O meu serviço de mesa nunca será igual ao da minha tetravó

O espanhol Jaime Hayon é o nome mais recente na lista de artistas e designers a colaborar com a Vista Alegre. A linha que acaba de apresentar traz muitas das suas personagens surreais, mas inspira-se nas tradições portuguesas.

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Jaime Hayon é um dos mais internacionais artistas e designers espanhóis Cortesia: Hayon Studio
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O serviço de mesa é feito de pratos diferentes, na forma e na decoração Cortesia: Vista Alegre
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Hayon desenhou para a Vista Alegre um serviço de mesa, um de chá e outro de café Cortesia: Vista Alegre
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Para complementar, Hayon criou sete peças decorativas, algumas com função - este elefante é um jarra Cortesia: Vista Alegre
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É muito fácil imaginá-lo ao volante, de óculos escuros e relógio suíço no pulso, com mapas, cadernos, livros e folhas soltas a amontoarem-se nos bancos do carro, com o telemóvel e uma pequena câmara fotográfica sempre à mão, enquanto se perdia pelo país. Pelas estradas do interior alentejano ou do litoral algarvio até Huelva, já em Espanha, parando em olarias e aldeias piscatórias onde se demorava à conversa, Jaime Hayon, um dos mais internacionais designers espanhóis, foi construindo uma ideia de Portugal e das suas tradições populares, uma ideia entretanto transformada na linha de porcelana que acaba de chegar às lojas da Vista Alegre e que desafia convenções. Hayon continua a querer que nos sentemos à mesa para conversar, à volta de boa comida e de bom vinho, mas sabe que “essa história de ter um serviço de jantar todo igual é coisa do tempo das nossas tetravós”.

Quando finalmente aceitou o convite da marca portuguesa para se juntar à lista de artistas e designers que com ela trabalham – portugueses como Pedro Calapez e Joana Vasconcelos, estrangeiros como Christian Lacroix (França), Carsten Gollnick (Alemanha), Bartek Mejor (Polónia) e António Olé (Angola) –, quis, em primeiro lugar, visitar a fábrica de Ílhavo, que continua a ser o epicentro desta empresa nascida há quase 200 anos e que em 2009, quando já contava oito anos de união à Atlantis (marca de cristais e vidros) e estava numa frágil situação financeira, foi comprada pelo Grupo Visabeira (tal como a fábrica de faiança Bordallo Pinheiro, nas Caldas da Rainha).

Saiu de Lisboa de carro com um dos administradores do grupo, Nuno Barra, e pelo caminho parou na Bordallo Pinheiro e deixou-se encantar pela sua faiança, com que gostaria de vir a trabalhar no período de cinco anos que deverá durar a sua colaboração com a empresa portuguesa. “O que eu não poderei fazer com estas rãs e lagostas loucas!”, brinca Hayon, apontando para algumas das peças que a Vista Alegre tem expostas na loja de Madrid. “Estão cheias de histórias, de fábulas, como muitas das coisas que eu faço.”

Chegado a Ílhavo, o artista e designer que nasceu em 1974 e trabalha em porcelana há 15 anos sentou-se com os operários a desenhar e desafiou-os. “O Jaime aproximou-se logo das pessoas porque se interessa genuinamente pelo processo de fabrico, pelas técnicas, e porque gosta de mexer nos materiais. As equipas de ornamentação e pintura adoraram estar com ele”, diz Nuno Barra, para quem a colaboração com Hayon é uma óptima notícia para a marca: “Ele estava no topo da nossa lista de designers a convidar logo que chegámos, porque tinha a capacidade de compreender a história da empresa, a sua tradição, e de a reinventar.”

