Da Chick e Maceo Parker: o brilho da pupila e o eclipse do mestre

Foi Da Chick quem mais brilhou na noite funk do EDP Cooljazz, em 20 de Julho. Maceo Parker repetiu uma receita demasiado gasta. Já Jéssica Pina assegurou uma abertura digna.

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Maceo Parker em Oeiras; atrás dele, Darliene Parker e Rodney “Skeet” Curtis EDPCOOLJAZZ
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Greg Boyer, trombone de varas, um dos melhores músicos em palco EDPCOOLJAZZ
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Da Chick durante a sua actuação em Oeiras EDPCOOLJAZZ
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Da Chick durante a sua actuação em Oeiras EDPCOOLJAZZ
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Jéssica Pina, com Anderson Ivo (teclas) e Eron Gabriel (bateria) EDPCOOLJAZZ

Não foi uma noite de “casa” cheia, mas o duplo concerto marcado para 20 de Julho nos Jardins do Marquês de Pombal, em Oeiras, no âmbito da 14.ªedição do EDP Cooljazz, prometia. Com Maceo Parker e Da Chick, ele ex-membro da banda de James Brown, ela uma devota de Brown e da sua inapagável estrela funk. Antes deles, porém, ouvimos a saxofonista Jéssica Pina, que, com Anderson Ivo (teclas) e Eron Gabriel (bateria), foi aquecendo, no seu jazz-funk-soul, uma noite que no tempo, não na música, já esfriava.

Foi com um tema de Maceo Parker que Jéssica se despediu e foi com outro tema dele que Da Chick se apresentou. Depois de glosar Shake everything you got, e vendo que poucos abanavam o que quer que fosse, ela e os seus músicos que a acompanhavam foram pondo à prova a audiência até começarem a mandar nela: “Estas pessoas que estão aí sentadas têm que se levantar agora”, gritou Da Chick. Levantaram-se, mas sentaram-se depois. O público que estava de pé, porque os seus bilhetes só davam para isso, é que ia dançando. Mas isto não desanimou a cantora, pelo contrário. No desfile de temas (Cocktail, Lotta love, Do tha clap, Funk call, Excuse while I kiss the sky), Da Chick mostrou uma energia notável e uma jovial frescura no modo de abordar as sonoridades mais dançantes, num todo onde se fundem soul, hip-hop, funk, uma mescla catártica e estimulante. Excepto nalguma petulância e na tentativa desastrada de “amestrar” o público, de que ela no final se desculpou, tudo o resto no espectáculo de Da Chick foi enérgico e visceral. Bastaria o final, com Hot sauce, para comprovar a mais-valia do seu projecto musical. Brilhante.

Esperava-se, por isso, mais de Maceo Parker, o mestre. Aquele que a lenda nos diz que mantém nos dedos e no sopro a alma funk que alimentou James Brown ou Prince, cujas bandas integrou. O problema é que Maceo é hoje mais um mestre-de-cerimónias. O que apresentou em Oeiras não diferiu quase nada, nos tiques e nos truques, do que tem vindo a apresentar em palcos por esse mundo (basta consultar os muitos vídeos, de vários anos e lugares, que se acumulam no Youtube, para perceber isso). Com uma banda formada por Rodney “Skeet” Curtis, baixo eléctrico; Greg Boyer, trombone de varas; Will Boulware, teclados (estes três muito bons); Pete Maclean, bateria; Darliene Parker, vocais; e Andy Maddison, guitarra, Maceo Parker (voz e sax alto) empatou mais do que estimulou.

Não que a sua voz ou capacidade de sopro se ressintam dos seus 74 anos, porque estão ambas em boa forma. Mas porque o seu espectáculo, hoje, é mais o “aviar” de uma receita do que o forte abalar de alicerces do funk de outrora. Explorando e, em vários casos, estendendo até à exaustão temas como Make it funky ou Gimme some more, à custa de solos também eles prolongados em excesso, Maceo celebrou James Brown (Prisoner of love), Marvin Gaye (Let’s get it on) ou Ray Charles, mas fê-lo dentro do “caderno de encargos”. Quando Darliene Parker cantou (e com que voz e garra!) Stand by me, com ele na flauta, parecia que o espectáculo ia finalmente começar. Mas acabou por se arrastar, sem garra, por mais James Brown (Sex machine, em versão branda, e Soul power).

Maceo disse e repetiu: “With us, is all about love”. Antes fosse “about music”. Ficávamos mais bem servidos.