O Evangelho de Pippo Delbono professa a liberdade

Vangelo é a resposta pessoal e poética de Pippo Delbono a um pedido da sua mãe no leito de morte. No Festival de Almada, o criador italiano rejeita a religião que matou a sua liberdade quando era novo e apela ao humanismo.

“Eu não sou uma ONG”, 
diz Pippo Delbono. Ou seja, 
não é de acção directa sobre 
os problemas que o teatro 
se ocupa, mas de comprometer 
os indivíduos até sentirem 
que lhes cabe a todos
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“Eu não sou uma ONG”, diz Pippo Delbono. Ou seja, não é de acção directa sobre os problemas que o teatro se ocupa, mas de comprometer os indivíduos até sentirem que lhes cabe a todos Luca Del Pia

“No seu leito de morte, a minha mãe continuava a falar-me de Deus, da caridade, da Nossa Senhora e de Santo Agostinho. Ela disse-me: ‘Pippo, porque não fazes um espectáculo sobre o Evangelho?’ (…) Ela não suportava que eu me tivesse tornado budista.” São estas as primeiras palavras que se ouvem em Vangelo (Evangelho), saídas da boca do italiano Pippo Delbono, de microfone na mão, numa lenta descida pela escadaria do teatro, da régie em direcção ao palco. Enquanto desce, vai regressando a esses momentos finais em que a mãe tentava ainda convertê-lo, enquanto ele, em silêncio, por respeito à situação, calava a raiva acumulada durante os anos em que as igrejas lhe tinham enchido a cabeça de medos – de Deus, do sexo e do amor. E o sentimento de que, por defeito, Pippo era um pecador.

Talvez não fosse exactamente esta a “encomenda” de um espectáculo sobre o Evangelho que a sua mãe tinha sonhado. Nos bastidores do Teatro Stabile di Genova, diz-nos Delbono – minutos depois da primeira de cinco apresentações na cidade italiana em Maio, suado, exausto, a tentar encontrar as palavras justas para se exprimir – que esta é e não é a resposta ao desejo da sua mãe. É enquanto ponto de partida, enquanto mote sugerido num último sopro de vida, uma derradeira vontade que se dispôs a atender; mas não o é enquanto ponto de chegada, enquanto cumprimento estrito daquilo que a mãe lhe sugeria. “Esta peça não é sentimental”, diz ao Ípsilon. “É mais profunda do que isso. Eu não fazia a toda a hora aquilo que a minha mãe me dizia para fazer. Ela dizia-me para ir à igreja e eu não ia; ela dizia-me para casar e eu não me casei. Queria e quero ser livre. Todos temos mãe e todas elas tentam mudar-nos, mas durante a vida separamo-nos de mães e pais – é a vida. Tal como acontece com os animais.”

Vangelo, que o Festival de Almada apresenta no Teatro Nacional Dona Maria II (Lisboa) a 15 e 16 de Julho, começa por ser uma reacção a esse pedido, mas rapidamente estabelece um perímetro de salubridade e autonomia para Pippo Delbono. Cita Santo Agostinho, mas também Rolling Stones e Pasolini, segue o seu caminho, numa revolta contra a Igreja mas em igual medida a favor da emancipação e da autodeterminação do indivíduo. “Falo de algo que matou a minha liberdade quando era novo e falo de lutar contra toda esta culpabilidade e esta tristeza.” E aí, vale tanto a Igreja como a mãe – não quer obedecer às vozes de terceiros. Vangelo está, por isso, muito longe de qualquer acto de conversão. Bem pelo contrário. Pippo grita em palco: “Io non credo in Dio”. “Não acredito em Deus”. E especifica não acreditar no Deus dos mártires, dos suicidários, dos kamikazes, das cruzadas, num “Deus masculino, sempre masculino”.

Aquilo que lhe mexe com as entranhas é a constatação de tanta gente morta em nome de Deus, “toda uma História construída a partir da suposição de Deus, uma suposição que levou a uma conquista do mundo”. “Fazemos por encontrar responsáveis por toda a imoralidade, por tudo o que acontece agora e nos deixa chocados com tantos casos horríveis de fanatismo, mas também temos muito fanatismo na nossa História.” Para quem, como Pippo, entende a figura de Jesus Cristo como a de “um homem revolucionário e anarquista”, a exploração da sua imagem tomou contornos demasiado folclóricos e desvirtuadores da mensagem original. “Matámos Cristo desde o primeiro momento”, acusa. “Judas e Pedro traíram Cristo. Judas morreu, Pedro tornou-se o chefe da Igreja.”

Pois, Pippo Delbono não faz exactamente o que a mãe lhe pediu. Este Evangelho não é a sua rendição tardia ao catolicismo fervoroso daquela que lhe deu vida.

A verdade na cara

Em 2016, Pippo Delbono apresentou no DocLisboa um outro Vangelo, filme com que viaja para um centro de refugiados. Essa temática infiltra-se também neste Vangelo, espectáculo teatral que cede espaço à dança e à música, onde o discurso do afegão Safi Zakria entra de chofre, relatando uma vida em fuga, feita de uma repetida sobrevivência em barcos com espaço para 10 pessoas e que transportam 60, a caminho da Turquia ou da Grécia, julgando-se já morto quando sai da água e pisa terra firme. Vangelo funciona como uma sucessão de quadros que Delbono monta ao sabor da sua imaginação, despreocupado com quaisquer regras de coerência. Mas tudo se liga, na verdade, sem grande esforço. Quando o criador italiano fala de responsabilidade colectiva e da morte de Cristo, é também à imoralidade e ao humanismo enxovalhado que aponta.

