Um dia teríamos que falar sobre André Ventura. Hoje é o dia

Este texto não é Hannah Arendt. Mas também nunca será como Eichmann em Jerusalém.

Não é fácil para nós, jornalistas, não cair num erro quando falamos sobre este tipo de candidatos. Porque já caímos em todos eles.

O primeiro erro é sempre o mesmo: dar palco a um populista é dar palco a uma polémica; dar palco a uma polémica chega para ganhar audiências.

O segundo erro é o inverso: fingir que não existem. É o melhor que lhes podemos fazer, porque ganham mais um inimigo contra quem disparar. 

O terceiro erro é ignorar quem está do lado de lá. Os populistas não o fazem, usam-nos: se as pessoas se sentem inseguras, porque não arranjar um culpado; se se sentem injustiçadas, porque não dar-lhes uma esperança; se é preciso ganhar votos, porque não dar-lhes um discurso? Ventura deu-lhes. E nós?

Nós, entre erros, só não podemos cair no capital: o da indiferença, o do medo de explicar. Um jornal que não diga quem é Ventura cairá na pior das tentações — o da banalidade do mal. E o que ele é, é simples: um candidato primário, que não mede fronteiras ou consequências. Que acusa ciganos de viver uma vida à conta do Estado quando os apoios sociais não são eternos; que promete roubar terras ao concelho vizinho sabendo que nunca as ganhará; que fala da castração química ou da legitimidade do assassinato de terroristas, atropelando séculos de civilização, com a facilidade com que um terrorista decreta a nossa morte. Tudo o que Ventura faz é puxar pelo pior dos homens sem se colocar no lugar do outro, é construir muros, no lugar das pontes que lhe cabia levantar.

E não dá para esquecer o PSD. Se Ventura vencer, Passos vai mesmo cantar essa vitória? E depois, que faria o PSD com essa vitória, com este candidato? Seria esse o seu novo programa?

É certo que Passos é odiado por muitos, mas também é um facto que ele ganhou as últimas eleições. Adivinho porquê: porque muitos lhe reconheciam pelo menos integridade e coerência. Agora, quando o ouvimos defender Ventura dos seus críticos (“não podemos ter medo dos demagogos e dos populistas”), perguntamo-nos se aquela frase batida, “que se lixem as eleições”, era só mais um lema de campanha.

Por tudo isto, mas também porque o debate de Loures foi o mais visto desta pré-campanha, logo depois dos de Lisboa e Porto (117 mil espectadores, para um concelho de 160 mil eleitores), é importante que fique clara a nossa posição sobre o caso de Loures, sobre o candidato Ventura.

Bem sei: este texto não é Hannah Arendt. Mas também nunca será como Eichmann em Jerusalém.