Uma família caída em desgraça, empurrada por Dimitriádis

Os Artistas Unidos apresentam no Teatro da Politécnica, até 28 de Outubro, uma peça do autor grego Dimitris Dimitriádis feita de uma fatalidade terrível. A finitude humana em todo o seu esplendor trágico alimenta A Vertigem dos Animais Antes do Abate.

Fotogaleria
A Vertigem dos Animais Antes do Abate Jorge Gonçalves
Fotogaleria
Dimitris Dimitriádis dr

É uma queda desamparada de uma família, infectada por todos os interditos da civilização ocidental nas relações familiares. Não é acidental que venha de um grego. O mesmo território de onde brotou o modelo de organização social e política em que vivemos, envia-nos a imagem aterradora da sua queda, da sua ruína, do seu inevitável destino apocalíptico. A Vertigem dos Animais Antes do Abate, de Dimitris Dimitriádis, em cena no Teatro da Politécnica, Lisboa, até 28 de Outubro, começa por profetizar uma sequência delirante de suicídio, incesto e um sofrimento atroz que há-de ser cumprida ao pormenor, como se num acesso de loucura a pior das sentenças fosse atirada ao ar e depois se abatesse com estrondo como uma devastadora condenação. Ou uma terrível fatalidade que uma vez posta em marcha não pode ser detida.

A Vertigem dos Animais Antes do Abate foi escrita em 2002 mas parece antecipar os anos de profunda crise económica e financeira que devastou a Grécia nos últimos anos, a partir do relato de uma família a quem um amigo próximo profetiza um tempo de extraordinária riqueza e bonança antes de uma cruel queda desamparada. O ponto de partida para o autor grego foi, no entanto, o Livro de Jó. “Desde sempre que me deslumbra”, confessa Dimitriádis ao PÚBLICO acerca da sua primeira fonte de inspiração, “não apenas pela alta poesia desse texto bíblico, mas também por uma questão fundamental que é colocada, a questão imemorial de Deus e do que significa hoje em dia para os seres que habitam este mundo.”

Colocar essa questão no momento presente, “após tantos séculos de presença e de dominação de Deus, sob todos os seus diferentes aspectos”, era algo que estava no topo das preocupações de Dimitriádis – já antes encenado em Portugal por John Romão e Jorge Silva Melo, que aqui regressa ao autor com os seus Artistas Unidos – durante a escrita da peça. E continua a preocupá-lo, “de uma maneira ainda mais extrema”, uma vez que o grego se diz crente da não existência daquilo a que se convencionou chamar Deus, seja sob que forma for. No seu ponto de vista vivemos numa “era em que o homem está completamente só no universo”.

“Essa solidão dota, na minha opinião, a existência humana do seu sentido primordial: é trágica, não apenas porque é mortal, mas também porque termina efectivamente com a morte. E uma das razões que tornam o ser humano trágico é por ser um animal falante, por ter o dom da palavra. De resto, a finitude humana é o ponto de partida para tudo aquilo que escrevi e que continuo a escrever.”

No lugar de uma presença divina, Dimitriádis convoca três personagens baptizadas como A, B e C que assumem um lugar semelhante ao do coro das tragédias gregas – A Vertigem segue, aliás, o mecanismo das tragédias clássicas. A diferença é que este coro “não se limita a comentar a acção, antes pelo contrário, tomando parte na acção e mais ainda – são eles os manipuladores”.

Impasse existencial

A ideia de finitude presente na obra de Dimitriádis adquire em A Vertigem uma consequência terrível. Se a alma não tem para onde ir, se nenhum humano pode alguma vez escapar-se ao seu corpo, como acredita, então aquilo que resta são apenas “as nossas pulsões mais viscerais e irracionais”. É esse o destino inevitável em que o autor crê verdadeiramente, a cedência perante as pulsões inomináveis como a violência e os desejos proibidos que emergem numa pequena esfera familiar, numa sequência de destruição mútua que nenhum acesso de lucidez pode reverter. Na verdade, toda a lucidez que soçobra nas personagens desta família caída em desgraça serve apenas para lhes fazer ver que nada podem contra a terrível profecia. E nada podem contra os corpos que julgam, erradamente, ser seus. “Na verdade”, diz Dimitriádis, “são eles que nos possuem, somos nós que lhes pertencemos, somos sua propriedade.”

Ao cumprirem (sem conseguir resistir) a profecia do amigo, Nilos, Milítsa e os filhos são destituídos de quaisquer noções de liberdade, escolha ou vontade, são aniquilados em tudo aquilo que parece ser a absoluta essência dos comportamentos humanos, tornando-se como que máquinas que irreflectidamente respondem perante um guião que lhes foi imposto. Mais uma vez, a sombra da crise e da austeridade que esvaziou de autodeterminação milhões de pessoas volta a fazer-se sentir sobre a peça.

Só que “o trágico”, no sentido mais humano do termo, defende Dimitriádis, “é o ingovernável”. E se isso pode evocar facilmente imagens de autoritarismo, ditadura financeira ou ingerências de toda a espécie e feitio, no centro da escrita de Dimitriádis continua a estar aquele que elege como “o problema central da nossa época e que é o da interpretação quase totalmente errada do que é o Homem”. “As consequências de uma avalanche de mentiras, das ideologias às religiões, não podem senão conduzir a um impasse existencial, aquele que vivemos hoje um pouco por todo o lado.”

O trágico será talvez, por isso, não propriamente o destino de Nilos e Milítsa, mas o destino de toda a humanidade, ciente em tantos domínios da sua caminhada para o abismo e teimosamente obstinada em acercar-se todos os dias desse fatídico final.