Literatura electrónica: do barroco ao futuro

O ELO 2017, um programa dedicado à Literatura Electrónica, que inclui um colóquio, um festival e várias exposições no Porto, vem chamar a atenção para uma arte pouco mais conhecida hoje do que há 40 anos.

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As exposições Communities e Translations podem ser visitadas até domingo no Mosteiro de S. Bento da Vitória, no Porto Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta

O que é uma obra de literatura electrónica? Pode ser, por exemplo, uma série de combinações geradas por computador a partir das palavras que compõem a primeira estrofe de Os Lusíadas, ou um objecto que associa texto, som e imagem e parece um vídeo-poema, mas que muda a cada vez que o reabrimos na Internet, ou pode ser algo ainda mais estranho, como a peça O 9, que o artista, programador e escritor mexicano Eugenio Tisseli, inspirando-se num seu trabalho anterior, criou expressamente para a exposição Translations, que se pode ver até domingo no Mosteiro de S. Bento da Vitória, no Porto.

De cada vez que há um fecho com variação positiva na Bolsa de Valores de Frankfurt, o computador instalado por Tisselli traduz para alemão e mostra no ecrã um fragmento do artigo 9.º da Constituição Portuguesa, no qual se definem as “tarefas fundamentais do Estado”, como garantir os direitos e liberdades, incentivar a participação democrática dos cidadãos, proteger o património cultural e o ambiente ou promover a igualdade entre homens e mulheres.

Sugerindo uma ligação de dependência automática entre a lei fundamental portuguesa e as flutuações da finança europeia, esta obra, O 9 é uma das muitas obras que integram Translations, que por sua vez é apenas uma pequena parte do gigantesco programa de literatura electrónica promovido no Porto pela Electronic Literature Organization (ELO), uma instituição internacional sediada no prestigiado Instituto de Tecnologia de Massachussets, vulgo MIT, nos Estados Unidos.

Acolhido pela Universidade Fernando Pessoa (UFP), onde termina este sábado um colóquio de quatro dias com cerca de 250 investigadores e artistas digitais de 35 países, o festival anual da ELO decorre pela primeira vez em Portugal, após ter tido apenas duas edições anteriores na Europa, a primeira em Bergen, na Noruega, que possui um importante centro universitário dedicado à literatura electrónica, e a segunda na Universidade de Paris VIII, onde ensina o físico e pioneiro da literatura electrónica Philippe Bootz, coordenador da alire, a primeira revista electrónica a publicar poesia gerada por computador, e um dos mais ilustres convidados do ELO’2017.

O problema da obsolescência

Quando o PÚBLICO se encontrou no Mosteiro de S. Bento da Vitória com o comissário desta edição portuense do festival, Rui Torres – simultaneamente membro da direcção da ELO e responsável pelo Centro de Texto Informático e Ciberliteratura (CETIC) da UFP –, Philippe Bootz tentava justamente ressuscitar no local a revista alire servindo-se de um emulador, um software que permite que um programa criado para uma plataforma funcione noutra. E a coisa não parecia estar a ser fácil.

“Um dos problemas com que lidamos hoje na literatura electrónica, como em toda a tecnologia, é a obsolescência”, sublinha Rui Torres, notando que muitos trabalhos em disquetes, e mesmo em CD-Rom, “estão hoje perfeitamente obsoletos”. Este é inevitavelmente um dos temas de discussão no colóquio que a Universidade Fernando Pessoa está a promover e que, além de uma maratona de mesas-redondas, apresenta quatro conferências principais – uma por dia –, respectivamente a cargo do investigador alemão Friedrich W. Block, que falou na quarta-feira de Literatura Electrónica como Construção Paratextual, do já referido Eugenio Tisselli, da americana Rita Raley, vinda da Universidade de Santa Barbara, na Califórnia, e de Matthew Kirschenbaum, da universidade de Maryland, também nos Estados Unidos, com uma intervenção cujo título joga com o facto de a instituição que organiza o evento partilhar a sua sigla com uma conhecida banda inglesa dos anos 70: ELO e a Electric Light Orchestra: Lições do Prog Rock à Literatura Electrónica.

Entre a multidão de participantes vinda de todos os cantos do planeta, o colóquio dá ainda voz a um conjunto importante de artistas convidados, como os poetas sonoros portugueses Miguel Azguimes e Américo Rodrigues, a poliglota artista holandesa Annie Abrahams, que tem dupla formação académica em Belas Artes e Biologia e se especializou em instalações vídeo e performances baseadas na Internet, ou ainda a australiana Mez Breeze, autora de poesia electrónica e jogos de computador, que participará a partir do seu país usando as potencialidades das novas tecnologias.

