A geração que nasceu na Hong Kong chinesa não quer ser chinesa

Xi Jinping está pela primeira vez no território desde que chegou ao poder. A ocasião é de festejos e fogo-de-artifício, mas é uma sociedade muito dividida que o recebe.

Foto
Activistas que protestavam contra a visita do Presidente chinês foram detidos antes da chegada de Xi Jinping Reuters/DAMIR SAGOLJ

Foi há precisamente vinte anos que o iate real Britannia abandonou o porto de Hong Kong com o príncipe Carlos e o último governador britânico do território, Chris Patten, a bordo. A viagem representava o derradeiro acto que consumou a entrega da soberania sobre Hong Kong à China, pondo fim a mais de 150 anos de domínio britânico. O momento não podia ser mais simbólico. Hong Kong foi cedido na sequência da primeira Guerra do Ópio (1839-42), em que a poderosa armada britânica esmagou as defesas imperiais chinesas, pondo fim à idade de ouro da dinastia Qing. Naquela noite de 1 de Julho de 1997, os britânicos retiravam-se por mar, tal como tinham vindo, como se o seu domínio sobre Hong Kong não tivesse sido mais do que um curto interregno na hegemonia chinesa.

Para marcar a data, o Presidente chinês, Xi Jinping, participa nas comemorações deste sábado, naquela que é a sua primeira visita a Hong Kong desde que chegou ao poder, em 2012. O momento é de festejos para a liderança chinesa. Na antecipação da visita, os órgãos de propaganda de Pequim têm publicado vários balanços das últimas duas décadas que dão conta do sucesso da governação de Hong Kong, segundo a fórmula conhecida como “um país, dois sistemas”, cunhada por Deng Xiaoping.

Ao abrigo deste modelo – aplicado também a Macau após a passagem para a administração chinesa em 1999 – a soberania de Pequim sobre o território é assegurada, mas é mantido um certo grau de autonomia que garante, por exemplo, várias liberdades aos cidadãos de Hong Kong que não existem no resto da China. O sistema económico capitalista, bem como a independência dos tribunais e a liberdade religiosa e educativa, são outras características intocáveis. Tudo isto está contido na Lei Básica, uma mini-constituição que tutela o funcionamento político de Hong Kong durante os primeiros 50 anos após a passagem para a administração chinesa.

No primeiro discurso que fez, pouco depois de aterrar em Hong Kong, Xi disse que a cidade esteve sempre no seu coração e desejou um “futuro estável” para o modelo “um país, dois sistemas”. Porém, até mesmo o líder chinês reconheceu que “os últimos cinco anos não foram nada fáceis”.

Detenção de activistas

É sobretudo uma sociedade muito dividida que Xi encontra em Hong Kong. A tensão nos dias que antecederam a visita do Presidente chinês foi notória. Na véspera da sua chegada, vários manifestantes foram detidos pela polícia depois de terem tentado trepar uma estátua de seis metros oferecida pela China, enquanto gritavam contra a visita de Xi. Um deles foi Joshua Wong, o dirigente estudantil que esteve na liderança das grandes manifestações de 2014, consideradas o mais forte desafio à linha pró-Pequim desde a transferência da soberania.

Os protestos estavam precisamente relacionados com a governação do território. Segundo a Lei Básica, a China compromete-se a respeitar o desenvolvimento democrático de Hong Kong, incluindo a introdução do sufrágio universal para a escolha do chefe-executivo. A proposta enviada por Pequim no Verão de 2014 contemplava a votação directa, mas escondia um detalhe que se viria a revelar decisivo – apenas os candidatos previamente escolhidos por uma comissão eleitoral composta na sua maioria por elementos próximos do Partido Comunista podiam apresentar-se a eleições.

Foi esta a centelha suficiente para atear o fogo de centenas de milhares de pessoas, sobretudo jovens estudantes de liceu e do ensino superior, que durante semanas paralisaram grande parte do centro urbano de Hong Kong. Em termos concretos nada foi alcançado pela chamada “revolução dos guarda-chuvas”. Na verdade, a proposta de reforma eleitoral acabou por ser chumbada pela oposição pró-democrática na Assembleia Legislativa, voltando tudo à estaca zero – e com a liderança chinesa com um reduzido apetite para novas propostas.

As manifestações puseram a descoberto as profundas divisões na sociedade de Hong Kong. A cultura política liberal que caracterizou o território – apesar de nunca ter sido verdadeiramente democrático durante a época colonial – deu margem para que a paisagem política não fosse monolítica. Em contraponto do establishment pró-Pequim existe o chamado sector “pró-democrático”, que tenta pressionar as autoridades locais – e também chinesas – a cumprirem as garantias do “um país, dois sistemas”. O que nunca é colocado em causa por nenhuma destas duas áreas políticas é a soberania chinesa sobre Hong Kong.

Jovens separatistas

Isso parece estar a mudar com a emergência de um sector denominado “localismo”, que defende a independência de Hong Kong. As suas raízes estão nos movimentos que promoveram as manifestações de 2014 e muitas das suas críticas são direccionadas contra o campo pró-democrático, que consideram ineficaz na oposição que faz ao establishment. Ironicamente são as gerações mais novas – que já nasceram após 1997 ou não têm memória da vida durante o domínio britânico – que compõem este sector.

Apenas 3% da população local entre os 18 e os 29 anos diz considerar-se etnicamente chinesa, segundo um estudo da Universidade de Hong Kong, quando no final dos anos 1990, esta proporção era superior a 30%. Um outro inquérito mostra que 40% dos jovens entre os 15 e os 24 anos defende a independência de Hong Kong a partir de 2047 – o apoio da população à independência é de 17%, segundo o estudo da Universidade Chinesa de Hong Kong.

“Esta é a geração que cresceu com a promessa quebrada do auto-governo e da democracia, supostamente garantidas pela Lei Básica”, escreve Kent Ewing no Asia Times. As últimas eleições para o Conselho Legislativo, em 2016, colocaram, pela primeira vez, deputados independentistas no parlamento. Mas dos seis deputados “localistas”, dois foram impedidos de tomar posse na sequência de uma decisão sem precedentes tomada pela Assembleia do Povo, em Pequim – o único órgão com poder para interpretar a Lei Básica. Os dois deputados do movimento Youngspiration insultaram a China durante a cerimónia de tomada de posse e mostraram uma faixa com a frase “Hong Kong não é a China”. Ainda assim, a intervenção directa de Pequim num assunto interno do território foi vista como mais uma prova de que o Partido Comunista não pretende tolerar qualquer desafio à sua soberania, nem que para isso faça vista grossa às garantias de autonomia.

O descontentamento não se resume apenas à política. Apesar de tradicionalmente ser uma sociedade económica desigual, em Hong Kong as diferenças entre ricos e pobres nunca foram tão grandes como hoje. No ano passado, o coeficiente de Gini atingiu 0.54, o valor mais elevado nas últimas quatro décadas, diz a Reuters (a média da OCDE é de 0.32, por exemplo).

É no mercado imobiliário que as distorções são mais assinaláveis. O investimento acelerado de milionários chineses nas últimas duas décadas fez disparar os preços das casas – por norma já elevados – para valores estratosféricos. Um apartamento com uma área inferior a 20 metros quadrados pode chegar a meio milhão de dólares (438 mil euros). “Os super-ricos de Hong Kong tiveram muito sucesso sob o controlo chinês, enquanto Pequim continua a presenteá-los com favores, mas o mesmo não pode ser dito do habitante médio”, escreve o professor do Claremont McKenna College, Minxin Pei, num artigo no Nikkei Asian Review.