A qualidade do fabrico da Vista Alegre cativou Hayon, que tem um respeito profundo pelo trabalho manual, mesmo que no atelier recorra todos os dias à tecnologia. “Toda a gente me pergunta o que penso das impressoras 3D e do que elas são capazes de fazer – aquelas em que carregas num botão e dois minutos depois sai uma peça. Eu digo, ‘pois, parecem-me bem’, mas é preciso ter consciência de que nesse processo se perde irremediavelmente a parte humana. Ora, a criatividade é muito mais sofisticada quando não há um botão, quando há uma troca entre pessoas. Nas peças que saem das mãos de um artesão há memória do que ele viveu – vê-se se está aborrecido, se comeu muito ao almoço e isso o deixou sonolento, vê-se se está feliz porque o filho acabou de se licenciar. O computador não questiona a forma de uma peça. Peço desculpa, mas uma máquina não é criativa.”

Bordados e chaminés

Quando partiu para esta colaboração com a Vista Alegre, Hayon já conhecia Portugal, mas sabia muito pouco sobre a sua cultura. Hoje já não é assim. A pesquisa etnográfica que fez, as viagens solitárias pelo território – “eu fui o primeiro cliente de São Lourenço do Barrocal”, gosta de dizer, referindo-se à unidade de exploração agrícola na colina de Monsaraz que o arquitecto Eduardo Souto de Moura converteu num hotel de luxo – e as muitas horas que passou a desenhar a partir do que vira nos bordados de Viana e de Castelo Branco, nas “chaminés orgânicas” do Algarve ou nos barros de Estremoz e do Redondo, levam-no a dizer que já é “meio português”.

“Claro que aquilo que sei sobre Portugal é ainda muito pouco, mas às vezes a ignorância dá em criatividade”, diz este artista que quis fazer da linha Folkifunki, assim se chama, um espaço em que animais, plantas e outros motivos saídos da tradição portuguesa se misturam com elementos de fantasia da sua gramática pessoal, marcada pelo lúdico e pelo surreal.

Por mais que procuremos nas peças “citações” do artesanato português – é possível encontrar nalgumas memórias dos galos do Redondo, dos ponteados dos bordados de Viana e dos barros de Estremoz –, nada nesta colecção é literal. “Fui buscar o folclore e fantasiei sobre ele. Este elefante, que mais parece uma matriosca [aponta para uma jarra da linha decorativa], lembra-me o Alentejo. Talvez pela forma, que parece a das bilhas de duas asas, mas o vermelho vem do Norte do país e o azul cobalto de toda a parte." Os portugueses dirão que é dos seus azulejos, explica, os franceses que é de Limoges…

“Quando começo a desenhar uma colecção, a primeira coisa que preciso de sentir é que sou muito livre, que nada me prende a uma maneira de fazer e de pensar”, disse aos jornalistas na apresentação da colecção. A beleza dos campos agrícolas, a diversidade da arquitectura e do artesanato, muitas vezes “quase infantil”, e uma cultura que não vira as costas ao passado inspiraram o designer a criar uma colecção (um serviço de mesa, um de chá e outro de café, complementados por sete peças decorativas) em que o acaso teve um papel importante. “Quis que este serviço de mesa tivesse todos os pratos diferentes, que um fosse mais escandinavo e outro mais francês, que um fosse de linhas direitas, à anos 60, e outro quase barroco. E isto para que as pessoas lá em casa os misturem com uma porcelana japonesa ou uma cerâmica sevilhana.”

Nas casas contemporâneas, explica, já não há serviços de mesa completos porque os clientes geralmente gostam de misturar. E é porque precisa de ser usado – “este é um serviço que nunca está fechado, que nunca será igual na minha casa e na tua” – que estaria sempre incompleto se exposto num museu ou numa galeria, como acontece a muito do trabalho de Hayon.

“Já tivemos um jantar para mais de cem pessoas em que usámos todo o serviço e resultou lindamente, porque é inesperado”, diz o designer. “Aqui há um pássaro, ali um peixe, no outro uma figura que não somos capazes de identificar e, de repente, as pessoas começam a imaginar um padrão e cada uma inventa a sua lógica bizarra.”

Quem são vocês?

Para trabalhar com uma empresa como a Vista Alegre, com quase 200 anos de história e de experiência acumulada, é preciso estar preparado, diz este espanhol que ainda gosta de desenhar em papel e não tem qualquer problema em saltar de disciplina em disciplina, criando peças de grande sofisticação, umas altamente lúdicas e exuberantes, outras muitíssimo mais discretas e contidas.

