Crítica Livros

Humor e sociopatia

Um retrato psicológico de uma personagem patética e perturbadora num romance surpreendente: O Meu Nome Era Eileen, de Ottessa Moshfegh.

A história contada por Ottessa Moshfegh não se resume à narração da “vida desgraçada”
Foto
A história contada por Ottessa Moshfegh não se resume à narração da “vida desgraçada” Krystal Griffiths

Filha de mãe croata e de pai iraniano, Ottessa Moshfegh (n. 1981) estreou-se na literatura com um romance surpreendente, O Meu Nome Era Eileen, que foi finalista do prémio Booker, e ganhou o PEN / Hemingway para primeiros romances. Em algumas entrevistas Moshfegh confessou que quis escrever um “romance negro”, no entanto, o resultado não foi um texto canónico do género, pois a autora extravasa as “regras” e faz um brilhante retrato psicológico de uma personagem que aos poucos se vai tornando marcante e que faz lembrar uma outra de um conto de Foster Wallace, em que ele fala do “narcisismo tóxico” de alguns eternos deprimidos.

Eileen vive com um pai alcoólico e paranóico (um pai que “era incapaz de amar, de sentir um amor verdadeiro”), antigo polícia, e trabalha num reformatório, um instituto correccional de menores em que as suas colegas eram “preguiçosas, incultas, umas verdadeiras ordinárias”. Corre o ano de 1964, Eileen tem 24 anos de idade e nada faz para melhorar a sua situação; é apática e insensível, vive obcecada com o corpo e veste as roupas da mãe (morta), sobrevive ao tédio espiando um dos guardas da prisão por quem se apaixona, Randy, que tem “uma aura de tristeza encantadora”. Eileen odiava o silêncio, odiava a quietude, odiava praticamente tudo, e estava sempre infeliz e zangada. Vivia numa pequena aldeia da Nova Inglaterra onde a demência parecia esconder-se debaixo daquele exterior frio e fatal, tão próprio da região, segundo ela. Era tudo muito deprimente.

Esta personagem complicada, neurótica, e com traços de sociopatia, vai mostrando ao leitor, narrando na primeira pessoa (mais de meio século depois), o horror e a sordidez que se podem esconder por detrás das portas, ela que sempre imaginou que “as casas das outras pessoas eram muito mais agradáveis” do que a sua, “repletas de mobiliário de madeira envernizada e elegantes lareiras com peúgas penduradas no Natal”. Com Eileen o leitor assoma para uma sociedade hipócrita, para o abuso infantil e juvenil no reformatório, e a violência policial. Naquela época, ela achava-se a pior — “feia, nojenta, imprópria para o mundo”. E imaginava a vida como “uma longa sentença à espera que o tempo passasse”.

Otessa Moshfegh ao colocar parte da acção da história na tal “América profunda” — sem tentar esconder as influências de Jim Thompson e de Raymond Carver, e ainda de alguma Flannery O’Connor — faz um retrato surpreendente e extraordinário de uma personagem “inadaptada”, e quase faz esquecer a acção típica de um “romance negro”: o crime que acontece quase que passa para segundo plano aos olhos do leitor. Olhado por esta perspectiva, poder-se-ia dizer, de maneira obviamente exagerada, que este é um romance “falhado” dentro do género, no entanto ultrapassa-o e dá-lhe novas e modernas roupagens, obscuras e perturbadoras. O retrato psicológico, assente em profundidades ambíguas, parece sempre autoconsciente da sua singularidade. O “horror da invisibilidade” de que a personagem padece, completada pelo sublinhar da desgraça que foi a sua vida naqueles tempos, associada a algum humor negro como seja a sua dependência dos laxantes e a “máscara fúnebre” que usa no trabalho (assim descreve ela a sua cara), faz de Eileen Dunlop uma personagem pouco comum que se evidencia, acima de tudo, pela sua desmesurada autocomplacência “irritante”, pois o leitor assiste ao seu prazer perverso de se retratar como vítima de situações que se recusa a alterar. “Quando era criança, tinham-me ensinado que seria louvada e recompensada pelo meu sofrimento, pelos esforços resolutos para ser boa, mas todos os anos Deus castigava-me. Não recebia presentes, não aconteciam milagres, não havia noite de paz. Também por isso me compadecia de mim mesma.”

A história contada não se resume à narração da “vida desgraçada”. A meio parece insinuar-se uma reviravolta com o aparecimento de Rebeca, a nova directora educativa do reformatório. É com ela que tudo se encaminha para o “romance negro” ao acontecer um crime em que Eileen é envolvida. Mas isto fica para o leitor descobrir.