Contra o colonialismo, lutar, cantar

Os Downtown Boys estão de regresso aos discos com Cost of Living. Um grito de combate e resistência contra o colonialismo e o imperialismo norte-americano, com um pulsar de esperança. Nesta América de hoje que é também a América do passado, eles estão prontos para fazer barulho.

São latinos, <i>queer</i>, feministas. Lutam contra o racismo, o colonialismo, o imperialismo americano. Quinteto punk de Providence, Rhode Island, podia estar na lista negra de Donald Trump
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São latinos, queer, feministas. Lutam contra o racismo, o colonialismo, o imperialismo americano. Quinteto punk de Providence, Rhode Island, podia estar na lista negra de Donald Trump Miguel Rosario

Os Downtown Boys podiam estar na lista negra — ou nos tweets — de Donald Trump. Afinal, são tudo aquilo que ele odeia. São latinos, queer, feministas. Lutam, sem tirar folgas, contra o racismo, o colonialismo, o imperialismo norte-americano. Cost of Living, o terceiro e novo álbum deste quinteto punk revolucionário de Providence, Rhode Island, não deixa dúvidas quanto a isso.

Chegou esta semana com o selo da Sub Pop, histórica editora americana. Chegou na altura certa. Ouvir Cost of Living é ouvir a América de hoje, que é, na verdade, muito mais do que a América de Trump. “Nós não vemos o Trump e tudo o que está a acontecer agora como uma doença; vemos como um sintoma de uma doença que está cá há muito”, diz Victoria Ruiz, vocalista e letrista dos Downtown Boys, ao Ípsilon. Ouvir Cost of Living é ouvir a América de hoje, que é também a América do passado — afinal, a vitória de Donald Trump é o desenlace lógico de uma série de políticas neoliberais, colonialistas e segregacionistas com anos e anos de história naquele país.

“Se olhares para a raiz dos problemas, isto não começou com a eleição de Trump. Já vem de trás — e a perda de poder e audácia do Partido Democrata contribuiu muito para este contexto”, assinala Victoria, que, além da banda, trabalha numa campanha da organização Center for Popular Democracy pelo pleno emprego, com foco nas comunidades latinas e negras dos Estados Unidos, na senda do trabalho desenvolvido por Coretta Scott King, co-líder do Movimento dos Direitos Civis. “Não basta agora conter a doença, temos de a cortar pela raiz. Não pode ser medicada pelo neoliberalismo, que é o que o Partido Democrata quer fazer. Quem trabalha no terreno percebe que é preciso claramente algo mais corajoso, e há uma esquerda na América que está a trabalhar arduamente nesse sentido.”

E nessa luta, nota Victoria, é essencial desmantelar o privilégio branco e as estruturas de poder que foram sendo construídas e mantidas à custa da opressão e inferiorização dos povos indígenas, dos cidadãos americanos não brancos. Neste novo disco, o ataque dos Downtown Boys vai mais a fundo. Continuam “a falar sobre poder, capitalismo, colonialismo, patriarcado” — tal como em Full Communism (2015), disco anterior que os trouxe para a linha da frente da música de protesto feita nos circuitos mais independentes -, mas agora “com mais nuances”.

Cost of Living é “um documento que revela mais sobre como as nossas mentes e os nossos corpos são moldados, sobretudo nos Estados Unidos, pelo colonialismo e o imperialismo, por um contexto que está cá antes de nós”, explica Victoria, 30 anos, ascendência mexicana. “Temos de encontrar uma maneira de vomitar todo o colonialismo, seja através da música, da luta, da organização política”, acrescenta. “Desaprender todas as coisas tóxicas, todos os estereótipos que nos fizeram odiar a nós próprios, mas percebendo que para isso temos de existir no mundo. Com responsabilização e compaixão.”

A canção Somos Chulas (No Somos Pendejas) é esse drenar de impurezas feito grito de empoderamento. Rock velocista em catarse, The Clash meets Los Crudos meets Alice Bag, que arranha e faz ranger os dentes. As guitarras de gume afiado sinalizam a visceralidade interpretativa de Victoria Ruiz, que, em espanhol e em inglês, reclama o seu espaço, a sua narrativa da história como sujeito, não como ‘outro’. “Nos Estados Unidos, quando os não brancos têm finalmente um lugar à mesa, as pessoas ficam contentes com essa diversidade, mas querem que sejas silencioso. Ou tentam diminuir o teu trabalho. Essa canção é sobre isso: não somos estúpidos, sabemos o que estamos a fazer, não ficamos à margem”, esclarece a vocalista. As letras são inspiradas na música Ain’t Got No, I Got Life, de Nina Simone. “Ela descreve todas as coisas que não tem e que, segundo os padrões hegemónicos brancos, são necessários para ter sucesso. Mas depois diz tudo o que tem e que a faz ser quem é. Jogamos com essa ideia.”

