Museus fora do radar

Um museu fascinante que o Porto escondia há 20 anos

Tem o maior acervo público de pintura das irmãs Aurélia e Sofia de Sousa e uma boa colecção de artes decorativas. A Casa Museu Marta Ortigão Sampaio reabriu esta sexta-feira no Porto, e agora está mesmo decidida a dar nas vistas.

Paulo Pimenta
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Desde 1996 – já lá vão vinte anos – que o n.º 291 da rua de N.ª Sra. de Fátima, um edifício modernista do final dos anos 50 projectado pelo arquitecto José Carlos Loureiro, acolhe um dos mais interessantes museus municipais do Porto: a Casa Museu Marta Ortigão Sampaio (CMMOS). O que infelizmente nunca houve foi muita gente a dar por ele. É que quem lhe passava à porta dificilmente adivinhava o que se escondia naquele elegante prédio que parece prolongar visualmente o edifício Parnaso, do mesmo arquitecto, que fica uns metros mais acima e é considerado um dos mais notáveis exemplares da arquitectura modernista portuense. Para que o passeante desprevenido se convertesse num potencial visitante seria preciso que reparasse na pequena e pouco visível placa metálica com o nome do museu ou que suspeitasse de que as quatro letras douradas cravadas no muro – SOSS (iniciais dos apelidos de Marta e do marido) – talvez não fossem, afinal, a sigla de um qualquer serviço da Segurança Social. 

Mas aqueles que, mesmo assim, iam conseguindo dar com o museu, tinham bons motivos para se congratular: no interior daquela espécie de apartamento quintuplex de belas linhas modernistas (na verdade são seis pisos, contando a cave e um pequeno andar recuado no topo) não só encontravam um excelente exemplo dessas colecções de artes decorativas ao gosto do coleccionismo ecléctico do final do século XIX e das primeiras decadas do século XX, como podiam admirar alguns conjuntos verdadeiramente únicos, seja o da joalharia, sem paralelo em Portugal no domínio das jóias de uso quotidiano, seja o extenso acervo de pinturas e desenhos de Aurélia de Sousa (1866-1922), uma artista que, cada vez mais, vem sendo equiparada aos grandes nomes da sua geração, como Columbano, Pousão ou António Carneiro.

Reaberta esta sexta-feira na sequência de uma remodelação encomendada ao atelier do arquitecto Camilo Rebelo, pode dizer-se que a CMMOS saiu finalmente da semi-clandestinidade. Uma gigantesca tela encimada por um auto-retrato de Sofia de Sousa, no qual a irmã de Aurélia se pintou a si própria com um vistoso chapéu, torna agora quase impossível que alguém passe nesta rua, uma das radiais da Rotunda da Boavista, sem se aperceber da presença do peculiar museu constituído a partir do legado de Marta Ortigão Sampaio, filha de uma irmã de Aurélia e Sofia de Sousa, Estela, e do engenheiro Vasco Ortigão Sampaio, sobrinho do escritor Ramalho Ortigão e grande mecenas e coleccionador.

Financiada pelo programa NORTE 2020 no âmbito de um projecto de modernização de vários museus da cidade, que inclui ainda a Casa Museu Guerra Junqueiro e o Museu Romântico da Quinta da Macieirinha, a intervenção de Camilo Rebelo foi muito contida no interior, mas alterou radicalmente o acesso ao museu. “Entrava-se por uma porta de serviço, uma coisa sem dignidade nenhuma. Por isso decidimos fazer a entrada por uma garagem que nunca tinha servido como tal e que era usada para expor as obras de Sofia de Sousa”, explica o arquitecto. Uma ampla zona envidraçada dá agora acesso a esse novo átrio, onde está instalada a recepção e que funciona também como montra do museu: um canapé e um espelho evocam os ambientes da grande burguesia portuense reproduzidos na sala de estar do primeiro andar, uma escolha de óleos de Carlos Reis e Cândido Cunha serve de aperitivo ao importante conjunto de pintura naturalista portuguesa espalhado pelas salas e patamares do museu, e um retrato a sanguínea de Marta Ortigão Sampaio, executado por António Carneiro, presta tributo à doadora, representada ainda por uma pequena tela da sua própria autoria.