Se as conferências e debates na UFP são o prato forte do programa em termos académicos, a sua face mais pública inclui um festival de performances, leituras e projecções de filmes (todas as sessões são de entrada livre) no espaço Maus Hábitos, no cinema Passos Manuel e no Mosteiro de S. Bento da Vitória, um dos principais parceiros da UFP nesta realização, e ainda três exposições. Communities e a já referida Translations podem ser visitadas até domingo no mosteiro: a primeira aborda as comunidades com as quais a literatura electrónica mantém relações de vizinhança, como a da copy art ou dos videojogos, e a segunda explora o modo como nela se expande o conceito de tradução, abarcando já não só os trânsitos interlinguísticos, mas também transferências mais complexas, como aquelas que a peça de Tisselli testemunha. No palacete dos Viscondes de Balsemão ficou a exposição Affiliations, que traça uma linhagem de antepassados para a literatura electrónica, dos mais próximos, como a poesia visual e concreta, ao dadaísmo do início do século XX, e recuando mesmo ao barroco, com os seus labirintos e anagramas linguísticos. “Em Portugal”, lembra Rui Torres, “Ana Hatherly estava a fazer essa busca da poesia barroca ao mesmo tempo que escrevia na Colóquio Letras recensões críticas aos trabalhos de Pedro Barbosa”, que já em meados dos anos 70 publicava os seus “autopoemas”, gerados em computadores que ainda usavam cartões perfurados.

As obras seleccionadas para as várias exposições incluem objectos materialmente tão simples como um poema visual de Salette Tavares ou tão complexas como Dark Matter, de Simon Biggs, um quarto escuro montado no palacete dos Viscondes de Balsemão que reage à presença dos visitantes, mostrando excertos textuais em três dimensões de uma entrevista feita a um preso de Guantánamo.  

Um dos objectivos assumidos destes encontros é discutir, assume Rui Torres, “o próprio campo de investigação”. De facto, 40 anos depois de pioneiros como o alemão Theo Lutz, o italiano Nanni Balestrini ou Pedro Barbosa terem criado, com diversos nomes, o que veio a chamar-se literatura electrónica, esta não dispõe ainda de uma definição que possa considerar-se consensual. Ressalvando que “outra pessoa diria outra coisa”, Rui Torres restringe a literatura electrónica a criações que utilizem o meio digital de forma criativa e crítica.

Ou seja, um soneto de Camões não se torna um poema electrónico por ser publicado num blogue. Mas quando o poeta e ensaísta E. M. de Melo e Castro, na obra Re-Camões, de 1980, propõe uma série de variações sobre textos camonianos, esta “retransformação expressiva de um reportório anterior” já o aproxima mais da literatura electrónica, argumenta Rui Torres.

Poetas experimentais como Melo e Castro, Ana Hatherly ou António Aragão “trabalharam num tempo em que os computadores não estavam facilmente acessíveis”, diz, “mas o próprio Herberto Helder, nos anos 60, em A Máquina Lírica [originalmente intitulado Electrònicolírica] e Húmus, imita um procedimento electrónico combinatório inspirado no trabalho do artista itialiano Nanni Balestrini”, observa Rui Torres, que nos seus próprios poemas electrónicos tem utilizado textos de autores como Herberto ou Clarice Lispector.

Desde os tempos das experiências de Pedro Barbosa nos anos 70, quando não existia ainda multimédia, a literatura electrónica tem-se transformado e expandido muito, integrando som, imagem e novas possibilidades como a realidade virtual ou a realidade aumentada, mas o investigador acha que “o princípio não se alterou”. E se os seus trabalhos que incluem som e imagem, mas que têm por trás um algoritmo aleatório que os transforma de cada vez que são “refrescados”, parecem muito distantes da combinatória estritamente linguística dos autopoemas de Pedro Barbosa, estão na verdade mais próximos deles do que, por exemplo, de um vídeo-poema. “Quando mostro o meu trabalho, aviso sempre: o que vocês vão ver não é um vídeo, porque o vídeo não tem software, não tem programa, é uma sequência pré-definida”.

E uma das características centrais da literatura electrónica é, diz, o seu nível de variabilidade. Uma marca com a qual a historiografia literária, habituada a lidar com objectos fixos, canónicos, terá dificuldade em lidar. E tudo indica que os computadores são também imunes às angústias da influência.

Mas não se corre o risco, acredita Rui Torres, de a literatura electrónica se vir a tornar ela própria o cânone. “A poesia concreta e visual também não se tornou canónica, derivou, sim,  em publicidade, que usa hoje muitas das estratégias que ali foram experimentadas”, argumenta.

Observando que “as pessoas tem tendência para se alienar perante o novo meio” digital, defende que o papel dos criadores é apresentar uma perspectiva crítica: “utilizar o Google, o Twitter ou o Facebook, não para pôr likes ou dislikes, mas para os desconstruir”.