Convencer a marca portuguesa a fazer um serviço de mesa que junta pratos muito diferentes, vindos de conjuntos das primeiras décadas do século XX ou dos anos 60, exigiu um diálogo permanente entre o artista e a equipa da Vista Alegre. “No nosso catálogo já temos serviços de mesa com decorações diferentes, feitos para criar combinações, mas nenhum tão diverso como este”, reconhece Nuno Barra.  

Hayon, que em 20 anos de carreira já aprendeu que cada empresa tem um processo diferente e um ADN que não se pode mudar, gosta desta negociação. “Eu não questiono o processo – mudei um pouco o conceito da colecção, mas fi-lo adaptando-me à maneira como a fábrica trabalha. E foi porque não insisti em trabalhar sozinho que hoje temos uma colecção. Não me limitei a falar, ouvi. Não chego lá e digo: a partir de agora fazemos porcelana branca e quadrada porque isso é o futuro. Não, chego lá e pergunto: Quem são vocês? O que é que querem? O que é que sabem fazer bem? Porque é que são bons?”

Ao longo dos anos, o artista tem notado que a indústria está aberta à variedade, desde que ela se baseie num estilo sincero, genuíno. Já não há designers minimalistas de um lado e classicistas do outro. O que há é designers chamados a reagir ao que têm pela frente: “Eu não posso ser minimalista com a Bordallo Pinheiro porque bateria de frente com a marca, não teria trabalho. Mas se tiver de fazer um relógio suíço como este que tenho no pulso, não posso fazê-lo à la Bordallo Pinheiro porque ninguém o comprará.”

Quando o designer trabalha à revelia do cliente, o projecto fica pelo caminho. “Uma colaboração é uma negociação entre duas partes”, algo que muitos artistas e designers não estão disponíveis a fazer. Negociar não implica, no entanto, abdicar dos princípios da qualidade e da coerência. Folkifunki é exemplo dessa fidelidade a um conceito criativo e a um saber fazer que é industrial, mas que tem ainda muito da mão humana.

“Os volumes das peças são coerentes com o grafismo”, diz Hayon, identificando o paradoxo em que se baseia a linha que criou: descontrolada no que à decoração diz respeito, mas absolutamente rigorosa no que toca à perfeição das formas. Peguemos na jarra do elefante desta colecção, por exemplo: "Certamente haverá quem vá comprá-la e nunca lhe ponha uma flor e isso funciona porque ela é como uma escultura. Mas haverá também quem a use como jarra. E isso está bem na mesma. Interessa-me essa hibridez.”

Essa hibridez contribui para o rejuvenescimento que a Vista Alegre procurou com o convite a Jaime Hayon, acrescenta o administrador. A presença do designer em marcas de grande prestígio internacional e a importância que tem em Espanha foram outros dos factores em conta.

“O mercado espanhol é prioritário para nós”, diz Francisco Braga, que dirige a empresa em Espanha, onde a Vista Alegre tem duas lojas em nome próprio (Madrid e Barcelona, além dos balcões nos Corte Inglés) e uma equipa de 57 funcionários. “Já cá está há 30 anos, mas nos últimos tempos cresceu muito, tornou-se mais agressiva.” Espanha é o seu principal mercado internacional, seguido de França, explica, e representa já 12% dos resultados da empresa. Muito presente nos restaurantes e hotéis, a Vista Alegre é a fornecedora, por exemplo, da loiça das embaixadas que Espanha tem espalhadas pelo mundo.

Dificilmente nos jantares formais da diplomacia haverá espaço para a exuberância de Folkifunki, mas pegando em pratos e travessa desta linha é fácil imaginarmos – com Jaime Hayon há sempre que imaginar – um almoço de Verão ao ar livre, com crianças sentadas à mesa à procura dos animais, das personagens e das máscaras que este espanhol desenhou e que a salada esconde, enquanto alguém vai contando uma história que começa assim: “Era uma vez um macaco azul…”

O PÚBLICO viajou a convite da Vista Alegre

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