Crítica

Lana Del Rey desce do pedestal

Sem revoluções, a norte-americana parece descer do pedestal e afastar-se das polémicas: podemos apreciá-la pelo seu óbvio talento.

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“I never really noticed that I had to decide/ To play someone's game or live my own life”, canta Elizabeth Grant no refrão de Get free, a canção que fecha Lust for Life. Ao quinto álbum, Lana Del Rey, o pseudónimo com que Elizabeth deixou o anonimato, decidiu ser feliz, viver a sua vida, fazer o seu jogo – ou tentar. É esse o seu “compromisso”, o seu “manifesto moderno”, canta na mesma cantiga, que se cola perigosamente a Creep dos Radiohead. A nova Lana está aqui, confiante, afirmativa; a velha Lana, recicladora da cultura pop, viciada no passado, também.

Em Lust for Life, sucessor de Honeymoon (2015), Lana Del Rey vira uma página. Pressentimo-lo logo no título (um desejo de viver que é o reverso de Born to Die e Ultraviolence), na capa (uma fotografia da cantora, toda ela sorriso largo, em frente a uma carrinha clássica) e em letras como Change (“Change is a powerful thing/ I feel it coming in me”). Tudo aponta para um caminho livre das relações obsessivas e danosas que, no passado, Lana transformou em canções controversas, tornando-o alvo fácil de jornalistas à procura de polémicas.

Lust for Life muda o tom, mas não opera uma revolução na estética da norte-americana, um mosaico de referências e apropriações (da pop à folk, de Hollywood ao hip-hop mais fútil) iniciado em Born to Die (2012). Criticada desde então por uma alegada falta de autenticidade (um equívoco disparatado quando é de pop que estamos a falar), parece confortável na sua pele de artista fixada no passado e na construção e reprodução de mitos. Talvez por isso tenha chamado Stevie Nicks para Beautiful people, beautiful problems – a voz dos Fleetwood Mac envelhecida tem o grão que a canção lenta e bafejada pelo sol da Califórnia precisa (ouvimos as vozes de Nicks e Del Rey enroscadas numa nuvem de reverberação). Talvez por isso não se preocupe em imitar as progressões harmónicas dos Beatles em Tomorrow never came, colaboração com Sean Ono Lennon, filho de John e Yoko, e de proclamar, na própria canção, “‘Isn't life crazy?’, I said now that I'm singing with Sean/ Whoa”.

Love faz-se com uma melodia mínima que se engrandece suavemente – nela cabem referências ao mundo retro que Lana alimenta (“Look at you kids with your vintage music/ Comin' through satellites while cruisin'/ You're part of the past, but now you're the future”) e uma citação dos Beach Boys (aquele reconfortante “don’t worry baby”). Lust for life, a canção, inspira-se em Peg Entwistle, actriz frustrada que se suicidou saltando do H do letreiro Hollywood, mas o resultado é perversamente triunfante: uma balada ao retardador, pop impecavelmente desenhada para as vozes doridas e carnais de Lana e The Weeknd. A$AP Rocky e Playboi Carti põem rap e Auto-Tune no tédio estilizado de Summer bummer – Lana volta a encontrar no hip-hop e em linguagens vizinhas, como o trap, uma via para subverter o classicismo.

Summer Bummer

Tudo isto é território conhecido, palmilhado com a competência do passado. Mas Lana muda, sem estrondo. Em When the world was at war we kept dancing, ouvimo-la cantar: “Is it the end of an era?/ Is it the end of America?/ No, it's only the beginning/ If we hold on to hope, we'll have a happy ending.” Confronta-se com a América, mas, surpresa, não é a do passado: é a de 2017, sob os comandos de Trump.

Em Lust For Life, Lana parece descer do pedestal que ajudou a construir e abrir-se ao mundo, como uma pessoa normal. O ruído das discussões de outrora calou-se: podemos apreciá-la pelo seu óbvio talento.