Bordalo caricaturou uma Lisboa que ainda anda por aí

Exposição “Lisboa de Bordalo”, que está patente até 17 de Setembro no museu com o seu nome, deu origem a um livro para ter sempre à mão o retrato da cidade pelo olhar perspicaz e bem-humorado de Rafael Bordalo Pinheiro.

"O arvoredo do Rocio", 1882
Fotogaleria
"O arvoredo do Rocio", 1882
"O arraial de Santo António", 1900
Fotogaleria
"O arraial de Santo António", 1900
"O pardieiro do Largo da Abegoaria", 1987
Fotogaleria
"O pardieiro do Largo da Abegoaria", 1987
"Perliquitétes!", 1883
Fotogaleria
"Perliquitétes!", 1883

Desfilam pelo Chiado as “manas Perliquitétes”, ostentando as suas toilettes extravagantes, para mais uma tarde de passeio pelas melhores boutiques do bairro. Finas figuras da burguesia oitocentista, acabam presas, “coitadas”, por engano numa acção “a favor do decoro” nas ruas da capital. Estas figuras do Chiado, que entraram no vocabulário de qualquer um, também se descobrem no “olhar perspicaz” — e algo futurista — da caricatura que Rafael Bordalo Pinheiro faz da cidade. 

Lisboeta de gema, o artista foi parar ao Brasil e tem história ligada às Caldas da Rainha por causa da fábrica de cerâmica que ali instalou. Mas foram as ruas e as personagens da Lisboa que se findava pela Avenida da Liberdade que lhe deram o sumo da obra que eternizou nos seus jornais — António Maria, Pontos nos ii e Paródia — nas últimas duas décadas do século XIX e nos primeiros anos do século XX, até à sua morte, em 1905. 

Estamos na Lisboa oitocentista, é certo, mas se deixarmos as datas fora da conversa, alguns dos anseios e dramas dos lisboetas fazem com que pareça que estamos a ver o nosso tempo. Quem nos guia é o pobre Zé Povinho, que, coitado, espera sentado no novo e grande empedrado das ondas que serpenteiam o Rossio. Cortaram-se as árvores todas. Espera-se agora que as novas cresçam para que haja sombra. “Há-de crescer! Há-de crescer!”. Enquanto uns se preocupavam em ter alguma sombra no Rossio, a sociedade, burguesa e conservadora, tentava acompanhar as modas europeias. 

E não escapava ao olhar crítico (e bem-humorado) de Rafael Bordalo Pinheiro. Como quando o mercado da Praça da Figueira foi inaugurado. Era uma praça “tão moderna” que as vendedeiras usavam vestido comprido e os vendedores tinham de ir de casaca e cartola. “Era a única maneira de estarem ao nível da qualidade daquele novo equipamento da cidade”, diz João Alpuim Botelho, director do Museu Bordalo Pinheiro que orienta há três anos.

Foi desta premissa que nasceu a ideia de criar uma exposição (patente até 17 de Setembro no Museu Bordalo Pinheiro) em que os espaços são contados pelo olhar provocatório de um artista que tem na sátira a sua marca registada. E que foram agora transpostos para um livro que quer sobreviver à efemeridade da exposição. 

A Lisboa que muda devagar

A Lisboa que Bordalo caricatura ressaca das políticas fontistas onde o progresso demora a entrar. A Avenida da Liberdade abre. Os eléctricos, os velhos americanos, começam a circular. Há iluminação pública. Abre o Coliseu dos Recreios. Mas a cidade continuava no seu marasmo. Permaneciam os mesmos problemas (os de hoje também), como os velhos americanos que vinham “civilizar Lisboa”, mas que demoravam tanto tempo que quando chegavam já as crianças tinham envelhecido, ironizava Bordalo.

Como homem do seu tempo, estava atento às grandes obras da cidade. No final da década de 70, iniciava-se a demolição do velho Passeio Público e a expansão da cidade para Norte. De picareta na mão, Rosa Araújo “deitou a terra” o Teatro do Salitre, perante o olhar apreensivo da população com tamanhas obras que ali se faziam: “Será assim? Permita Deus que a cidade em vez da avenida, passadas as eleições, não fique unicamente com mais um tapume”. 

O tempo passa, as obras são outras, mas as preocupações mantêm-se. Neste caso, a Avenida da Liberdade acabaria mesmo por abrir em Abril de 1886 por ocasião do casamento de D. Amélia com D. Carlos, e as “perliquitétes ali começariam a “fazer Avenida”: a passear e mostrar-se no meio de todo o fausto do novo boulevard.

Em 1891, abriam os “grandes armazéns” Grandella, na rua do Ouro, que copiavam a arquitectura e o modelo de negócio dos Printemps parisienses. E que se transformariam, muitos anos depois, numa triste lembrança para os lisboetas que se recordam do fogo que ali começou em 1988 e que depressa se alastrou para casas e lojas vizinhas, espalhando o caos no coração da cidade. 