A equipa de Camilo Rebelo instalou também um novo elevador interno, tapou um grande painel de madeira que existia no vão de escada e que “estava muito manchado”, criou tectos falsos nos vários andares, que ocultam as instalações técnicas, e fez mais algumas pequenas intervenções, mas alterando o menos possível a arquitectura de José Carlos Loureiro, que não projectou o edifício para ser um museu, mas como habitação, dotada de cozinha, aposentos para as empregadas, na cave, quartos de banho completos e todas as outras divisões e valências expectáveis numa casa burguesa da época.

Em meados da década de 50, Loureiro era um jovem arquitecto de 30 anos, mas já tinha mostrado o seu talento no pavilhão que hoje tem o nome de Rosa Mota e no edifício Parnaso, um complexo habitacional e comercial construído em terrenos que também pertenciam à família Ortigão Sampaio. É pois a ele que Marta e o marido, o industrial têxtil Armando Sequeira, recorrem para que lhes projecte um edifício a ser construído um pouco abaixo do Parnaso. “Pediram-me uma moradia com vários andares, aquilo era um programa esquisito, e só mais tarde percebi que a ideia era transferirem para ali as colecções que tinham na quinta de S. Mamede de Infesta”, disse o arquitecto ao PÚBLICO.

Na verdade, o casal acabou por nunca habitar a casa, porque Armando Sequeira adoeceu e veio a falecer no início de 1958, tendo a sua viúva continuado a residir na Quinta de S. Mamede, onde morreria em 1978. No seu testamento, doou esta quinta ao hospital pediátrico Maria Pia, ao mesmo tempo que legava à Câmara do Porto o edifício da Rua N.ª Sra. de Fátima e as colecções que herdara do pai e que ela própria reunira, com a solicitação de que a autarquia criasse um museu de pintura e artes decorativas. Um objectivo que só viria a ser concretizado em 1996, quando a Casa Museu Marta Ortigão Sampaio abriu as portas.

Uma fotógrafa por estudar

Se o museu teve algum impacto público na altura da sua inauguração, passados vinte anos era outra vez um ilustre desconhecido. Condição que agora se tenta finalmente inverter, embora seja justo lembrar que, mesmo antes destas obras de requalificação, a CMMOS tivera já um pico de notoriedade em 2016 com a grande exposição Aurélia de Sousa – Mulher Artista, comissariada por Filipa Lowndes Vicente, que entre Junho e Outubro foi vista por 6.338 pessoas, pouco menos do que as 7.254 que tinham visitado o museu ao longo de todo o ano anterior.

E o crescente reconhecimento crítico de Aurélia de Sousa, que essa exposição ao mesmo tempo confirmou e consolidou, faz adivinhar que o núcleo de mais de 30 obras da pintora que o museu possui irá ser cada vez mais o seu principal foco de atracção. É certo que a obra-prima da artista, o justamente célebre Auto-Retrato com casaco vermelho, está no Museu Nacional Soares dos Reis. Mas a colecção da CMMOS inclui obras tão notáveis como o grande retrato da mãe da pintora, ou o da sua irmã Estela, ou o arrojado auto-retrato em que Aurélia se figura vestida de Santo António. E ainda peças tão invulgares como a Cabeça de homem negro, ou tão bonitas como o pequeno estudo intitulado Retrato de Mariana, ou tão curiosas como o biombo com cenas de coelhos que Aurélia, provavelmente inspirada nas histórias de Peter Rabbit, da britânica Beatrix Potter, pintou para as sobrinhas com quem vivia na Quinta da China, uma propriedade com belas vistas sobre o Douro, na zona oriental do Porto. 

O espaço dedicado a Aurélia de Sousa é o primeira que o visitante encontra logo que passa o novo átrio do museu. Além das pinturas, uma vitrina com materiais de trabalho mostra, a par de caixas de tintas e álbuns de desenhos, várias máquinas fotográficas. Aurélia usou a fotografia para a auxiliar na pintura, mas praticou-a também como disciplina artística por direito próprio, aproveitando os ensinamentos do seu amigo e vizinho Aurélio da Paz dos Reis, que, conta Maria da Luz Paula Marques, a ajudou a montar um estúdio na Quinta da China. A exposição de 2016 veio chamar a atenção para esta outra dimensão da artista, cuja importância não pode ser ainda devidamente avaliada, já que o seu vasto espólio fotográfico está quase todo nas mãos de familiares.

