Crítica Música

A qualidade do todo em cada detalhe!

Pela sua permanência e crescente qualidade ao longo de sete edições, o Festival Internacional de Polifonia Portuguesa tornou-se um produto artístico e cultural de referência em Portugal.

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O VII Festival Internacional de Polifonia Portuguesa da Fundação Cupertino de Miranda impressionou mais uma vez pela coerência e abrangência da sua programação. Composto por sete concertos interpretados pela Cappella Musical Cupertino de Miranda (CMCM), votados ao repertório polifónico dos séculos XVI e XVII, em espaços de notável arquitectura religiosa de diferentes regiões (Amarante, Braga, Coimbra, Grijó, Landim, Porto), foi ainda complementado, tal como nas edições anteriores, por um seminário, que contou com comunicações científicas que abordaram tanto a musicologia, como a história da arte portuguesa ou o turismo cultural.

Todo o festival privilegia a contextualização espacial e temporal do repertório polifónico, oferecendo ao público momentos de fruição musical devidamente enquadrados pela dimensão histórica, plástica e literária. Os concertos são antecedidos por uma visita guiada pela história do lugar (igreja, convento, mosteiro), onde não se deixa de referir elementos musicais aí existentes, tais como os órgãos de tubos (restaurados ou à espera de o ser!). Destaca-se ainda a participação do actor Luis Miguel Cintra no Festival, lendo trechos de sermões do Padre António Vieira.

O ciclo de concertos seguiu este ano a temática mariana sendo assim composto por exemplos de Magnificat, Salve Regina, Ave Maris Stella ou Pulchra es amica mea, habilmente organizados em três diferentes programas: o primeiro em que a CMCM se apresentou a capella, o segundo com o organista Claudio Astronio e o terceiro com o Ludovice Ensemble.

Este último programa foi o do concerto do passado dia 9 de Setembro na Igreja do Mosteiro de Santa Maria de Landim (Vila Nova de Famalicão), cuja magnífica acústica revelou uma sonoridade equilibrada e expressiva de um grupo vocal que demonstra progressiva maturidade interpretativa.

Destaca-se o excelente entendimento da escrita polifónica em composições como a Missa O quam pulchra es de Francisco Garro (falecido c. 1623) e o Salve Regina de Duarte Lobo (c. 1565-1646), veiculado pela clareza da condução melódica, da dicção, da estrutura formal e pela boa afinação. Há também que referir a inteligente organização do repertório deste concerto em três partes, articulando com pertinência formal e temática as intervenções a cappella da CMCM com as instrumentais do Ludovice Ensemble.

O concerto é iniciado por Fernando Miguel Jalôto no virginal com o Primeiro Verso sobre os passos do cantochão de Ave Maris Stella da importante colecção Flores de Musica de Manuel Rodrigues Coelho (c. 1555-1635), compositor cujas obras promoveram o bom encadeamento do repertório, nomeadamente nos versos de Ave Maris Stella – peça vocal de autor anónimo de Santa Cruz de Coimbra, inédita, em primeira audição moderna tal como outras presentes nos diferentes programas do ciclo. No mesmo sentido a alternância da composição vocal Pulchra es amica mea de Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525-1594) com versões instrumentais da mesma por Giovanni Bassano (1561-1617) sublinhou a importante relação da composição instrumental sobre repertório polifónico na época.

A interacção entre grupo vocal e grupo instrumental revelou sempre fluidez e boa afinação mesmo quando distanciados: no início o grupo instrumental estava junto à capela-mor e o grupo vocal no coro alto, mas progressivamente se foram aproximando, com os cantores do CMCM a surpreenderem o público interpretando a referida obra de Palestrina na peculiar nave lateral única da igreja. O concerto terminou com os dois grupos junto à capela-mor interpretando Salve Regina de Duarte Lobo (1565-1646), obra policoral a 11 vozes, com um músico por parte. Esta obra é um exemplo do compromisso científico do grupo com a investigação musicológica, tendo sido objecto de restauro por um grupo de investigação da Universidade de Coimbra de que Luís Toscano, director do CMCM faz parte.

Ao longo do concerto as intervenções do Ludovice Ensemble revelaram domínio estilístico conduzindo de forma clara a audição da textura polifónica, do expressivo fraseado das peças de dança (Passacalhas, Folías e Xácaras), mais uma vez oportunamente articuladas com versos apaixonados do texto do Cântico dos Cânticos. Importante contributo deste agrupamento concretizou-se ao nível tímbrico conjugando um virginal, um traverso (Joana Amorim) e um rabecão (Marta Vicente) e ainda introduzindo um órgão portativo nas peças Hodie nata est e Beata Dei genitrix de Pedro de Cristo, num elegante registo camerístico, contando apenas com vozes de tenor.

É ainda digno de destaque o facto de todas as actividades do festival serem de entrada gratuita e a existência de uma publicação que compila o programa dos vários concertos, com informações particulares de cada igreja do ciclo e ainda os textos das comunicações académicas do seminário científico.

Trata-se assim de um festival que, pela sua permanência e crescente qualidade ao longo de sete edições, se tornou num produto artístico e cultural de referência em Portugal. Sendo que tudo isto só é possível pelo apoio continuado da Fundação Cupertino de Miranda e pelo trabalho empenhado e coerente da direcção da CMCM.