A burguesia conservadora, essa, apesar de querer respirar modas europeias, chocava-se com a novidade. Como o frontão da Câmara de Lisboa, feito por um artista internacional que pôs um jovem nu a simbolizar o amor à pátria. Terá sido o primeiro nu público que surge em Lisboa, coisa que deu uma “escandaleira tremenda”, diz Anísio Franco, historiador e conservador do Museu de Arte Antiga, que também foi chamado a guiar esta exposição.

Em nome da moral e dos bons costumes, rapidamente Bordalo propôs uma solução: vestir José Rosa Araújo, na altura autarca lisboeta, com uma folha de parra para tapar tamanha vergonha. “É gozar com a situação, com aquele moralismo que não faz nenhum sentido”, remata João Alpuim Botelho. 

Os bombos da festa continuam a ser os políticos, regeneradores e progressistas, que Bordalo põe a saltar à fogueira no arraial de Santo António, enquanto arde a “fortuna pública, a história, a constituição” e a “liberdade de imprensa, de reunião” se esfumaçam no ar. 

“A caricatura, as obras dele são a intervenção política urbana”, diz Anísio Franco. Também os tempos conturbados da diplomacia portuguesa não escaparam ao olhar crítico de Bordalo. Em 1890, aqueceu a tensão entre os velhos aliados Portugal e Reino Unido, com os britânicos a ameaçarem começar uma guerra se os portugueses continuassem a reclamar territórios africanos entre Angola e Moçambique, que chocavam com a pretensão britânica em ligar o Cairo à África do Sul. 

Portugal acabaria por recuar, levantando o protesto da população que se sentia vendida aos ingleses. Assim, vendo um país transformado numa colónia inglesa, Bordalo tira D. José da estátua do Terreiro do Paço e põe a rainha Vitória montada não num garboso cavalo, mas num burro. 

Ainda no rescaldo da tensão provocada pelo Ultimatum britânico, e já que as “decisões tinham passado para Londres”, não valia a pena haver ministérios na Praça do Comércio. Então, Bordalo Pinheiro faz uma sugestão “actualíssima”: transformar tudo em hotéis ali à volta, pôr muita luz, muita esplanada. “É tudo igual. Vai-se a ver e a ideia dele vingou”, diz Anísio Franco. 

“Nada é diferente do que se passava naquela época”

O simbolismo dos diferentes espaços da cidade foi sendo aproveitado por Bordalo para contar, com humor, os problemas da cidade. Há, por isso, espaço para o “drama da habitação” na Lisboa de há cem anos. Não pelo turismo, certamente, mas pelas casas em ruínas que incomodavam Bordalo. É que o artista morava no antigo largo da Abegoaria, na Trindade, que tem, aliás, hoje o seu nome, e mesmo em frente à sua casa havia “um pardieiro” que Bordalo queria que fosse deitado abaixo. 

Esta história, conta-nos Anísio Franco, acaba mesmo com as casas a serem demolidas, depois da pressão que Bordalo fez durante dois anos na câmara. “Mas ia também avisando que não iam construir ali uma coisa nova em estilo neogótico ou neomanuelino que estava muito na moda”. Anos depois, acabou por ser ali construído um prédio com uma fachada azulejada da autoria de António Vasconcelos Lapa, que é curiosamente o mesmo prédio onde nascerá um hotel e onde há planos para se fazer uma “reinterpretação contemporânea” da arquitectura pombalina da fachada. 

Pela defesa da Torre de Belém, “um símbolo da cidade e das glórias passadas”, também Bordalo Pinheiro se envolve em “verdadeiras campanhas”. Como a instalação da fábrica de gás, junto à torre. “Há um empresário que resolve construir [a fábrica] e construí-la colado à Torre de Belém”. Para espanto de muitos que acompanhavam a visita à exposição, não só foi construída em 1889, como só seria desactivada em 1949. 

“Nós ficamos admirados como é que foi possível, mas hoje assistimos a coisas igualmente impossíveis. Nada é diferente do que se passava naquela época”, nota Anísio Franco. 

Os políticos guerreiam nestas páginas, andam à “bolachada” no parlamento e, estava-se mesmo a ver, Bordalo não deixa escapar. Chega mesmo a propor que se desloque a Fábrica Nacional de Bolachas para São Bento, dando eco às desavenças entre parlamentares. 

Bordalo achava que ia ser “um artista ‘sério'” — como o irmão Columbano seria — mas arriscou um caminho completamente diferente. Arriscou dar dignidade à caricatura, uma coisa que já acontecia em França e Inglaterra”, conta o director do museu. 

As estórias escritas de uma Lisboa mundana, os “diferentes olhares” que João Alpuim Botelho, Mariana Caldas de Almeida e Pedro Bebiano Braga retiraram das páginas escritas e desenhadas por Bordalo, valem agora um livro para quem quiser ver a cidade pelo “olhar perspicaz” e cheio de sentido de humor de um artista que foi mais do que um “excelente desenhador”. Para quem quiser há ainda tempo – até 17 de Setembro – para visitar a exposição no Museu Bordalo Pinheiro, no Campo Grande, que, na Lisboa de Bordalo, estava ainda nos arrabaldes, fora das portas da cidade.