Crítica Música

Shabazz Palaces não é futuro, é o inventivo presente

Se tivessem optado por juntar os melhores temas dos dois álbuns - Quazarz: Born on a Gangster Star e Quazarz Vs. The Jealous Machines - estaríamos perante uma obra-prima. Assim temos dois bons discos.

Um intricado novelo de sons e vozes, uma espécie de hip-hop liberto de convenções
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Um intricado novelo de sons e vozes, uma espécie de hip-hop liberto de convenções

Há três anos em entrevista a Ishmael Butler, o mentor dos Shabazz Palaces, este dizia-nos que “não queria ser o futuro do hip-hop, mas sim o presente”, numa referência ao facto de grande parte da imprensa os designar dessa forma. É compreensível a sua declaração. Mas não é crível que o duo de Seattle (para além de Ishmael, há também Tendai Maraire) venha a conseguir alterar essa situação na altura em que acaba de lançar dois álbuns de uma só vez, continuando a desafiar convenções e reiterando um imaginário afro-futurista em forma de discos conceptuais.

Apesar, claro, de ser o mundo contemporâneo que é dissecado. O ponto de partida é a visita a um estranho e hostil planeta, ou seja a América, sendo esta analisada a partir da perspectiva de alguém que veio do espaço. Mas como sempre no caso dos Shabazz Palaces não são apenas as alegorias que acabam por fascinar, mas sim o intricado novelo de sons e vozes, uma espécie de hip-hop liberto de convenções feito de sequenciadores, caixas de ritmo, samplers e um espírito jazzístico, que vem dos anos 1990 quando Ishmael fundou os Digable Planets.

Depois de dois magníficos álbuns – Black Up (2011) e Lese Majesty (2014) – pode é argumentar-se que não havia necessidade do projecto ter enveredado pela solução de lançar dois álbuns. Se tivessem optado por juntar os melhores temas de ambos estaríamos perante uma obra-prima. Assim ficamos com dois bons álbuns mas onde a sensação de alguma repetição fica a pairar. 

O single que antecedeu os álbuns foi Shine a light, luminoso tema de balanço rítmico langoroso, que talvez prenunciasse obras mais acessíveis do que no passado. Engano. Em ambos os casos estamos perante música inesperada, que respira ainda nas margens do hip-hop, mas transformando tudo à sua passagem numa massa sonora instável, maleável e agregadora (jazz, soul, funk, electrónicas abstractas, Sun Ra, Brian Eno, Kraftwerk, filosofia, poesia, cultura da internet), que resulta numa experiência sensorial onde nada repousa sobre um plano estático.

Há abstracções electrónicas, melodias radiosas e vozes em ziguezague, compondo um som líquido, cambaleante e desarticulado, qualquer coisa de expansivo, numa colisão de partículas que formam num singular mapa mental. Como acontece quase sempre há uma série de convidados, mas são participações mais espectrais do que reais, com os temas num fluxo contínuo, em duas obras concretizadas por alquimistas do som que pegam nos materiais à sua disposição para fazer alguma da música mais inventiva dos nossos dias.

É fácil dizer que eles representam o futuro, quando à sua volta existe tanta gente no passado, mas na verdade limitam-se a representar ou a reflectir um presente cada vez mais alienígena.