Opinião

Culpabilização nacional: um populismo

Há algo estruturalmente errado e insensível no nosso país.

Agora que vai esfriando uma parte da demagogia que se alimentou do dramático incêndio em Pedrógão Grande e do ridículo roubo de armas numa unidade militar, talvez se justifique um olhar introspetivo sobre a forma como a nossa sociedade transforma dramas e problemas num espetáculo de que muitos se aproveitam inescrupulosamente. Tudo serve para criar um reality show, inclusive para retirar dividendos políticos e para aparecer teatralmente nas imagens da televisão com ares de sofrida piedade, à custa da dor de outros. Há algo estruturalmente errado e insensível no nosso país.

Os portugueses adoram os dramas e as crises em que possam treinar essa sublime capacidade que, em esquizofrenia coletiva, consiste em desesperadamente culpabilizar alguém, torturar alguém no pelourinho público sob os holofotes da comunicação social, exigir responsabilidades (naturalmente, “até às últimas consequências”), destruir imagens e respeitabilidades, linchar, assassinar o carácter de alguém em público, exigir demissões, julgar na rua e condenar, num país que, desta forma, não é um Estado de Direito.

Trata-se de algo profundo na política, na comunicação social e na sociedade (por motivos e interesses distintos em cada um dos casos). Nesta vertiginosa compulsão destrutiva rapidamente se entra na demagogia. Cada um quer parecer mais purista que o outro. Cada um deseja parecer mais justiceiro do que os restantes. Frequentemente, são os mais corruptos ou os mais incapazes aqueles que mais ruidosamente “exigem justiça” em público. No meio da lúcida racionalidade de alguns, germina uma orgia de disparates por muitos outros. Perde-se a serenidade e mesmo a sanidade. Políticos e comunicação social pressentem uma imediata predisposição popular para uma nova telenovela dramática que prenderá as atenções do país durante algum tempo, e imediatamente cavalgam a corrente onda de demagogia fácil. É um “Populismo à Portuguesa”. Mas é também uma patologia que seria mais adequada a um qualquer país culturalmente atrasado.

Parte da comunicação social, em crítica perda de vendas, de receitas de publicidade e de leitores (e de empregos), percebe o filão de chamas e imagens bombásticas que atrairão diariamente muita atenção e audiências, que significam dinheiro. É um dos ecossistemas de capitalismo selvagem da sociedade contemporânea. Para muitos políticos a tragédia é uma dádiva, com que vão tentar atacar-se e desgastar-se mutuamente, para maximizar os seus índices de popularidade e a probabilidade de manter ou obter empregos políticos no futuro. Aparecer nos locais dos dramas facilmente rende visibilidade nas televisões. Toda esta coreografia de vaidades, interesses políticos e interesses mediáticos é, afinal, parcialmente assente na indireta exploração da dor e dos dramas reais de outros. Para muitos, este espetáculo reality show configura um pequeno período de êxtase de visibilidade pública. Resta saber se tudo isto, à custa de sofrimento de alguns, é moral.

O país confia substancialmente nas investigações e no rigor da Polícia Judiciária, mas quando esta encontrou evidências de que o incêndio de Pedrógão Grande se iniciara com uma descarga elétrica sobre uma árvore em concreto, imediatamente muitos fingiram não ouvir. Seria para alguns interesses (que lucram com o prolongamento diário destes dramas) um desperdício encerrar-se tão cedo o capítulo desta telenovela no que se refere à procura de culpados, de incendiários. Há que explorar muito mais cada aspeto que encerre drama, sangue, conflitos pessoais. Não são convenientes as explicações simples que esgotem instantaneamente o longo potencial de guerrilha partidária e de capitalização mediática. Mas será isto sério?

Após o furto de armas militares, precipitadamente foram “exonerados” cinco comandantes militares (o que julgo inaceitável) a quem, na mente coletiva, se colou uma imagem de alguma culpabilidade quando, de facto, ela não havia sido apurada. Foi um disparate, uma demagogia, num país parcialmente doente e imaturo que exige crucificar alguém, já.

