Editorial

O que nunca poderás dizer

Aquilo que Passos Coelho fez nesta segunda-feira foi uma irresponsabilidade.

Uma das regras que se costumam explicar devagarinho aos mais jovens, quando chegam a uma redacção e querem fazer jornalismo, é a do cuidado que devem ter quando aparecem notícias sobre suicídios. Não é uma regra do PÚBLICO, nem só da comunicação social em Portugal. É assim em todo o mundo civilizado.

Não é por acaso, portanto, que são raras as notícias que se vêem sobre suicídios — e muito menos sobre tentativas de suicídio. É porque há razões fundadas na história para suspeitarmos de que uma cobertura pouco cuidadosa de um caso de suicídio pode ser um factor de risco, contribuindo para a estigmatização de quem tenta (ou pensa) fazê-lo, ou abrindo caminho a que outros se sigam. Sim, claro que o tema é muito sério. De tal forma que a Organização Mundial da Saúde decidiu fazer um pequeno guia para nós, jornalistas, sabermos lidar com o fenómeno. Esse guia pode resumir-se assim:

“Aproveite a oportunidade para educar o público sobre o suicídio. Evite uma linguagem que sensacionalize ou normalize o suicídio ou que o apresente como uma solução para os problemas. Evite descrições pormenorizadas de um suicídio ou tentativa de suicídio. Escreva os títulos com cuidado. Tenha cautela na utilização de fotografias ou de vídeo. Tenha particular cuidado ao reportar o suicídio de celebridades. Mostre a devida consideração por pessoas que tenham considerado o acto. Dê informação sobre onde as pessoas devem procurar ajuda.”

É como dizia um jornalista brasileiro: falar de morte já é muito difícil, imagine falar da morte como alternativa à vida.

É aqui que chegamos a Passos Coelho: se um jornalista tem o dever de ter estes cuidados, de ter esta responsabilidade, o que dizer sobre a que tem um político? Como pode um líder partidário, tão experiente que já foi primeiro-ministro, referir-se a um ou mais casos de suicídios para tirar a conclusão de que “o Estado não está ainda a cumprir o seu dever”? Como pode tornar pública uma informação deste tipo, partindo de uma informação para a qual não procurou confirmação?

Vou resistir a usar qualquer imagem, qualquer frase que possa parecer uma ironia. Porque aquilo que Passos Coelho ontem fez foi uma irresponsabilidade. E que pode causar mais danos à sua imagem pública do que a aplicação de uma qualquer medida da troika.

Mas o erro deve servir de lição a todos no espaço público: todo o cuidado é pouco quando se fala desta tragédia. Porque morreram 64 pessoas. Porque cada português sentiu a perda delas. Neste caso, é proibido falar demais. Como é proibido tapar o sol com a peneira.