Padres com filhos devem assumir paternidade? Igreja diz que sim

Bispos irlandeses ditaram que padres que se tornam pais não podem fugir às suas responsabilidades morais e financeiras. Bispos portugueses concordam, mas não prevêem seguir-lhes o exemplo.

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Os bispos aludem ao problema dos padres com filhos, mas são omissos quanto à sua permanência no sacerdócio Clodagh Kilcoyne

Numa atitude inédita na Igreja Católica, a Conferência Episcopal Irlandesa (CEI) emitiu orientações sobre um problema sistémico que afecta a instituição desde há centenas de anos: os filhos dos padres. Dias depois de o jornal norte-americano Boston Globe ter dedicado duas reportagens ao assunto, o órgão máximo da Igreja Católica irlandesa tornou público um documento que determina que todos os padres que tenham violado o voto de celibato e se tenham consequentemente tornado pais são obrigados a “pôr os interesses da criança em primeiro lugar”.

Numa tentativa de articular uma posição “baseada na justiça natural e nos direitos das crianças filhas de padres”, a CEI determina que “um padre, como qualquer outro pai, deve enfrentar as suas responsabilidades – pessoais, legais, morais e financeiras”. E, a poucos dias de expirar o prazo dado pela ONU para que o Vaticano se pronuncie sobre o assunto, o órgão máximo da Igreja Católica na Irlanda esclarece que cabe aos respectivos bispos ou superiores religiosos assegurar que nenhum padre se exime às suas obrigações enquanto progenitor.

Em Portugal, o porta-voz da Conferência Episcopal, Manuel Barbosa, alegou não ter “conhecimento directo” sobre esta tomada de posição mas acrescentou que “é de respeitar” esta tentativa de “atender ao bem dos filhos e das mães”. Mas, contrariamente aos especialistas ouvidos pelo PÚBLICO para os quais se trata de pôr fim à terrível injustiça que pende sobre estas crianças com o beneplácito da hierarquia da Igreja e que apelam ainda ao fim do celibato obrigatório, Manuel Barbosa disse não ser expectável qualquer iniciativa semelhante por parte da Conferência Episcopal Portuguesa.

O pronunciamento dos bispos irlandeses, que terá sido consensualizado em Maio passado embora só agora tenha vindo a público, traduz uma viragem de 180 graus. Durante séculos, a Igreja Católica manteve um manto de silêncio sobre este assunto, permitindo que centenas ou milhares de crianças crescessem sem saberem quem era o pai ou tendo de manter segredo sobre isso. Em Portugal, como em todo o lado, o mais comum era, uma vez descoberto o escândalo, o padre ser transferido para outra paróquia ou país. Em muitas aldeias, a criança apontada em surdina como filha do padre era frequentemente apresentada como afilhada ou sobrinha, numa espécie de consentimento mudo ou encobrimento que, nalguns casos, se estendia também à hierarquia da Igreja.

Nenhuma criança deve ser “excluída ou isolada”

O Boston Globe, que já antes se debruçara sobre o escândalo dos abusos sexuais de menores por membros da Igreja Católica, numa investigação que deu origem ao premiado filme Spotlight, aponta o sofrimento de dezenas de crianças que cresceram sentindo-se rejeitadas pelos respectivos pais e casos de mulheres coagidas ao silêncio, a troco de ajuda financeira ou não. Daí que a CEI venha agora definir como sendo de vital importância que a mãe, “como primeira cuidadora e como agente moral” seja “totalmente envolvida” na decisão que vier a ser tomada, não podendo mãe e criança serem “excluídas ou isoladas”.

Para o teólogo Anselmo Borges, “ao dizer que cada sacerdote deve assumir as suas responsabilidades pessoais, legais, morais e financeiras e que nenhuma mãe ou criança podem ficar isoladas ou excluídas, os bispos irlandeses estão a fazer aquilo que qualquer homem ou mulher honrados devem fazer”. Considerando que “a Igreja não pode pregar os direitos humanos aos outros sem os praticar dentro dela própria”, o professor universitário qualifica como “indecente que as crianças filhas de padres sejam, como tenderam ao ser ao longo de muitos anos, pura e simplesmente designados como sobrinhos ou afilhados”, até porque “as crianças têm direito à sua identidade” e não devem “ter de viver na ocultação” nem ver “sonegado o direito de saber quem são”. Esta clarificação apresenta, segundo Anselmo Borges, outra vantagem: “Contribui para a libertação dos próprios padres que vivem problemas de consciência e de foro íntimo graves.” Logo, defende, “é expectável e desejável” que esta tomada de posição seja secundada por outras conferências episcopais.

“Não acredito que a Conferência Episcopal Portuguesa tenha coragem, capacidade para se pronunciar sobre isto”, descrê José Alves Rodrigues, um padre que pediu a remissão ao estado laical e que hoje é casado e pai de dois filhos além de tesoureiro da Fraternitas - um movimento que reúne antigos padres que foram dispensados do ministério, maioritariamente para poderem casar – serão à volta de 400, os padres casados em Portugal. Segundo José Alves, a instituição católica em Portugal foi sendo “conivente com as situações de padres que se tornavam pais, desde que não ameaçassem escândalo público”.

