O início foi nos Açores e chama-se AIR Center

Em Abril, dez ministros de oito países apoiaram a criação do Centro de Internacional de Investigação do Atlântico (AIR Center, na sigla em inglês). Espera-se que já em 2018 seja mais do que um papel assinado e que a Declaração de Belém seja o seu principal motor.

Ilha Terceira, nos Açores
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Ilha Terceira, nos Açores Nuno Ferreira Santos

O primeiro “mergulho” para uma cooperação internacional no Atlântico Sul aconteceu na Ilha Terceira, nos Açores, em Abril deste ano. Foi nessa altura, que governantes de oito países (que além de países europeus já incluíam o Brasil e a África do Sul) apoiaram formalmente os princípios da criação do Centro Internacional de Investigação do Atlântico (AIR Center). Mas o plano consensual de unir forças para explorar e investigar o Atlântico, através dos oceanos, atmosfera, clima, energias renováveis e espaço, precisava de um motor e combustível, ou seja, da Comissão Europeia e de financiamento. A Declaração de Belém, que esta quinta-feira é assinada em Lisboa, era o compromisso que faltava para executar o plano.

O AIR Center será um dos principais instrumentos da cooperação que a União Europeia quer promover com o Brasil e África do Sul e que já tem com outros parceiros no mundo. Não será o único palco onde poderemos assistir aos efeitos da parceria internacional mas, para já, é o único projecto que nasceu a depender deste compromisso. O desafio para a criação de uma instituição intergovernamental centrada nos Açores e voltada para a investigação do Atlântico foi lançado pelo ministro da Ciência português, Manuel Heitor. E qual é o plano?

Na reunião de trabalho que decorreu na ilha Terceira em Abril, representantes da indústria aeroespacial mundial e cientistas de 29 países apoiaram a ideia de trabalhar em conjunto para ajudar a salvar o planeta a partir dos Açores. O projecto incluía várias frentes de ataque, desde o estudo da atmosfera à investigação no fundo do mar, passando pela exploração das forças das energias renováveis e soluções para atenuar os efeitos das alterações climáticas. A mais mediática e polémica ideia (e talvez a mais difícil de executar) apresentada para integrar o AIR Center foi a possível instalação de uma base espacial para lançamentos de pequenos satélites numa das ilhas do arquipélago. Seria um “elemento diferenciador” do projecto, acredita Manuel Heitor, que, no entanto, acabou por concluir que esta não é uma peça “essencial” da instituição que vai nascer nos Açores.

Mesmo sem um voo em direcção ao espaço, o AIR Center promete vários projectos especiais que pretendem aproveitar o “inigualável laboratório natural” do arquipélago, as várias infra-estruturas que já existem no local, como o aeroporto das Lajes, as estações de medição da radiação atmosférica do Departamento de Energia dos EUA na ilha Graciosa ou o Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) da Universidade dos Açores na ilha do Faial.

A investigação que se dedica às alterações climáticas será uma das que mais poderá beneficiar com o projecto do AIR Center. As mudanças no clima podem ser confirmadas e medidas nos oceanos que “absorveram” 90% do excesso de energia acumulado no sistema climático desde 1971 e que guardam ainda cerca de 30% do carbono emitido pelos humanos. Depois há o estudo das ondas, das correntes e temperaturas da água que podem explicar muita coisa sobre o que mudou ou pode mudar no clima da Terra. Os efeitos dos estragos provocados no planeta também se medem nas nuvens que reagem aos aerossóis (partículas suspensas) e gases com efeito de estufa.

Na área da energia, há várias fontes para explorar nos Açores, desde a geotermal à solar, passando pelo vento e pelo mar. Por fim, a ciência dos oceanos e a tecnologia para o Atlântico, ou seja, o ambicionado reforço da investigação nas fontes hidrotermais, ecossistemas, biologia marinha, geologia e oceanografia. E ainda o investimento na chamada “economia azul”.

Para já, o AIR Center está só no papel. Os primeiros projectos com o “carimbo” desta instituição intergovernamental só deverão ser lançados no final de 2018. Até lá, vão decorrer ainda várias reuniões para a apresentação de um plano concreto de organização e criação das infra-estruturas necessárias e dos estatutos da instituição. 

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