Muito idosos precisam de acompanhamento médico regular e de atenção especial

Especialista em envelhecimento defende que é preciso apostar cada vez mais no apoio domiciliário e criar medidas fiscais adequadas para o cuidador informal

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Diogo Baptista

É necessário "um acompanhamento médico regular e uma atenção especial" [aos mais idosos] para evitar "a aceleração da deterioração das suas capacidades funcionais e cognitivas”, afirma Alexandra Lopes, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

O crescimento da população muito idosa é um fenómeno que tem passado ao lado da agenda política. O que é que os mais recentes dados demográficos nos ensinam?

Os dados permitem antecipar que continuará a aumentar a procura pela prestação de cuidados e que as dependências vão aumentar em termos absolutos. Estamos a viver cada vez mais tempo, e isso é bom, o problema é se esse tempo a mais não é vivido com boa saúde. Apesar de haver um ganho em termos de expectativa de vida, também há um aumento do número de anos em que se vive doente. As perdas sensoriais acabam muitas vezes por estar associadas a outros tipos de episódios que, esse sim, vão provocar males maiores em termos de saúde, como as quedas. Não estamos a descobrir a roda, há muitos anos que se tem vindo a enfatizar a importância da prevenção, esta é efectivamente a forma mais inteligente e eficiente de se intervir. O acompanhamento médico regular e a atenção especial a estas pessoas, no sentido de evitar a aceleração da deterioração das suas capacidades funcionais e cognitivas, é determinante não só para os idosos mas para o próprio sistema porque é substancialmente mais barato monitorizar e evitar problemas mais agudos.

A maior parte das pessoas com chegam a idades mais avançadas vivem em casa. O estatuto dos cuidadores informais é reclamado há anos em Portugal, mas os responsáveis governamentais dizem que vai ser preciso passar, primeiro, pelo crivo da concertação social, por causa da redução dos horários de trabalho, entre outras questões. Não estamos a perder demasiado tempo?

O reconhecimento do cuidador informal não passa apenas pela articulação com o mercado de trabalho, há outras questões, por exemplo de política fiscal. Hoje estão previstas algumas deduções, em sede de IRS, para as famílias que têm dependentes a cargo, mas praticamente não são usadas pelos agregados familiares. Por exemplo, se o idoso estiver num lar, a contribuição no pagamento da mensalidade permite maiores deduções, é mais favorável do que se, por exemplo, os filhos optarem por ter os pais em casa. Reconhecer o cuidador informal não é só incluir na legislação laboral licenças ou justificações de faltas ao trabalho. É reconhecer que cuidar de um idoso exige algumas competências específicas - saber dar banho, ajudar a vestir - que, por muito amor que as pessoas tenham, podem não dominar. A formação [a este nível] é muito débil e não há razão nenhuma para que a situação se mantenha assim. Há ainda outras dimensões, como as questões de contagem de tempo [que se passa a cuidar de um familiar ou vizinho idoso] para a reforma.

As pessoas olham habitualmente para este grupo populacional como um peso, uma carga...

Às vezes costumo dizer que o grupo dos idosos no nosso país funciona como um Estado-Providência paralelo, uma Segurança Social sombra. Os idosos vão buscar os netos às escolas. São eles quem muitas vezes pagam os livros e materiais escolares, são eles quem vai ajudando, de diversas formas, os mais jovens. Não há soluções mágicas para lidar com o fenómeno do envelhecimento. Mas, entre outras coisas, é preciso apostar cada vez mais no apoio domiciliário, que tem estado a aumentar, de forma a adiar o máximo de tempo possível a institucionalização dos idosos. O apoio domiciliário é muito melhor para as pessoas e muito mais barato para o Estado.