Crónica

Crónica com cheiro a magnórios

Sempre que regresso à minha aldeia, em Guimarães, saio de lá com a infância toda atravessada na garganta. O corpo fustigado pela memória, nas férias que pareciam durar para sempre, das tardes intermináveis com cheiro a magnórios e a terra molhada.

Sempre que regresso à minha aldeia, em Guimarães, saio de lá com a infância toda atravessada na garganta. O corpo fustigado pela memória, nas férias que pareciam durar para sempre, das tardes intermináveis com cheiro a magnórios e a terra molhada.

Lembro-me dos pés refrescados em regatos vadios e da minha mãe

— Vinde comer!...

gritando para onde quer que estivéssemos, eu e os meus irmãos, naquele momento; o melhor era que ela nem adivinhasse, porque, entre coboiadas com armas feitas de cimento e jogos do espeto, eram poucas as vezes em que, dos seus 11 filhos, algum não tivesse acabado de partir qualquer coisa ou, como chegámos a fazer, de mergulhar os pintainhos num cesto cheio de água com lixívia, num genocídio que ameaçou chegar aos coelhos.

Numa das vezes, rasgámos os lençóis que estavam no estendal para improvisar protecções nos joelhos antes de nos aventurarmos de gatas pelo campo ao lado da nossa casa, as espigas já amarelas de maduras, e nós, num jogo cá-te-apanho-se-não-foges, abrindo tortuosos labirintos, até que na manhã seguinte, o lavrador a coçar a cabeça para minha mãe:

— Os cães de noite dão-me cabo do milho todo.

E nós a explodir de riso, apesar de a minha mãe, que sem ter descoberto ainda os lençóis rasgados mas já desconfiada, nos fuzilar a todos com o olhar numa fúria de fora-da-lei.

Sempre que podia, escapulia-me e punha-me a ler todos os livros que me vinham à mão. À falta de exemplares de Alice Vieira, instruía-me com a revista Cruzada e, quando me cansava de não perceber como é que os meninos de África tinham barrigas tão grandes se passavam fome, deitava as unhas a uma daquelas fotonovelas languescentes de beijos evidentemente gráficos ou a um dos romances “morro se não me amas” da colecção Bianca, roubadas dos quartos das minhas irmãs mais velhas. A alternativa era subir a uma cadeira para chegar à estante dos calhamaços dourados que eternizavam lendas sobre mouras encantadas que a minha mãe, entre jogos de banho e iogurteiras, costumava comprar às prestações aos vendedores ambulantes que ali estacionavam, derreada sob o peso do argumento:

— Não há sala em que não fique bem uma boa colecção de livros.

Quando me aventurava no museu que era a sala lá de casa, a minha mãe

— Lá está esta com um livro entre as unhas

até que um dia lá se deixou contrariar até ao Largo da Oliveira para me assinar a inscrição na biblioteca da Gulbenkian, que, tal como a minha infância, desapareceu para dar lugar a um museu naïve.

Já tinhas desistido de me contrariar, mãe, quando teimei na escola, num Vale do Ave de aldeia que confinava os rapazes às obras e as raparigas às confecções, apesar de, se acontecia responder-te torto, me fulminares:

— Tanto estudo, tanto estudo para nada.

Anos depois, se calhar pela autoridade que me conferia tanta leitura, eis-te com um daqueles exemplares sépia da revista Crónica Feminina, dedo apontado ao anúncio a um creme que prometia erradicar as rugas, devidamente autenticado pelas fotografias do antes e do depois, a perguntar-me, envergonhada da tua fraqueza desvendada:

 — Achas que isto resulta?

Devo ter-te respondido que não. Apesar disso, já migrada para o Porto, se acontecia regressar e acompanhar-te nas tuas rondas pelo mercado, ouvia-te num raid a apontar ao desinteresse das vendedoras:

— A minha Natália trabalha no Jornal de Notícias.

Apesar das inúmeras vezes em que, mais vermelha do que os tomates que compravas, te resmungava entredentes que nunca trabalhei no Jornal de Notícias mas no PÚBLICO, tu prosseguias, intocada pela impertinência de te corrigir assim diante de toda a gente, na ladainha “A minha Natália trabalha no Jornal de Notícias” porque acontecia ser o jornal que existia na pastelaria da aldeia e cuja importância todos podiam, por conseguinte, aferir.

Isto foi muito antes, mãe, de a luta contra as rugas que não chegaste a começar ter sido eclipsada pela luta contra a doença. Lembro-me de ti, numa cama de hospital, a olhares-me no teu devaneio de morfina e a largares um

— Estás tão gorda, Natália!

alheada já da neta que te acabara de nascer.

Poucos dias depois arrastei-me, contigo já numa cadeira de rodas, no teu derradeiro passeio através das tuas hortênsias, gerberas e sardinheiras. Quando, fingindo naturalidade, te pedi um pé de framboeseiro, o meu pai oferecendo-se para o arrancar mas simulando-te uma autoridade que há muito tinhas perdido

— Posso, Carolina?

Ao que tu respondeste

— Claro, e logo para quem é...

E isso foi o mais perto que estivemos de dizer que gostávamos uma da outra, num pudor que já poucos compreenderão, nesta voragem de likes e de partilhas de sentimentos fáceis em que me liquefaço eu também.

De modo que, mãe, nada tenho a objectar se, nas rondas pelos mercados daí por onde andas, quiseres falar desta crónica que te dedico no Jornal de Notícias.

Crónica é uma rubrica do P2, caderno de domingo do PÚBLICO