A pressão da opinião pública, devidamente acirrada por diversos grupos de interesses, conduz a uma nova onda de disparates que são as decisões de fundo que, a quente (o que é sempre insensato e nunca é inteligente), parte do eleitorado exige em frente do pelourinho público.

O primeiro-ministro, neste caso, teve a personalidade de resistir razoavelmente a esta onda de demagogia. O ministro da defesa, apesar de também ter cometido alguns erros, teve também essa dignidade e essa firmeza de lucidez.

Mas, em geral, os políticos não são líderes. São seguidores. Pressentem as orientações predominantes da opinião pública em cada momento e seguem-na de forma calculista mas acéfala. Nunca se espere genuína liderança de políticos convencionais. São uma ilusão. O país tem muitos excelentes líderes, mas em geral eles não se encontram na política.

Esse facto concorre para se compreender como o nosso país é tão facilmente submergido por ondas de demagogia que pretendem ganhar dinheiro e lucros políticos com dramas, erros e desastres, cavalgando o que todos eles pressentem estar a mobilizar popularmente. Por isso, por definição, esta é uma demagogia populista.

Em momentos de delírio demagogo, culpabilizador e inquisitorial, torna-se perigoso cultivar a lucidez e a independência de espírito e de análise. Mas nenhuma sociedade é inteligente, civilizada e arrojada quando segrega o medo de se manter a lucidez em lugar da fácil demagogia.

Neste habitual estilo de populismo nacional, em quase todas as direções emergem situações que não se amadurecem com objetividade e sensatez, porque, nestas ondas coletivas de febril demagogia, só quem tem muita coragem, preparação e coluna vertebral se atreve a pensar com independência. Aquilo de que Portugal, afinal, tanto necessita.

No meio da precipitação emotiva e pouco racional, decidem-se, por exemplo, conceitos enganadoramente óbvios. Os exemplos são inúmeros. Acredita-se que é muito eficiente quebramos a capacidade de propagação dos fogos se retalharmos as florestas com estreitas faixas de descontinuidade sem árvores, como se, na verdade, o fogo não passasse facilmente faixas muito mais largas e de solo incombustível, como estradas e mesmo autoestradas (como na zona onde tantos automóveis com vítimas foram incinerados numa larga estrada de Pedrógão Grande).

O país acredita cegamente na transcendente virtualidade de “limparmos” as matas (leia-se, rapar o coberto vegetal não arbóreo que cobre o solo da floresta). Mas esse “mato rasteiro” é, na realidade, a base de sustentabilidade de biodiversidade terrestre do nosso país, sem o qual inúmeras espécies vegetais e animais (inclusive as poucas espécies de mamíferos que ainda não exterminámos) desaparecerão. É difícil acreditar que algum verdadeiro ecologista apoie de um modo cego e nacionalmente generalizado esta tese. A floresta não é um conjunto de árvores; é um ecossistema integrado e simbiótico que engloba árvores e mato rasteiro. Por este raciocínio de eliminar fogos porque eliminamos alguma matéria combustível, deveremos acreditar que, afinal, erradicaremos os fogos quando tivermos eliminado do país a grande matéria combustível — as árvores, a floresta? Será esta via de raciocínios sólida?

Logicamente todas as ideias devem ser refletidas com seriedade. Com pressa, mas sem esta irresponsável precipitação em cima do momento do drama.

Um último comentário sobre a primitiva crença nacional que consiste em acreditar na vantagem de “ondas de demissões”. Só quem nunca liderou, e não sabe liderar, não compreende que, depois de um grande erro cometido, provavelmente a pessoa mais preparada para evitar esse erro no futuro é quem o cometeu, se tiver tido a inteligência e a humildade de reconhecer e aprender com o erro. E no que refere ao conceito duvidoso (mas mediático) de “retirar consequências políticas” (isto é, demissões teatrais que o país do reality show adora), imagino já que, se o superior de alguém que errou se demitir, subsequentemente o mesmo deverão fazer o superior daquele, o ministro, depois o primeiro-ministro e o Presidente da República que os empossou ou os manteve em funções. Demissões em cascata, “retirando consequências políticas”. Seria uma irracionalidade (ou, quem sabe, uma singular oportunidade para reinventar o país?).

O autor escreve segundo as normas do novo Acordo Ortográfico