Crítica

O estranho caso dos Doppelgangaz

Os cães ladram e a caravana passa: com maior ou menor atenção mediática, os homens das capas negras continua a manter os seus índices de qualidade em alta.

Foto
Uma aura um tanto ou quanto obscura, mística, quase de “seita”

Os Doppe-lgangaz, dupla nova-iorquina, são um daqueles inexplicáveis, mas nem por isso raros, fenómenos transversais a qualquer género musical: como conceber que um grupo de tão aprimorada música, com dez álbuns (alguns exclusivamente de instrumentais) e quatro EP, tudo isto desde 2008, continue, hoje, na sombra, altamente subvalorizado? Como conceber que, num tempo em que o acesso e o consumo de música se fazem em termos radicalmente diferentes de há uns anos atrás (Facebook, YouTube, Spotify, etc.), a circulação da sua música continue a ser coisa quase “secreta”, clandestina, reservada a uns quantos conhecedores, e que a imprensa pouca atenção lhes dedique (queriam música underground? Está aqui…)? Não é fácil explicar, mas o ponto talvez passe pelo pouco ou nenhum histerismo mediático que os próprios cultivam, mantendo-se fiéis a uma postura discreta, sóbria (eles são os Lone Sharks, como se auto-intitulavam no álbum de 2011) e, claro, sombria, algo latente, desde logo, no seu próprio nome (declinação do termo alemão doppelgänger), nas capas negras que orgulhosamente trajam (aspecto nada despiciendo num meio, como o hip-hop, em que tantas vezes a ostentação material é presença obrigatória) e na cruz crística que carregam (não figuradamente falando), ou, ainda, no facto de trazerem sempre para os seus discos poucos (e praticamente desconhecidos) convidados, dispensando apanhar hype à boleia de terceiros (coisa explorada até à exaustão no hip-hop actual). Este modus vivendi granjeou-lhes, por isso, uma aura um tanto ou quanto obscura, mística, quase de “seita”, algo que, se não os retirou de uma posição de nicho, os elevou a um estatuto de culto (curiosamente, talvez ainda maior na Europa do que na América).

Matter Ov Fact e EP, ambos rappers e produtores e amigos de longa data, parecem, contudo, indiferentes a essa circunstância, continuando a compor e a escrever com o mesmo ritmo e, mais importante, com a mesma qualidade, assumindo, num forte e orgulhoso espírito de independência, toda a “cadeia de produção” nas suas mãos, desde a produção e mistura à realização dos videoclips, passando pelo próprio trabalho gráfico que acompanha os discos. Estamos, assim, desde já completamente à vontade para asseverar que por aqui passa algum do melhor hip-hop americano da actualidade, e isso mesmo que não recebam um décimo da atenção mediática de Kendrick Lamar ou J. Cole (outro caso semelhante, talvez mais incompreensível ainda, é o de Oddisee, cujo seu último e brilhante disco, também deste ano, já por aqui amealhou a nossa mão-cheia). Mas mesmo no circuito dos ouvintes de hip-hop, a recepção à dupla de Orange County tem as suas resistências, desde logo porque ela se afasta das matrizes discursivas mais tradicionais do hip-hop, preferindo discorrer, com humor, mordacidade e erudição (e recorrendo, do ponto de vista formal, a intricados sistemas rimáticos), sobre temas sinistros e sórdidos q.b. (embora não façam o horror rap dos anos 80).

Aqui se encontram, então, muitas e desbragadas crónicas de vagabundagem (têm uma compilação de instrumentais intitulada Beats For Brothels…) e outros passatempos que tais (hábitos alimentares, coleccionismo de objectos encontrados em contentores do lixo, relações sexuais mais ou menos desastradas e pormenores bizarros associados, etc.), nas quais frequentemente se referem a si mesmos em tom auto-depreciativo, tudo isto enquanto vão fazendo, mesmo que involuntariamente, um comentário sobre os tiques e obsessões da sociedade americana. É, portanto, este singular lugar na paisagem do rap americano — não sem o seu quê de charme — que explica a global sensação de “estranheza” do ouvinte quando confrontado com a música do também auto-intitulado Ghastly Duo (que é também o nome do seu primeiro EP, Ghastly significando algo horrível ou repelente). Acompanha-a (à estranheza “temática”) o extremo bom gosto nas composições instrumentais, beats que, entroncando no boom bap clássico dos anos 90 nova-iorquinos (a sua terra natal), não estacionam por aí, antes denotando um irresistível toque moderno que impede a criação no ouvinte daquela sensação — não necessariamente negativa, diga-se — de déjà vu, de qualquer espécie de “esgotamento”. E, a este respeito, o novo álbum destaca-se, desde logo, pelo modo inventivo com que se inicia em Dopp Hopp, sofisticado instrumental com tanto de breakbeat como de dubstep, as rimas a chegarem já só a meio da faixa.

Neste capítulo, aliás, o álbum prossegue, ainda mais acentuadamente, a mudança de direcção sonora iniciada no LP anterior (Peace Kehd, 2015), que os transportou de beats mais crus e orgânicos para uma toada mais electrónica e, sobretudo, mais distendida, solar, essa que os sintetizadores de Roll Flee, um “G-Funk” saído da coast oposta à sua (Los Angeles, pois claro), testemunham, algo também notório nas suas vozes, que, se mantêm o perfeito sentido de ritmo dos trabalhos anteriores, deslizam agora — de forma quase sussurrada, por vezes — sobre as batidas com uma elegância e uma ginga (smoothness, não há melhor forma de dizê-lo) insuperáveis. Mas uma toada, outrossim, mais melodiosa e melancólica, preenchida por refrões cantados que, na sua singeleza (não há aqui decorativismo ou fogo de artifício), não deixam de ser extremamente catchy, como aqueles que se ouvem nas viciantes Rapamycin, Boston Beard (cheiinha de swing), E.E.W., Strong Ankles ou I’ve Been, noutros casos cheirando já mesmo a clássicos instantâneos (Pride’s Cloak, If It Wasn’t For The Cloak, esta última com uma encantadora linha de baixo que podia ter sido sacada pelo californiano Exile). Em 2017, depois de tanto e tão consistente material posto cá fora, já ninguém terá disposição para lamúrias de revolta (ou esperanças ingénuas) a respeito de um mais amplo (e merecidíssimo) reconhecimento dos Doppelgangaz, mas tempo há sempre, isso sim, para o que realmente importa: ouvir, ouvir, ouvir.