“Penso que hoje não será assim, mas, nos anos 60 e 70, logo a seguir ao Concílio [Vaticano II] - que foi a altura em que houve um maior número de presbíteros a pedir a dispensa das obrigações clericais -, a Igreja exerceu uma pressão muito forte sobre aqueles que decidiram assumir as suas responsabilidades enquanto pais e companheiras no sentido de que abandonassem as crianças. Eram pressionados para se manterem em funções ou era-lhes proposto que mudassem de lugar, por vezes para o estrangeiro”, recua.

Arrumado este passado, Maria João Sande Lemos, a fundadora do braço português do movimento internacional Nós Somos Igreja que se tem batido pela abertura da Igreja à ordenação de mulheres e ao fim do celibato, também entende ter chegado a hora de o Vaticano “pressionar as várias conferências episcopais no sentido de seguirem o exemplo da Irlanda”. “É preciso encarar este problema tão premente, injusto e de uma desumanidade terrível: as crianças ficam sem pai e as mães ficam sozinhas com as crianças e todo sabemos como as mães solteiras são a parte mais carente da humanidade”, sustenta, sublinhando que fala em nome pessoal.

Padres forçados a resignar

O documento oficial da CEI nada diz quanto aos padres se poderem manter ou não em funções. Mas, já depois de publicado o trabalho do Boston Globe, o cardeal de Boston, Sean O’Malley, lembrou que um padre que se torne pai tem “a obrigação moral de se afastar do ministério e de cuidar e prover às necessidades da mãe e da criança”.

O’Malley preside à Comissão Pontifícia para a Protecção de Menores e integra o chamado G9 da Igreja - o grupo de nove cardeais escolhidos pelo Papa para o aconselhar mais proximamente. E confirmou que, no âmbito da comissão formada para fazer face ao abuso sexual de menores por membros da Igreja, recebeu em 2016 correspondência a alertar para os problemas com que se debatem os filhos de padres, mas, por considerar tratar-se de algo que extravasava o âmbito da comissão, remeteu o assunto para a Santa Sé.

“Estou convencido que, sendo ele do grupo dos 9, haverá da parte do Papa uma posição que não se desviará muito da tomada pelos bispos irlandeses”, diz esperar Anselmo Borges. Recordando que o próprio Papa, ainda enquanto cardeal de Buenos Aires, defendeu que os padres que têm filhos devem assumir as suas responsabilidades e abandonar o ministério, Anselmo Borges discorda da obrigatoriedade de serem afastados. “Cada caso é um caso e abre todo um universo de estudo e reflexão. Tudo depende da relação que houver entre ele e a mulher. Imagine um marido que vive bem com uma mulher mas que teve uma relação esporádica com outra e engravidou-a. Tem, é claro, que assumir a sua responsabilidade face à criança, mas deve ser obrigado a divorciar-se se o desejo de ambos é permanecerem casados apesar do que se passou?”, questiona, para concluir: “Não imporia o afastamento como princípio automático.”

Fim do celibato é solução?

Recuperando uma bandeira das vozes minoritárias dentro da Igreja, o teólogo diz-se convencido que se o celibato fosse facultativo muitas destas situações não se teriam colocado. “O celibato, que começou no século XI, com Gregório VI, mas que só viria a tornar-se imposição universal após o Concílio de Trento, no século XVI, não existia até então e não existia também porque Jesus nunca fez da sexualidade um tema central. Mais recentemente, Paulo VI fez um esforço tremendo para acabar com o celibato e creio que há, neste momento, um quadro de fundo em ordem ao termo do celibato obrigatório”, contextualiza. “Foi uma decisão burocrática de um grupo de pessoas e, desse mesmo modo, pode haver agora outro grupo de pessoas que decida acabar com isso”, concorda Maria João Sande lemos.

Apesar dos inúmeros sinais de abertura dados por Francisco, Anselmo Borges não acredita que a mudança se faça com este Papa. “Não creio que seja com este Papa que tem muitos outros problemas para resolver, mas julgo que ele começará a abrir a porta permitindo a ordenação sacerdotal de homens casados”, antecipa. A fundadora do “Nós Somos Igreja” diz-se também “com medo que o Papa Francisco não consiga levar esta mudança avante”. “Apesar de a maioria dos católicos ser favorável ao fim do celibato, dentro da estrutura eclesiástica há muitas vozes contra. E penso que o Papa deve estar com muitas dificuldades no braço de ferro com o sector mais conservador da igreja”, declara Maria João Sande Lemos. As expectativas do padre José Alves Rodrigues também não apontam no sentido de a situação poder ser alterada durante o pontificado de Francisco. “Não acredito que vá entrar nesse campo de batalha, tendo tantas outras questões em mãos”.

No que todos concordam é na necessidade de deixar cair a abstinência sexual como condição para exercer o sacerdócio. “Então sim”, conclui Anselmo Borges, “o Papa teria espaço para se dedicar aos grandes problemas com que se debate a humanidade, como os relacionados com as novas tecnologias, as questões da bioética, da justiça social ligada a uma governança global, em ordem à paz e para que a humanidade tenha futuro”.