Além de Nina Simone, também é evocada neste primeiro álbum com selo da Sub Pop a activista negra (exilada em Cuba) Assata Shakur, que pertenceu às Panteras Negras e ao Exército Negro de Libertação, desde os anos 70 na lista dos “terroristas mais procurados” do FBI. “O refrão de A Wall [“A wall is a wall/ A wall is just a wall/ A wall is a wall/ And nothing more at all”] é tirado de um poema que aparece no início da autobiografia da Assata Shakur”, informa Victoria Ruiz. A Wall, que abre gloriosamente o disco, é simultaneamente uma denúncia da mediatização e fetichização dos corpos não brancos mortos pela política americana — “não devia ser preciso estar sempre a vê-los na televisão e na internet para perceber que há violência e racismo policial” — e uma cuspidela na cara de Trump, mais precisamente nos seus planos em construir um muro na fronteira entre os Estados Unidos e o México.

E é também os Downtown Boys a fazerem um épico punk de estádio, com bateria, baixo, saxofone e voz na frente de ataque, rodopiado por um êxtase à la Bruce Springsteen, de quem são assumidos fãs (em Full Communism têm, inclusive, uma versão de Dancing In The Dark).

Raiva e esperança

Apesar da raiva, apesar das feridas abertas, Cost of Living tem algo de salvífico. Um pulsar de esperança, uma energia aguerrida. A lava punk de Full Communism é aqui reorganizada — não confundir com domesticada -, com a voz e as letras de Victoria Ruiz a passarem para primeiro plano. A guitarra de Joey DeFrancesco traz luminosidade à urgência emocional dos Downtown Boys, coadjuvada pelas linhas de baixo seguríssimas de Mary Regalado. Os teclados e o saxofone, menos aleatório, menos turvo, ajudam a expandir o som, a “deixar as emoções respirarem”, aponta Victoria: ouça-se Violent Complicity, Lips That Bite ou Because You.

“Tentámos trazer muita energia e um som que não fosse fechado, entalado. Acho que fomos muito influenciados pelo Sun Ra, Kendrick Lamar, Fugazi.” Quem produziu o disco também sabia o que estava a fazer: Guy Picciotto, peso pesado da música independente americana, dos míticos Fugazi e Rites of Spring. “Foi incrível. Ele é um óptimo produtor e percebeu muito bem o que queríamos fazer”, conta Victoria. “Para nós é muito importante ter um elemento de desejo, de esperança; uma espécie de porta aberta.”

PÚBLICO -
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I’m Enough (I Want More) é isso mesmo: rock combativo à flor da pele, à beira do precipício, a ser tão ameaçador quanto triunfante. A ser desafiante e inconformista, como o é em Tonta e Clara, canções cantadas em espanhol contra o feminismo branco e o “patriarcado capitalista, imperialista, supremacista branco” (citando bell hooks); o tipo de canções que fizeram falta ao movimento punk feminista riot grrrl. “Neste disco falamos bastante na supremacia e na fragilidade brancas. Como são usadas para inferiorizar as pessoas de outras etnias e para criar a ideia de que quando temos sucesso é porque tivemos sorte”, diz Victoria. “O que nós fazemos é reclamar poder e o espaço que sempre foi nosso.”

Nesse sentido, a Sub Pop é uma aliada importante. “Eles estão a ajudar-nos a chegar a mais gente, a gente que nunca nos tinha ouvido.” Para os Downtown Boys, estar numa editora relativamente grande e tocar em festivais como o Coachella (aconteceu este ano) não é ceder “à ganância corporativista”. É, como diz Victoria, reivindicar espaço em plataformas dominadas por homens brancos; provocar confronto para provocar mudança. Não há tempo para complexos mainstream vs underground. “Enquanto artista chicana, o que me interessa é quem vai aos nossos concertos, quem ouve os nossos discos, quem tem acesso à nossa música”, afirma Victoria. “Se temos pessoas latinas a ver a nossa música, se é a primeira vez que vêem uma chicana em cima de um palco, se há gajos brancos que gritam coisas ofensivas durante os concertos — tipos com quem provavelmente depois vou ter uma conversa.”

Para Victoria Ruiz, ser um observador passivo não é uma opção. Como escrevia James Baldwin em 1970, numa carta a Angela Davis: “Já que vivemos numa era em que o silêncio não é só criminoso como suicida, tenho feito o máximo de barulho que consigo.” Nesta América de hoje que é também a América do passado, os Downtown Boys estão prontos para fazer barulho.