Yamandu Costa, a bênção do violão que dança e ri

A solo ou numa parceria inédita com Ricardo Ribeiro, o violonista Yamandu Costa proporcionou-nos um serão inesquecível no lisboeta Teatro da Trindade, na noite de 24 de Junho.

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Yamandu Costa no palco do Teatro da Trindade ADRIANO SILVA/INATEL
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Yamandu Costa no palco do Teatro da Trindade ADRIANO SILVA/INATEL
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Yamandu Costa com Ricardo Ribeiro no palco do Trindade ADRIANO SILVA/INATEL
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Yamandu Costa no palco do Teatro da Trindade ADRIANO SILVA/INATEL

Cada nova visita de Yamandu Costa é uma confirmação e um prazer: a confirmação do seu virtuosismo no violão de sete cordas e o prazer, sempre renovado, dos que o ouvem. O concerto que deu na noite de 24 de Junho em Lisboa, no Teatro da Trindade, no âmbito de um festival que ali decorre até Dezembro (Há Música no Trindade), não defraudou expectativas, pelo contrário. A versatilidade, a criatividade, o bom humor, a facilidade com que ele extrai do violão, muitas vezes em simultâneo, ritmos, harmonias, melodias, são de tirar o fôlego. E, como já se disse a propósito de concertos anteriores seus, não há aqui exibicionismo gratuito, fogo-de-artifício circense ou academismo virtuosístico; o que Yamandu exibe é uma natural comunhão do corpo com as cordas, como se estas fossem uma extensão daquele. Como se escreveu aqui, a propósito do concerto de 2011 no Villaret, “o violão de sete cordas de Yamandu fala por ele, canta por ele, respira com ele, funde-se com ele. Parece simples, de tão extraordinário.”

E é extraordinário, de tão aparentemente simples. Também é uma bênção: um violão que fala, chora, dança e ri, num maravilhoso turbilhão de sons. No cenário, repetiu-se o de há seis anos: ao lado da cadeira, uma mesa com um candeeiro e um recipiente com chá de menta, que ele ia bebendo a espaços, deitando-lhe água quente de um termo. O resto foi o que a inspiração lhe ia ditando. Primeiro Sarará ( tema onde ele também cantou, coisa que raramente faz; o segundo seria Sopro), depois Mexidão, em seguida Paraguaita, guarânia que ele apresentou como uma “humilde homenagem” à música do Paraguai, escrita num dia em que ele voltava da respectiva capital, Assunção. Depois outra homenagem, esta ao violonista brasileiro Marcello Gonçalves (com Mangoré), seguida de Porro, o “ritmo quente do Caribe” representado num tema que faz parte da Suite Colombiana nº 2, de Gentil Montaña (1942-2011), um compositor colombiano por cujo trabalho Yamandu um dia se apaixonou. Não ficaram por aqui, as homenagens. A próxima foi Luciana, dedicada ao cantor e compositor argentino Lúcio Yanel (“a minha mulher não entendeu muito”, gracejou ele sublinhando o nome feminino do título), e ainda viria Sambeco, homenagem que costuma prestar ao genial Baden Powell.

Mas antes ainda ouviríamos Bem-vindo, que ele escreveu há anos para acalmar o seu filho (então com dois meses) numa noite em que ele estava com cólicas. Não resultou, mas ficou a canção, e nós agradecemos. Bem-vindo, foi, aliás, o título deste concerto. E ouviríamos também a sua parceria musical (inédita, estreia absoluta no Trindade) com Ricardo Ribeiro, que Yamandu apresentou como “um grande cantor desta terra tão linda”. Resultou em cheio. Primeiro com As rosas não falam, de Cartola, que Ricardo abordou numa primeira fase em sotto voce, com especial acento nos graves, e depois elevou soltando a voz no estilo (e bom gosto) que é cada vez mais o seu. El día que me quieras, de Carlos Gardel, o segundo tema a dois, comprovou, se preciso fosse, que o tango e a milonga são, a par do fado, territórios onde Ricardo se move com grande à-vontade e sabedoria. Yamandu, por sua vez, gaúcho de alma e raiz, estava no seu reino.

A saída de Ricardo (muito aplaudido, nas duas canções) deixou Yamandu de novo a solo, agora sim para Sambeco, seguido de Sopro, com letra de Paulo César Pinheiro num embalo de valsa (“Relembrando a mocidade que ficou para trás/ a vida é uma saudade que não volta mais”) e, por fim, El negro del blanco (“feito num banheiro”, enquanto esperava um avião), que ele gravou pela primeira vez em Mafuá (2008).

No encore, Yamandu voltaria mais duas vezes ao palco. A primeira, com Ricardo Ribeiro, para interpretarem juntos a inesquecível Estrela da tarde, poema de Ary dos Santos musicado por Fernando Tordo, que estava na sala, a assistir. Ricardo Ribeiro dirigiu-se-lhe, agradecendo e elogiando a canção, e interpretou-a ao seu modo, mais uma vez deixando-nos suspensos nos tempos de cada frase. Uma bela recriação. No segundo regresso, a solo, Yamandu voltou a electrizar-nos com o brilho das suas cordas, numa alegoria musical breve mas entusiástica. Apesar de tudo nos parecer perfeito, por várias vezes ele admoestou o violão, dizendo, enquanto o afinava (e ele faz o prodígio de afinar cordas enquanto toca a grande velocidade, sem que se sinta tal intromissão), coisas como “este violão me está sacaneando” ou “na próxima reencarnação será um acordeão.” Simples brincadeira? Seja como for, tudo o que ele faz, por difícil que seja, parece uma brincadeira nas suas mãos. Tão simples que só pode mesmo ser genial.