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Safi é alguém que chega ao teatro da mesma forma que Bobò, um dos intérpretes-fetiche de Pippo Delbono. O encenador encontrou Bobò, surdo-mudo e analfabeto, no asilo psiquiátrico onde passou 47 anos da sua vida (actualmente tem 80), e em 1997 integrou-o pela primeira vez nos seus espectáculos em Barboni. “Estas pessoas, como o Bobò, o Gianluca ou o Nelson, têm uma relação diferente com o seu corpo e com a vida, e conseguem transmitir algo especial. O Bobò pode fazer aquilo que lhe apetecer.É incrível porque cada acção dele torna-se teatral e funciona. É uma capacidade rara de ser fiel à verdade. Quando se pede a um actor para ser verdadeiro, oh, é muito difícil, há logo muitas máscaras que se levantam.”

Ao cruzar-se com Safi, houve algo dessa verdade esmagadora que Delbono também encontrou. “É muito difícil ficar ali, como ele faz, a contar a sua história ao público; é sempre difícil aguentar”, reconhece o encenador. “Mas há uma verdade muito grande naquela cara.” E aquela cara é o espelho onde Pippo pretende que todos se possam ver. É a porta de entrada para a responsabilidade política, de uma implicação colectiva. “Não podemos ser estúpidos ao ponto de vermos um refugiado e mandá-lo embora”, diz. “Isso é também o efeito de algo em que temos responsabilidade, é consequência de tudo quanto fizemos e fazemos na História. Mas dá muito trabalho mudar, transformarmos quem somos. E eu não sou uma ONG.” Ou seja, não é de acção directa sobre os problemas que o teatro se ocupa; mas de comprometer os indivíduos até sentirem que lhes cabe a todos. O teatro de Delbono faz-se, na realidade, desse grito incessante pelo humanismo.

“De todo o lado me chegam os ecos das dores do mundo, das guerras, dos massacres, dos atentados, dos mortos, das pessoas que se explodem, dos loucos”, diz antes de simular a sua crucificação em palco quando assume a quase indiferença perante tudo isto. E argumenta depois, no sossego do seu camarim, massajando uma perna que magoou ao dirigir na Ópera de Palermo Passione Secondo Giovanni, que o catolicismo em si de pouco serve. “A Marine Le Pen é católica, o Trump é católico, são todos católicos!”, ri-se. “É por isso que se quisermos a verdade temos de ouvir Jesus Cristo. Para mim, que não sou católico, as palavras são também muito óbvias. Muito claras e muito políticas. As religiões e as igrejas apenas criam uma grande confusão.”

Tenho pena, madame

Nos primeiros minutos de Vangelo, Pippo Delbono compara as igrejas aos teatros onde apresenta os seus espectáculos: “belos, elegantes, mas com o perfume de velhos, de mortos.” A dramaturgia do teatro contemporâneo, queixa-se, tornou-se “uma grande televisão, uma confusão intelectual”. Shakespeare, contrapõe, “Shakespeare era real”. Diz-se antes atraído por uma dramaturgia “complexa, rica, contraditória e esquizofrénica”. E é por isso que não procura uma narrativa linear, faz suceder coreografias a roçar o desejo e a manipulação do corpo feminino a relatos de guerra e da dureza dos movimentos migratórios, uma mesa cravada de armas precede a entrada em cena de um bode maestro e de um grupo trajado de acordo com a moda Ku Klux Klan e que fica em palco enquanto escuta a ária de Don Giovanni em que a estátua do comendador roga ao nobre que se arrependa dos seus pecados.

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Delbono quer atingir esse lugar do arrependimento, despertar consciências e desafiar um teatro bafiento, o teatro rico e conservador frequentado pelas mesmas elites que respondem com aplausos e pouco mais. Compara, fatalmente, com os refugiados a quem o mostrou o seu filme em Palermo, quando alguns deles “não conseguiram dormir durante essa noite”. Na Ópera de Palermo, com um Cristo flagelado acompanhado de coro e orquestra, pouco se interessa por reacções de quem sai a meio vexado com a sua proposta. “Tenho pena, madame, que tenha pagado 50 euros e não goste”, ironiza. “Bach, refugiados, Bobò e cantores foi demasiado para eles. Prefiro que os refugiados vão a esse teatro rico e depois não consigam dormir.”

O seu trabalho, diz, é o de “um músico, um pintor, um escultor, um coreógrafo”. Não aponta à compreensão. A compreensão, argumenta, já provou que leva a maus resultados. Para Pippo Delbono, a sua missão é a de chegar aos sentidos. E talvez assim, alcançar a liberdade. Era esse o Cristo que gostaria de ter ouvido, que gostaria de ver contado, que poderia ser o seu Evangelho: aquele que falava de liberdade, amor, felicidade, leveza, música, dança. Talvez assim se convertesse ao cristianismo, como desejava a sua mãe.

O Ípsilon viajou a convite do Festival de Almada