Editorial

O racismo quantificado

Como rotineiramente vemos, em Portugal, não há igualdade para os mais desfavorecidos.

Entre os habitantes da Amadora, um cabo-verdiano tem 19 vezes mais probabilidade de estar preso do que um português. Leu bem, 19 vezes. Não é um acidente estatístico nem uma realidade subjectiva, é um facto incontornável que nos deve obrigar a perceber o que estamos a fazer mal.

Este primeiro trabalho do Público que publicamos hoje faz parte de uma série sobre a desigualdade racial em Portugal, que aponta para as formas como o racismo se expressa diariamente. É um problema que temos de encarar de frente, sob pena de deixar acumular tensões mal disfarçadas e de um dia vir a ter um problema maior em mãos.

A realidade que começamos a mostrar tem várias semelhanças com o que se passa noutras democracias, como nos Estados Unidos, onde o problema racial está a surgir à superfície com violência redobrada. E há também muitas semelhanças com a forma como, por essa Europa fora, tem sido tratado quem tem outra nacionalidade – com os riscos que se têm visto. Gostamos de nos orgulhar sobre a extraordinária assimilação que fizemos dos retornados, mas gostamos muito pouco de recordar o estado em que deixamos os bairros onde vivem os cidadãos dos Palop. E há números que nos permitem validar a realidade e que nos obrigam a perceber a dimensão do problema.

Mais do que simplesmente fazer um diagnóstico, abrimos as páginas para apontar às raízes do problema, abrindo caminho a possíveis soluções. Porque muito tem de mudar. Quando a polícia envia os agentes com pior classificação para as esquadras dos bairros sociais, está a juntar lume à gasolina. E quando a justiça mostra repetidamente dois pesos e duas medidas na análise de casos em função da cor da pele dos arguidos, é a demonstração de que o problema chega bem longe na sociedade.

Sejamos claros: a questão de fundo aqui é uma profunda desigualdade de oportunidades. Como rotineiramente vemos, em Portugal, não há igualdade para os mais desfavorecidos. Continuamos a permitir pouca mobilidade social e a premiar pouco a igualdade. Nesta realidade, são duplamente castigados os elementos de comunidades identificáveis racialmente – e é-lhes bem mais difícil trepar a escada das oportunidades. Que as mentalidades demoram a mudar é uma evidência. Mas já vai sendo tempo, não?