Crítica Cinema

A poesia está na rua

Paterson, reflexão sobre a criação poética e/ou artística (e sobre a angústia e a felicidade do criador), é uma espécie de "súmula" ou autobiografia artística.

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É difícil dizer se Paterson é um filme sobre um poeta (ou candidato a poeta) ou sobre uma cidade. Partilham o nome: Paterson tanto é o nome do protagonista como da cidade do estado de New Jersey onde Jarmusch filmou, e cujas ruas meio decrépitas meio renovadas o filme mostra extensivamente, aproveitando a boleia do autocarro guiado pela personagem, que ganha a vida como motorista (e, sendo interpretado por Adam Driver, é portanto duplamente "driver", como tudo é duplamente Paterson, num filme onde abundam as rimas e os reflexos, mais profundos ou mais em forma de gag, como a quantidade de pares de gémeos que Jarmusch traz para o filme como secundários ou figurantes). Mas uma coisa não se pode desligar da outra, porque o Paterson-homem é uma personagem-esponja, que se embebe das esquinas, ruas e jardins da Paterson-cidade como fonte para a sua inspiração, e tanto essa comunhão como a insistência no potencial inspirador das paisagens e objectos de todos os dias são ideias bem características de Jarmusch.

Ele que é cada vez mais, também neste sentido poético, um cineasta "recolector", dimensão do seu cinema a que ele dá largas em Paterson: podíamos notar ainda que Paterson é também o título de um poema de William Carlos Williams, e que William Carlos Williams é o poeta preferido do Paterson do filme. Tudo se liga a tudo, portanto, como se o misticismo panteista de Homem Morto (que tinha William Blake como figura tutelar) fosse transporto para um ambiente urbano, e Paterson se construisse em circulos repetitivos (como os percursos do autocarro) mas cheios de janelas ou compartimentos secretos, a remeterem uns para os outros mas também para outros filmes de Jarmusch ou para a sua própria biografia (por exemplo aquela caixinha de fósforos "Ohio Blue Match" que motiva um poema de Paterson: o Ohio é um pouco longe de New Jersey mas é o estado-natal de Jarmusch).

"Ainda gosto mais quando não rima", diz Paterson a uma miúda, também candidata a poeta, que a dado passo encontra (os encontros, por exemplo com um rapper a ensaiar, as conversas de terceiros no autocarro ou no bar, atentamente escutadas pelo protagonista, são fundamentais na estrutura do filme), e que se lamentava por o poema que escreveu não rimar. A frase é uma observação sobre o gosto poético de Paterson (que também "não rima" os seus poemas, na verdade pré-existentes ao filme, da autoria do poeta americano Ron Padgett, gentilmente "usurpados" por Jarmusch) mas soa ainda mais como um comentário irónico à multiplicidade de rimas que o realizador espalhou pelo filme - o poema da miuda chama-se "The Water Fall" ("A Queda de Água") depois dessa cena, quando chega a casa, a mulher de Paterson (a iraniana Golshifteh Farahani) acabou de pendurar um quadrinho na parede que mostra uma queda de água. A reacção de Paterson a mais essa coincidência é uma espécie de riso assustado (o mesmo com que mais tarde reage às três personagens que lhe falam do medo de uma "bola de fogo" quando o autocarro avaria), como se a ironia maior do filme, esta construção em rimas e repetições, fosse para ele uma espécie de cerco criativamente inibidor: há mais "poesia" na realidade circundante ou no caderninho onde escreve os seus poemas? E se sim, como dar a volta a isso, que poemas escrever? O filme não fechará sem uma resposta, quase "xamânica" na sua abstracção, dada pela boca de um velho jarmuschiano (o japonês Masatoshi Nagase, actor de Mystery Train); mas independentemente do que se entenda pela resposta, Paterson completa-se aí enquanto reflexão sobre a criação poética e/ou artística (e sobre a angústia e a felicidade do criador), numa atitude em que o Jarmusch-cineasta se poderia projectar mais ou menos explicitamente (e Paterson ser assim uma espécie de "súmula" ou autobiografia artística).

Em todo o caso, a torrente criativa não se esgota na rua. A mulher de Paterson (a figura mais ambígua do filme, espécie de força da natureza ao pé da disposição mais "cerebral" do marido) é um pequeno dínamo, a produzir sem esforço aparente "cupcakes", canções à guitarra, roupas e cortinas para a casa de banho (sempre a preto e branco, em mais um gag que vem aludir a um minimalismo exuberante, que podia ser o dos filmes de Jarmusch nos anos 80). É porventura a derradeira rima do filme, "a casa e o mundo" (termos bem assinalados nas derivas diárias do protagonistas) a encontrarem-se sem distinção, uma coisa como prolongamento harmonioso da outra, e a Jarmusch interessasse sobretudo fazer o elogio desta arte "pequena", quase doméstica, certamente irrelevante ou mesmo naif (discussão em aberto: a relativa ingenuidade do par é "falha" ou "intenção" do cineasta?), produzida por um casal de "térmitas" no sentido que Manny Farber deu à expressão. Atitude de "térmita" foi sempre a de Jarmusch. Mesmo aqui, num filme produzido por esse "elefante" que é a... Amazon.

A ironia de Paterson é infindável, no que se vê no ecrã e no que está para além dele.