Opinião

As catástrofes e a política imunitária

No nosso tempo, a sensibilidade às catástrofes foi exacerbada e fez desenvolver os mecanismos de prevenção, mas o remédio que protege é também um veneno que mata.

Há conceitos, palavras que criam à sua volta uma problemática ou um espaço de pensamento, que de repente ganham evidência e ficam muito mais próximos da nossa realidade. O desastre da semana passada e todo o discurso público que ele originou convocam a ideia de uma biopolítica das catástrofes (devemo-la, no seu mais sistemático desenvolvimento, a um filósofo francês chamado Fredéric Neyrat). Trata-se de uma declinação da biopolítica, isto é, da política moderna que toma a seu cargo o governo das populações na sua realidade demográfica e a vida das pessoas enquanto seres vivos. E no seu centro estão as preocupações com as catástrofes e o modo de as prevenir. Uma biopolítica das catástrofes só pode ter emergido numa época em que elas proliferam, sob a forma de catástrofes ecológicas e económicas, catástrofes do terrorismo e das guerras disseminadas. Contra elas, impuseram-se obsessivos cuidados de protecção e prevenção.

As guerras preventivas do nosso tempo inscrevem-se na lógica desta forma de gouvernance em que a prioridade é dada às determinações securitárias. Daquilo a que o sociólogo alemão Ulrich Beck chamou “sociedade do risco” podemos extrair estas duas conclusões: 1) a sociedade do risco é uma sociedade da catástrofe; 2) a nossa sensibilidade exacerbada ao risco e as nossas preocupações com a protecção são em boa parte construídas por esta biopolítica das catástrofes. E quanto mais nos sentimos confrontados com ameaças reais ou imaginárias, mais os sistemas de defesa e protecção se tornam determinantes. Neyrat mostra como o fantasma da biopolítica das catástrofes é a protecção total, a imunidade absoluta. E assim se chega a uma imuno-política de tendência paranóica.

A ideia de imunidade decorre logicamente do próprio conceito de biopolítica e deu mesmo origem à noção de “democracia imunitária”, isto é, a democracia como um sistema imunitário que nos promete que estamos protegidos e toda a nossa existência tem de estar sob segurança. Tudo isto parece tender para um mundo perfeito, para a construção de esferas de segurança (com o auxílio de leis e regras intermináveis que pretendem controlar tudo o que fazemos, comemos e usamos), mas já se percebeu que o fantasma da imunidade total destrói a própria comunidade, tal como as guerras preventivas destruíram países e amplificaram o mal que queriam erradicar. Quer-se lutar contra um mal, mas o remédio revela-se nocivo. Em nenhum domínio isto é tão verdade como na ecologia. Por isso, quando começamos a ouvir falar de uma prevenção dos incêndios através de uma panóplia de medidas que vão até ao redesenho da floresta, devemos desconfiar e temer. Neste domínio, sabemos que os mecanismos de defesa e certas protecções são muito perigosos. Como prevenir e proteger sem destruir tudo? Não há nada pior do que os automatismos preventivos.

A biopolítica das catástrofes é reactiva e funciona à medida do que acontece em tempos curtos. Não entende que no sistema ecológico os alarmes só disparam quando já é demasiado tarde. A grande catástrofe do fogo no centro do país suscitou imediatamente legítimas reclamações e todos os fantasmas de imunização, mas tais reacções ignoram as catástrofes lentas, o que acontece sem espectacularidade e de maneira mais serena. É o que está a acontecer mais a sul: o Alentejo está a transformar-se num deserto irremediável. Cresce de ano para ano a degradação das condições que garantiam a vida do eco-sistema: a água está a desaparecer, avançam as áreas de solo em erosão onde já nem as ervas crescem. Aqui, a catástrofe já começou, mas para uma biopolítica das catástrofes é invisível.