Crítica Música

As visões da guitarra de Vítor Rua

Num álbum duplo, a guitarra de Vítor Rua é abordada solitariamente e envolvida em grupo, com o sentido de risco a prevalecer.

Foto

Explorar novas soluções, sempre. Tem sido esse o princípio norteador da actividade de Vítor Rua, seja quando co-fundou os GNR na alvorada dos anos 1980, ou a partir de 1982, ao lado de Jorge Lima Barreto, nos Telectu, quando a dupla se transformou, ao longo de três décadas, numa referência da música mais experimental. Além dessas e de outras formações tem uma actividade prolífica, entre projectos a solo, música para outras áreas, abordando as mais diversas tipologias com novas soluções interpretativas ou composicionais.

Agora aí está um álbum duplo onde o seu instrumento de predilecção — a guitarra — está no centro. Em alguns temas estamos em territórios jazzísticos, mas noutros essa âncora perde-se sem prejuízo para o ouvinte, em peças instrumentais sem qualquer configuração mais reconhecível, em abordagens onde a sua guitarra tanto pode alimentar um tipo de electricidade pouco melódica, como sustentar um dedilhar acústico, onde tempo e espaço fluem.

No primeiro CD toca todas as guitarras com virtuosidade. No segundo CD temos as mesmas composições, mas ao lado de Hernâni Faustino (baixo), Nuno Reis (trompete), Luís San Payo (bateria), Manuel Guimarães (piano) e Paulo Galão (clarinetes), com a filiação no jazz mais inclassificável a ser mais evidente, mas com a intervenção de cada instrumento a revelar-se, a cada esquina, uma surpresa.

Não existe uma estrutura repetida, há instrumentos a entrar e a sair, com a guitarra presente, em gestos de aparente improviso mas de sentido elegante, guiando-nos no meio de um caos que acaba por ser aparente, numa música inquieta, sem aditivos, em movimento, procurando em permanência um equilíbrio que acaba por nunca chegar, numa estimulante e exigente obra de visões complementares.