Pequeno disco dos grandes medos

Depois de anos a acompanhar Rita Redshoes e Márcia, Filipe Cunha Monteiro ganhou coragem e atreveu-se a encontrar o som da sua música. Chamou Tomara ao seu mundo individual, ancorado na folk norte-americana.

Foto

Foram vários os anos em que Filipe Cunha Monteiro deixou que a sua música tivesse a forma de outra pessoa. A música que lhe saía das mãos, através da guitarra ou dos teclados, respondia àquilo que Rita Redshoes ou Márcia precisavam ou queriam para as suas canções, e Filipe seguia-lhes as vontades, moldava-se a universos musicais que não carregavam o seu nome e ia tentando enfiar-se o mais possível nessas criações alheias sem deixar a cauda de fora.

Até que, ao criar através dos outros, começou a perceber que esses anos lhe tinham turvado um pouco aquele que era o seu universo, deixando de lhe ser absolutamente claro qual era, afinal, a sua natureza musical. Ao acompanhar pela segunda vez Márcia – com quem é casado – na gravação dos seus álbuns, não quis assumir a produção de Quarto Crescente (2015), como antes acontecera em Casulo (2013), porque quando então terminaram o disco ficou com uma questão a roubar-lhe o sossego. “Senti que o Casulo poderia estar um bocado submetido à minha vontade de criar uma sonoridade e de produzir”, diz. “E fiquei a pensar se não estaria, de alguma maneira, a ocupar o espaço dela e a preenchê-lo com o meu universo.”

Esse processo de autoanálise haveria de ser adensado pelo “vazio criativo” que, às tantas, sentira quando tocava ainda com Rita Redshoes – companheira de projectos musicais desde os tempos dos Atomic Bees, a primeira banda a sério para ela e para ele. Foi nesse período que Filipe terá, talvez, pressentido que estava a perder a sua linguagem pessoal, sacrificando-a para melhor servir um conceito musical que não lhe pertencia. “E não fazia sentido ser de outra maneira”, ressalva, “porque com a Rita era um projecto a solo”. A aproximação pessoal e artística a Márcia levaria também a uma maior justaposição de universos estéticos, mas mesmo com a certeza de que havia diferenças (e de que os dois não eram necessariamente um) tornava-se difícil perceber onde a fronteira verdadeiramente se traçava.

Durante algum tempo, Filipe Cunha Monteiro foi-se convencendo que acompanhar as duas cantoras era alimento suficiente para a sua existência criativa. Mas, aos poucos, tornou-se óbvio que estava a varrer para debaixo do tapete e a menosprezar um ímpeto próprio. Foi Márcia a forçá-lo a assumir que não se cumpria totalmente naquele segundo plano e levá-lo a vencer, faseadamente, os vários medos que se interpunham entre o desejo de prosseguir as suas ideias e as trabalhar e tornar públicas.

Tomara, o projecto com que, por fim, se revela, começou a ser rascunhado em 2011, seguindo-se vários reajustamentos enquanto procurava descobrir onde parava, no fim de contas, a sua verdade. “Foi um processo muito demorado”, admite. “Mas acho que foi o tempo certo, o tempo de que precisei para conseguir assumir e dizer em voz alta que precisava de fazer música. Pode parecer um bocado parvo para algumas pessoas, mas não me foi fácil e só agora, aos 38, recuperei alguns sonhos que tinha com 12 anos. Parece que deixei que me roubasse a convicção que tinha em mais novo de que podia fazer o que quisesse. Isso aconteceu por motivos diferentes e alguns têm que ver com questões minhas de timidez e de auto-estima.”

O desbloqueador definitivo, reconhece, foi a paternidade. O nascimento da filha e o acompanhamento dos seus primeiros anos teve “tanto de doloroso quanto de gratificante”: “Obrigou-me a pensar em coisas que estavam para trás, a digerir algumas delas, a perceber o que tinha ficado por sarar e o que tinha de compor ou não em mim. O processo deste disco foi ter de mastigar esses medos todos e ganhar coragem para me mostrar.” Daí que tenha criado um artifício para arrancar com a composição, enganando-se, tapando os olhos para avançar e dizendo-se que estava apenas a criar bandas sonoras para filmes que iria fazer mais tarde (Filipe trabalha também em realização), atenuando o medo de estar a preparar um álbum a sério.

Acontece que esses instrumentais, quando estavam já quase prontos, começaram a exigir, nalguns casos, a entrada em cena de uma voz. De repente, havia canções que se mostravam e que, por mais que o músico tentasse ignorá-las, contaminaram também a sua paz. “Foi o maior dos dilemas. Demorou três anos a resolver, porque chegou a um ponto em que já sabia que havia ali uma voz, que eu gostava de ouvir e que cantava na minha cabeça, e já não me conseguia livrar dela.” Precisou então de descobrir a que soava a sua voz, por pudor de pedir a amigos como Samuel Úria que emprestassem as deles e por saber que tudo o que estava ali era demasiado pessoal para ser endossado a outro.

A verdade folk

Favourite Ghost faz-se de temas cantados e de instrumentais. E segue caminhos distintos nas duas trincheiras, mesmo que partilhando uma mesma raiz folk. Enquanto os temas instrumentais são, para Filipe, “mais escapistas e idílicos”, sobretudo um espaço mental onde vai dispondo as imagens que os sons acompanham, as canções vivem num território marcadamente real, reportam-se a “situações e momentos concretos”. Mas mesmo nos casos em que há uma canção a anunciar-se e uma voz a rasar sobre a guitarra, o músico gosta de deixar a letra assentar e prolongar a música já sem as palavras a exigir atenção. “Há uma certa catarse nisso”, diz. “Anuncia-se algo e depois tem-se um momento para nos deixarmos levar – tanto quem está a ouvir como eu próprio –, para a canção não se limitar a ser uma narração e poder ter também um espaço para respirar no seu interior.”

Se era possível já intuir nas entrelinhas de Rita Redshoes e de Márcia, a verdade musical de Tomara é a de uma folk de claríssima linhagem norte-americana, aqui e ali com uma escapada subtil até Inglaterra, cortesia de Nick Drake. Favourite Ghost começa com um instrumental que caberia nos Whiskeytown (a banda-maravilha de Ryan Adams) de Strangers Almanac, apalpa o terreno de Bonnie “Prince” Billy (de quem Filipe é confesso admirador) em Coffee and toast, deixa passar fantasmas de Elliott Smith e de Bon Iver (imaginemos que já tem direito a fantasma) nas vocalizações frágeis de Favourite ghost e discorre todo um discurso desacelerado, tranquilo, em busca de uma paz que é também uma anestesia e uma superação dos medos.

E depois há a presença discreta de Márcia em House, penúltimo tema de um álbum curto de oito temas, uma pequena colecção de tocantes melodias, cada nota a poisar com vagar no seu lugar, um contínuo e natural combate contra a ornamentação que nem os arranjos de cordas e sopros põem em xeque. Até porque a presença de Márcia, como um sopro lá ao fundo, é quase só a assunção de Filipe de que não se chega aqui sozinho. Por muito que este caminho seja o seu.

Sugerir correcção