Editorial

A política e a ciência

Precisamos de mais, não de menos, ciência na sociedade.

As sucessivas tragédias que se abateram sobre o território americano facilitam a crítica a um Presidente que tem feito da negação do aquecimento global uma política de Estado. Esta é uma leitura que dá a entender que Trump é um acidente de percurso, mas a realidade é um pouco mais complexa — ele foi eleito precisamente por negar a evidência científica e não apesar disso, ecoando as ideias que se tornaram dominantes no Partido Republicano neste século.

Não deixa de ser surpreendente que tenha sido a direita a adoptar e promover o relativismo absoluto em matérias sociais, políticas e científicas. No caso americano, a crítica ao politicamente correcto e o individualismo extremo levaram a que hoje seja socialmente aceitável — e recomendável — aderir a variadas formas de teorias da conspiração, disponíveis num menu digital e sempre acessíveis em fóruns de discussão. O princípio parece ser aquele que diz que “acredito no que bem me apetecer”, visto que os factos alternativos contradizem a realidade e servem como narrativa paralela. É, assim, fácil fazer do aquecimento global uma cabala chinesa que visa limitar a expansão económica americana; é ainda mais fácil recusar que existe racismo nos EUA, garantir que as vacinas provocam autismo, que a evolução das espécies é uma cabala e que o governo esconde contactos regulares com extraterrestres.

Já é mais surpreendente que haja sectores da direita conservadora europeia que bebam da mesma fonte, especialmente para suportar a crítica à luta pelos direitos sociais de minorias. Embora seja mais seguro associar este relativismo à ignorância, factor bem disseminado nos vários pontos do espectro político, a verdade é que hoje, por uma questão de conveniência, o ruído relativista se ouve mais do lado direito. E é triste que assim seja.

Precisamos de mais, não de menos, ciência na sociedade. Precisamos de discutir melhor as consequências dos nossos actos e é a ciência que nos oferece uma grelha de trabalho para o fazer com rigor. Negar o aquecimento global leva a decisões políticas gravíssimas com consequências dramáticas para a humanidade, mas não é preciso ir mais longe do que Portugal e a nossa política de combate aos incêndios para confirmar a insistência em políticas que ignoram a ciência e a abordagem sedimentada no método científico. E essa não é de esquerda nem de direita, é transversal a todos os governos que repetem alegremente políticas com consequências dramáticas para o país. Para o ano, mais tragédia menos tragédia, continuará tudo na mesma. Insistir nas mesmas políticas em condições semelhantes e esperar resultados diferentes pode não ser a definição de loucura, mas é garantidamente de pouca inteligência. Lá como cá.