Percorrido este núcleo, o visitante pode então descer à cave, onde está a deslumbrante colecção de jóias, com mais de 300 peças que vão do século XVII ao século XX, e voltar a subir, agora directamente para os pisos superiores, onde se procurou reconstituir os ambientes da sala de estar e do escritório pessoal de Vasco Ortigão Sampaio, tal como existiam na Quinta de S. Mamede. Um valioso contador mogol do século XVII, uma estante giratória em estilo arte nova assinada por Louis Majorelle (José Carlos Loureiro gostou tanto do móvel que tentou, sem sucesso, comprá-lo aos seus clientes), ou ainda um precioso cadeiral vindo do desaparecido convento de S. Bento de Avé-Maria, são algumas das muitas peças que adornam estas salas, cujas paredes estão repletas de pinturas assinadas por nomes como Silva Porto, Malhoa, Marques de Oliveira, Artur Loureiro, Carlos Reis ou Veloso Salgado.

Irmãs inseparáveis

Despejada da sua antiga sala, também a colecção de pinturas de Sofia de Sousa passou para os andares superiores. Enquanto Aurélia foi viva (morreu em 1922, aos 55 anos, ao passo que Sofia veio a morrer, já nonagenária, em 1960), as duas irmãs foram sempre inseparáveis: estudaram ambas com Marques de Oliveira na Academia de Belas-Artes do Porto e frequentaram as duas a Académie Julian, em Paris, Aurélia apoiada financeiramente pelo marido da sua irmã Helena, o banqueiro José Augusto Dias, e Sofia pelo outro cunhado abastado, Vasco Ortigão Sampaio. E antes de regressarem à propriedade familiar da Quinta da China, onde partilhariam o mesmo atelier, viajaram juntas por vários países europeus. A diferença, dizem os especialistas, é que Sofia não tinha o talento de Aurélia. Talvez não tivesse, mas Maria da Luz Paula Marques acredita que “irá ser uma artista muito valorizada nos próximos anos”. E não deixa de ser sintomático que um quadro atribuído durante muito tempo a Aurélia de Sousa, Mulher à Janela, suficientemente bom para ter chegado a figurar na capa de uma monografia da pintora, tenha sido recentemente “devolvido” à sua irmã mais nova.

E resta subir ao último piso aberto ao público, que acolhe a biblioteca, especializada em livros de arte, e um pequeno auditório. Maria da Luz Paula Marques gostava de montar aqui uma sala de jantar, o que lhe permitiria mostrar alguma da muita cerâmica que neste momento não tem condições para expor.

É uma de várias ideias que poderão ser concretizadas um dia, como a instalação de uma pequena cafetaria no simpático jardim da casa, que só não avançou já, diz Camilo Rebelo, porque a verba não chegou. Este espaço exterior, com belas árvores, um pequeno lago e pedras trabalhadas que pertenceram ao já referido convento beneditino, teve sempre entrada livre e, segundo a coordenadora, é até bastante frequentado. “Há mesmo quem venha para aqui almoçar”, garante.

Camilo Rebelo também não exclui que o pequeno prédio contíguo ao museu, projectado na mesma altura e no mesmo estilo por José Carlos Loureiro, possa vir a ser acoplado à CMMOS, um cenário que neste momento não se coloca, mas que poderá ganhar actualidade se as colecções aumentarem ou se, por exemplo, o museu  não custa ser optimista , vier a dispor no futuro próximo de um núcleo significativo de fotografias de Aurélia de Sousa.

O que é já bastante claro é que o relevo que a casa museu dá às galerias de Aurélia e Sofia de Sousa mostra o desejo de conciliar a vontade da doadora, que idealizou um museu centrado nas artes decorativas, com um esforço para tornar a CMMOS mais contemporânea, destacando o que no espólio é hoje mais procurado e valorizado.