Lisboa vai ter um restaurante e um centro de dia para formar quem vive na rua

O requisito para trabalhar no Restaura-te é ter um passado com uma "história de rua ou de dependência". A entrada (ou regresso) ao mercado de trabalho começa aí.

Foto
O diagnóstico do NPISA mostra um aumento, face a 2015, de pessoas em situação de sem-abrigo, mas uma diminuição das que vivem na rua, em Lisboa Nuno Ferreira Santos

O emprego é fracturante na vida de uma pessoa em situação de sem-abrigo. A falta de trabalho é o principal problema de quase um quarto das pessoas que vivem na rua em Lisboa. Ao mesmo tempo, este pode ser uma peça essencial para a reinserção social de quem vive à margem. É com o intuito de abrir portas no mercado de trabalho que o Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem Abrigo (NPISA) da capital vai criar um restaurante para formar e empregar pessoas que "tiveram uma história de rua ou de dependência".

O restaurante Restaura-te abre portas na Rua de São José, paralela à Avenida da Liberdade, no próximo ano. Terá um cardápio como todos os outros, a diferença está nas histórias de vida de quem o serve.

Os trabalhadores vão ser ao mesmo tempo alunos. Vão receber formação na área da restauração – de serviço, auxílio na cozinha ou limpeza – e recuperar hábitos de trabalho, muitas vezes perdidos. “É um espaço de treino social, trabalho de equipa e de cumprimento de horários”, explicou o vereador João Afonso, do pelouro dos direitos sociais. O objectivo é que este percurso, que exigirá mais tempo a uns do que a outros, termine com o emprego noutros restaurantes e empresas com quem o NPISA vai estabelecer acordos.

Com foco na empregabilidade, o núcleo prevê a abertura em Setembro de um centro ocupacional para pessoas sem-abrigo. A Casa dos Presidentes será um espaço de formação profissional e ocupação do dia, com acompanhamento psicológico, que pretende dar continuidade aos programas de ocupação diurna já feitos por algumas associações na cidade. Para estas associações, a câmara vai apresentar, em Novembro, uma proposta para aumentar a resposta nesta área e ocupar o dia de mais 125 pessoas.

Em Lisboa, há 2051 pessoas em situação de sem-abrigo. Os números, divulgados esta segunda-feira na apresentação do plano de actividades do núcleo, traduzem-se num aumento relativamente a 2015, ano de fundação do NPISA Lisboa, em que foram identificadas 1982 pessoas sem tecto ou sem casa. Este diagnóstico não se traduz necessariamente num aumento de pessoas sem-abrigo, alertou o vereador, uma vez que os números de 2015 “tinham uma maior margem de erro” que os actuais – calculados consoante a média das sinalizações dos gestores de caso entre Janeiro de Maio de 2017. Cerca de 85% da população sem-abrigo da capital é masculina.

Menos pessoas a viver na rua

O NPISA Lisboa, coordenado de forma tripartida pela autarquia, Segurança Social e Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, tem actualmente 25 membros, mais nove do que no ano da sua fundação, mas menos gestores de caso (passaram de 36 em 2015 para 31 este ano). Mas os que existem “têm mais competências”. “Agora temos apenas pessoas formadas, ao passo que antes havia gestores de caso que o faziam em regime de voluntariado”, explicou João Afonso.

Um cenário que descreve, aquilo que o vereador considera, a “grande conquista” do NPISA no último ano: “Gerimos melhor as respostas que temos”. O mesmo diagnóstico que mostra um aumento de pessoas em situação de sem-abrigo (feito com a média das sinalizações dos gestores de caso entre Janeiro de Maio de 2017), exibe uma diminuição daquelas que vivem na rua: são 334 actualmente, eram 629 em 2015.

O núcleo tem ainda planeada a inauguração de um Quiosque da Saúde no Cais do Sodré e a criação, até ao final do ano, de mais 80 vagas no modelo de Housing First – em que o trabalho de reinserção social começa com a entrega de uma casa -, a juntar às 120 vagas existentes na cidade. Um novo Núcleo de Apoio Local (NAL), onde são servidas refeições à mesa, existe lavandaria e espaços para a higiene pessoal, vai abrir na zona de São Vicente e Santa Apolónia em Janeiro do próximo ano.

Sugerir correcção