Crítica Cinema

Como roubar um milhão ao som dum iPod

Baby Driver é uma desilusão: a acção é filmada como uma sucessão de telediscos, e a narrativa se perde num sub-sub-tarantinismo muito genérico, sem alma nem graça.

<i>Baby Driver</i>: sempre a descer depois da promessa inicial
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Baby Driver: sempre a descer depois da promessa inicial

Os primeiros filmes de Edgar Wright, feitos ainda na sua Inglaterra natal, não anunciavam necessariamente estarmos na presença de um génio à espera de florescer, mas pareciam prometer um realizador capaz de traduzir, com um mínimo de solidez e de engenho, um espírito britcom realmente divertido, com sentido paródico e múltiplas piscadelas de olho inteligentes – falamos de filmes como Shawn of the Dead, a brincar com a série dos “mortos-vivos” do recém-falecido George Romero, ou mesmo de Hot Fuzz, sobre uma esquadra de polícia na província britânica.

O sucesso desses filmes conduziu-o a Hollywood, e à obrigação de pensar numa audiência “global”. E isso, pensamos, é talvez uma explicação para o pequeno choque com se recebe um dos pormenores mais desapontantes de Baby Driver: a superficialidade, linearidade e (resumidamente) falta de graça dos diálogos, que costumavam ter outra riqueza nos filmes de Wright, plena de implicações, citações e segundos sentidos.

Valha a verdade que as mesmas superficialidade e linearidade são envergadas pela maioria das personagens, declinações pouco imaginativas do modelo do “gangster xunga” (ou, no caso de Kevin Spacey, do “gangster refinado”), absolutamente estáticas no seu desenvolvimento. Aliás, ser “estático” é a pecha maior, e paradoxal, de Baby Driver: passada a introdução, que até inclui um plano-sequência encenado com algum arrojo (a câmara a sair e a entrar de sítios, a percorrer ruas para a frente e para trás), tem-se a impressão de que todos os elementos dispostos prometem alguma coisa de minimamente imaginativa: uma variação sobre o subgénero do heist movie, com um protagonista (o “baby driver”) que até pode ser uma referência ao “driver adulto” do The Driver de Walter Hill, e o curioso pormenor de esse protagonista, sofrendo de um distúrbio auditivo, precisar de estar sempre com os headphones postos e o iPod ligado.

A utilização que, por causa disso, o filme faz da música, como se o Baby Driver estivesse a cada momento a escolher a banda sonora e passasse o filme numa sessão de permanente deejaying, tem alguns momentos curiosos, quer pela maneira como a música entra quer pela própria selecção musical. Mas é um estratagema que se esgota ao fim de pouco tempo, por défice de renovação, e nisso acompanha o movimento do filme - sempre a descer depois da promessa inicial, em cenas falhadas e repetitivas (incluindo as fugas e perseguições de automóvel) onde a acção é filmada como uma sucessão de telediscos, e a narrativa se perde num sub-sub-tarantinismo muito genérico, sem alma nem graça. Esperava-se um bocadinho mais e um bocadinho melhor e, depois de o filme até começar por parecer autorizar essa expectativa, “Baby Driver” é uma desilusão.