Bloco e PS acusam Passos de xenofobia

Partidos de esquerda criticam declarações do líder do PSD sobre alterações às regras da imigração e sobre o aumento extraordinário das pensões.

Passos Coelho acusou o Governo de fazer uma cedência ao "radicalismo de esquerda"
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Passos Coelho acusou o Governo de fazer uma cedência ao "radicalismo de esquerda" Miguel Manso

Quase a uma só voz, o PS e o Bloco vieram esta segunda-feira acusar o líder do PSD de usar a xenofobia como arma de arremesso político depois de Pedro Passos Coelho ter criticado as novas regras da lei da imigração durante o seu discurso na Festa do Pontal. A deputada Joana Mortágua viu nos comentários de Passos uma “estratégia de sobrevivência” e uma aposta no preconceito e ataque aos mais fracos; o socialista João Galamba disse que Passos ensaiou "um discurso racista e xenófobo" ao fazer uma "denúncia mentirosa" de alterações à lei da imigração que transpõem uma directiva comunitária.

"Pela primeira vez em muitos anos tivemos em Portugal um líder político do maior partido da oposição a ensaiar um discurso racista e xenófobo, à semelhança do que vemos noutros países, como França e Estados Unidos", defendeu João Galamba em declarações aos jornalistas no Parlamento, reagindo a propósito do discurso do líder do PSD no domingo, durante a Festa do Pontal, em Quarteira, que marcou a rentrée política do partido.

O dirigente e deputado socialista acentuou que se trata de "uma denúncia mentirosa sobre alterações à lei que não existiram", tratando-se somente de uma "transposição de uma directiva europeia, totalmente em linha com o direito europeu". "Não só o PSD e Pedro Passos Coelho inventaram alterações legislativas que não existiram, como aproveitaram essa invenção para ensaiar um discurso que não tem lugar em Portugal e que deve ser severamente censurado", sublinhou.

Galamba atribui as críticas de Passos ao "puro desespero e desorientação" do PSD e acrescenta que estas mostram, afinal, que as declarações do candidato autárquico dos sociais-democratas em Loures, André Ventura, foram "um balão de ensaio para um discurso nacional".

No domingo à noite, o presidente do PSD deu como exemplo do “radicalismo” da geringonça as mudanças da lei de estrangeiros “que na prática permite que qualquer pessoa possa ter autorização de residência em Portugal desde que arranje uma promessa de poder ter um contrato de trabalho". Passos acrescentou, ironizando, que o Estado deixa de ter poder para “expulsar alguém que possa, sendo imigrante, ter cometido crimes graves contra a própria sociedade portuguesa”, e questionou por que não se discutem as implicações desta legislação para a segurança do país a médio e longo prazo.

"Perante a ausência de políticas alternativas, perante a ausência de uma proposta que possa mobilizar os portugueses e as portuguesas, como a única proposta de Passos Coelho continua a ser o programa da troika, ensaiou um discurso que não é habitual e que vai ao encontro de posições xenófobas recentes, que o próprio Passos Coelho disse não fazerem parte da tradição do PSD", acusou Joana Mortágua, em declarações aos jornalistas no Parlamento.

A dirigente e deputada do Bloco sublinhou que "o líder do PSD escolheu começar o ano [político] a dizer que em Portugal não entra qualquer um". "Esta ideia sobre novas regras de imigração, que são bastante razoáveis, tem como único objectivo, depois de todos os argumentos perdidos, apostar no preconceito, no ataque aos mais fracos, como estratégia de sobrevivência", afirmou a deputada do Bloco.

Para o BE, "as saudades da troika" não permitem a Passos Coelho "fazer muito mais", colocando no mesmo plano as afirmações do líder social-democrata sobre o sistema de comunicações de emergência SIRESP, considerando que faz "arremesso de tragédias como arma política". O líder do PSD criticou António Costa por atacar agora a PT, a Altice e o consórcio que gere o SIRESP e as debilidades da infra-estrutura mas não reconhecer que foi ele quem fez a adjudicação final há 11 anos.  

Sobre as críticas de Passos Coelho ao “eleitoralismo” do aumento extraordinário de pensões pago agora em Agosto, a mês e meio das autárquicas, e que levará à subida, este ano, entre seis e dez euros das reformas até 631,98 euros, o PCP lembrou que se o PSD estivesse no Governo o país estaria a discutir um corte nas pensões em vez de um aumento. Este aumento foi uma das condições impostas pelo PCP na negociação do Orçamento do Estado para o corrente ano e o partido já avisou que no próximo ano as reformas têm que ter um “aumento real”, ou seja, acima da inflação.

"A grande diferença entre a posição do PCP e a do PSD sobre as pensões não é da data do aumento das pensões. É que se o Governo PSD estivesse em funções, tal como tinha no seu próprio programa, aquilo que se estaria a discutir hoje não era um aumento das pensões, era um corte de 600 milhões", disse Vasco Cardoso da Comissão Política comunista, em resposta a questões dos jornalistas na sede nacional do partido, em Lisboa.

Já no domingo à noite a secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, considerou que Passos Coelho se limitou a repetir o discurso que faz desde as eleições por não ter "percebido que o país seguiu outro rumo e que é um rumo que está a resultar". A dirigente socialista disse que o líder do PSD é "um homem só, desnorteado, errático e prisioneiro do seu passado", que as críticas de eleitoralismo ao aumento de pensões são uma enorme "desfaçatez" de quem as congelou durante vários anos e que dizer que o "SIRESP tem a cara do primeiro-ministro" foi "um ataque pessoal absolutamente descabido e típico dos discursos demagógicos".

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