Um homem despe-se da sua guitarra para vestir o desencanto da vida

O Homem da Guitarra , com encenação e interpretação de Manuel Wiborg, conduz-nos pelo processo de auto-análise de um músico de rua. Está em cena a partir desta quinta-feira no Teatro Carlos Alberto, no Porto.

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NELSON GARRIDO

A iluminação no palco é diminuta, mas vislumbramos de imediato o construtor de guitarras. Anda de um lado para o outro entre as madeiras da oficina, cortando, lixando e esculpindo o corpo do instrumento que dará música. A sua calma e o seu rigor demarcam-se do desassossego e da desorientação que tomam conta da cena assim que um homem de meia-idade chega empunhando a mala da sua guitarra na mão. “Dia após dia, lá estou eu na minha passagem subterrânea a tocar guitarra e a cantar as minhas cantigas. Sempre as mesmas cantigas. E o dia inteiro as pessoas passam por mim. Durante todo o dia, passam por mim”, começa por se apresentar o músico de rua. Mas um e outro são O Homem da Guitarra, o último espectáculo da temporada 2016/2017 do Teatro Nacional São João, que sobe ao palco esta quinta-feira no Teatro Carlos Alberto, no Porto. O monólogo de uma hora é encenado e interpretado por Manuel Wiborg a partir do texto de Jon Fosse e conta com a participação de Adriano Sérgio, músico e artesão.

“Tal como Jon Fosse, também tive uma banda de garagem quando era miúdo, por isso identifico-me muito não só com os textos dele mas também com ele”, conta Manuel Wiborg ao PÚBLICO. Depois de ter encenado Sou o Vento, em 2013, decidiu voltar à obra do dramaturgo norueguês – descrito pelo francês Le Monde como o “Beckett do século XXI” e o maior dramaturgo norueguês depois de Henrik Ibsen – pela sua musicalidade e poesia. “O teatro dele apela a três grandes elementos que são fundamentais e que eu aprecio no teatro: o pensamento, a sensibilidade e a variação”, explica o encenador.

A partir de um texto simples e mordaz, o protagonista cria uma relação de intimidade com a audiência ao confiar-lhe o seu cansaço e desalento para com a vida. Não lhe sabemos o nome, a idade ou a classe social, mas através de um ritmo feito de repetições e silêncios ficamos a saber que o músico de rua veio para “uma cidade tão ao norte do mundo” por causa de uma mulher e por ali ficou pelo filho que os dois tiveram. “Fosse recorre à repetição precisamente porque essa é uma característica da música, que tem repetições e variações”, nota Manuel Wiborg, acrescentando que o estilo de escrita do dramaturgo norueguês, desprovido de didascálias pormenorizadas sobre as personagens, “centra mais o trabalho do actor nas sensações, no pensamento, na musicalidade e na poesia”.

A música vai de mãos dadas com o monólogo lúcido e incisivo que se apresenta em cena e cabe em grande parte na figura de Adriano Sérgio. O músico e construtor de guitarras já havia colaborado com Manuel Wiborg na encenação de O homem ou é tonto ou é mulher, de Gonçalo M. Tavares, e foi chamado inicialmente para fazer o que melhor sabe fazer: música. Isto porque o encenador, que se propusera “parar seis meses para aprender a tocar guitarra”, recebeu entretanto um convite para uma telenovela e não teve tempo de dominar o instrumento.

Mas os 15 anos decorridos entre a primeira vez em que trabalharam juntos, em 2002, e o presente mudaram radicalmente a vida de Adriano. “Andou a viajar pelo mundo como responsável da linha de baixos de grandes bandas como Iron Maiden e, quando lhe liguei, tinha desistido dessa vida há três meses para criar uma patente e construir a sua própria guitarra”, conta o encenador. Adriano Sérgio deixou de ser músico, mas não deixou de fazer música – Manuel Wiborg viu uma metáfora e agarrou-a para contar uma história.

Entre o plano da ficção e a performance do real

Quer a personagem de Wiborg quer Adriano Sérgio são o homem da guitarra, mas existem em diferentes dimensões. Se o primeiro é fictício e representa a necessidade de fazer escolhas e o fracasso e a desilusão que delas advêm, o segundo está em palco como em casa (ou na oficina). “O Adriano está com a roupa que usa para trabalhar a fazer exactamente aquilo que faz na oficina”, descreve o encenador. “Tudo o que está no cenário são ferramentas com que ele trabalha no dia-a-dia."

O protagonista vai falando ao público sobre a monotonia da sua vida na passagem subterrânea onde canta “sempre as mesmas cantigas” para ganhar uns trocos e frisa várias vezes a frieza e a indiferença das pessoas que por ali passam e baixam a cabeça. “Têm vergonha de mim ou de si próprias?”, questiona o homem, relembrando com nostalgia os dias em que “não havia nada de que gostasse mais do que a música”.

O músico assume-se derrotado perante a vida e canta sobre o seu desalento apoiado não pelos acordes da guitarra, mas por uma batida criada com o pé que se mistura com o som musical da maquinaria que Adriano Sérgio usa para criar construir guitarras. No fundo, este monólogo não é a história de apenas um homem. “Não são apenas os artistas que não têm sucesso ou ganham mal, é um problema transversal a todas as profissões”, atira Manuel Wiborg. “As pessoas chegam aos 50 anos e ficam no desemprego, porque não são velhas e podem trabalhar mas já não são novas. De um modo romântico, deixo aqui o Adriano a construir o seu próprio instrumento e a realizar os seus sonhos."

O espectáculo não pretende chegar a uma solução, mas partir das inquietações individuais de um sujeito para pôr os espectadores a reflectir sobre o contexto sócio-económico actual. “Gosto de fazer teatro que incomoda os espectadores”, termina Wiborg. “E que talvez possa ajudar a que se tornem pessoas melhores." O Homem da Guitarra é uma co-produção entre o Teatro do Interior, o São Luiz Teatro Municipal (onde estará em cena em Janeiro de 2018) e o Teatro Nacional São João e está em cena até 16 de Julho.