, foi longo demais. Mas para a imensa ambição de Macron, que se vê como o reformador da Europa, uma intervenção que toca em todas as áreas do executivo continental está dentro do esperado. Em duas horas propôs novas agências europeias, novos impostos, uma força militar, várias Políticas Comuns, um novo Mercado Único e novas apostas estratégicas em termos económicos e geográficos. Ainda pontou a novo alargamento e à recomposição de uma Comissão com menos comissários e de um Parlamento que conte já com partidos transnacionais nas próximas eleições. O Presidente francês deu tudo o que tinha por uma ideia: arrancar à força a Europa da letargia e empurrá-la para a liderança estratégica do mundo.

Este discurso seria impossível com o Reino Unido dentro da União e sem Trump na Casa Branca. Emmanuel Macron quis dar uma mundividência à Europa que parte do estado do planeta hoje e traça um caminho que é determinado e ambicioso, mas exequível. Vale a pena olhar para as muitas propostas, resumidas pela Teresa de Sousa nesta edição, porque elas merecem discussão. Naturalmente que nem todas avançarão, algumas nem exequíveis serão, mas o mais importante está feito. É que a partir de agora é este o futuro da União que se vai discutir, é este o plano a dissecar.

Merkel terá gostado muito do que ouviu, mas a líder alemã está condicionada pelo resultado de domingo. Mesmo tentando ainda reeditar a grande coligação com o SPD, que lhe daria o espaço necessário para reconstruir tranquilamente a Europa ao lado de Macron, Merkel deverá ser forçada a seguir o "caminho da Jamaica" e a contar com os instáveis liberais que são assumidamente contra o reforço da integração europeia. Não deixa de ser irónico que, agora que há Macron, possa não haver Merkel.