Na fábrica e no laboratório da Vista Alegre, em busca dos best-sellers de porcelana

A empresa continua a chamar designers consagrados, como Marcel Wanders ou Jaime Hayon, e jovens profissionais para residências em Ílhavo. Quer colocar a marca portuguesa em recuperação “no centro de onde nascem as tendências”.

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Karina Mir, a designer mexicana a trabalhar num porquinho com referências às caveiras mexicanas Adriano Miranda
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Das fábricas da Vista Alegre Atlantis (VAA) saem 30 milhões de peças por ano. Adriano Miranda
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Oficina de pintura manual Adriano Miranda
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Na fábrica Adriano Miranda
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Anabela Ramalhete trabalha na fábrica da Vista Alegre há mais de 30 anos Adriano Miranda
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Adriano Miranda
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Adriano Miranda

É preciso “tirar as costuras, os excessos, as barbas, para tornar o objecto perfeito”, explica Filipa Catorze, coordenadora do Museu da Vista Alegre, enquanto as terrinas ainda cruas deslizam na linha da fábrica da marca portuguesa. Mas mesmo barbeada, uma delas tinha o destino traçado — é atirada para um tanque onde se estatela sem cerimónias. Não era perfeita. Ouve-se Circo de Feras dos Xutos & Pontapés, passa-se à salinha das esculturas, moldam-se catatuas e a deusa Flora. A sirene para a saída está quase a tocar na fábrica, ouvindo-se em todo o Bairro Vista Alegre, em Ílhavo, e noutro edifício proximo há designers ainda a trabalhar. Algumas são recém-chegadas e trabalham em projectos de porquinhos ou pratos para chefs. Podem estar entre os próximos best-sellers?

Na fábrica quase bicentenária trabalham os oleiros Manuel Jorge e Anabela Ramalhete — ele está na Vista Alegre desde o 25 de Abril, ela desde 1985. Foi ali o seu primeiro emprego e hoje esculpe à mão 200 pequenas pétalas para as coroas de Flora; amanhã pode calhar-lhe a tarefa de Manuel Jorge, que está de roda do casal de catatuas que se monta a partir de 12 moldes.

Das mãos de cada oleiro sai uma peça e meia por dia, a cada oito horas de trabalho. Das fábricas da Vista Alegre Atlantis (VAA) saem 30 milhões de peças por ano. Algumas são concebidas noutro edifício amarelo e branco do complexo Vista Alegre, em Ílhavo, onde está parte da equipa fixa de onze designers da empresa (Vista Alegre, Atlantis e Bordallo Pinheiro), que cria linhas como a nova Fiji. Outras são surpresas trazidas pelos designers convidados para as residências do projecto IDPool. Neste laboratório criativo nas margens do rio Boco nasceu em 2012 o serviço de mesa Transatlântica, do brasileiro Brunno Jahara, lançado em Janeiro de 2013 e actualmente o mais vendido da Vista Alegre.

Uma sala cheia de protótipos, como o saleiro e o pimenteiro de porcelana que se beijam, ou de estudos nas paredes, é onde Alda Tomás, coordenadora do IDPool e do design da Vista Alegre , recebe os candidatos que durante três meses desenvolvem projectos em porcelana, cristal ou cerâmica — a empresa oferece estadia, numa casa antiga redecorada no Bairro Vista Alegre, e alimentação. “Se alguma peça for comercializada, recebem os royalties; se nenhuma for comercializada, as peças são deles”, como resume Nuno Barra, responsável pelo marketing e Design Externo da Vista Alegre.

Mieke Cuppen, holandesa de 31 anos, Karina Mir, mexicana de 26, e Flavia Del Pra, brasileira de 43, têm projectos e percursos distintos. Mieke é especializada em design de produtos de mesa e conheceu a Vista Alegre numa das suas lojas numa ida ao Porto; Karina sentia que tinha de “voltar ao design” depois de se ter focado na pintura e ilustração; Flavia é ceramista em São Paulo, conhece Jahara e queria viver esta experiência. Na sala da sua nova casa – chegaram há três, duas e uma semana, respectivamente —, grande candeeiro ao centro, destacam o que distingue o IDPool: “Aqui é possível fazer as nossas coisas, entrar em produção com escala”, caso o projecto seja aprovado e se enquadre na identidade da Vista Alegre, resume Karina Mir, que está a trabalhar num porquinho tipo mealheiro com referências às caveiras mexicanas.

“É muito aberto, podemos explorar todas as áreas”, diz Flavia, que, ao contrário das colegas, não chegou e começou a projectar — mergulhou, sim, na fábrica e nos materiais, na mistura de produção industrial e manufactura. Mieke vê na marca um misto de “história rica” e “contemporaneidade”, e sente-se um pouco numa “escola”. Está a pensar em pratos, fascinada que é pelo universo da cozinha e pelas constelações de chefs-estrela. “A forma dos pratos acrescenta valor à comida, pode ser o palco merecido para a comida que os chefs criam”, conta sobre o Blob, um prato com uma elevação ao centro em que está a trabalhar.

As três juntam-se ao lote de cerca de 60 profissionais recebidos desde 2011 e às cerca de 15 peças já lançadas para o mercado com o IDPool. Novos inputs criativos, objectivo um. “Desafiar a própria fábrica”, objectivo dois, elenca Nuno Barra. “Quando se chega a uma fábrica que tinha o passado que tinha, e uma certa visão do mundo que era muito fechada”, a mudança tinha de vir de dentro e de fora, explica o responsável junto à sala-laboratório. “Eles fazem o papel que nós próprios não conseguimos fazer [a tempo inteiro] — todos os dias desafiam, todos os dias procuram respostas” junto dos engenheiros, das possibilidades fabris.

Novatos e consagrados
Estes são os designers que podem trazer surpresas, que se candidatam a estar com a Vista Alegre pela Internet. Depois há os consagrados, que são cortejados pela marca portuguesa, como o mais recente nome, apresentado no importante salão parisiense Maison & Objet — Marcel Wanders.

Um ano e meio de negociações com o holandês a quem o New York Times chamou “Lady Gaga do design” pela sua a abordagem iconoclasta e defesa das explosões criativas acima da simplicidade. Tem peças nas colecções dos museus Victoria & Albert de Londres ou de Arte Moderna de Nova Iorque e trabalhou para a Alessi, Baccarat, Cappelini, Droog, Flos ou Kartell. A colecção Blue Ming, com pratos, chávenas de chá e bules, mas também uma jarra ou um candelabro, foi um sucesso nas encomendas em Paris, diz Nuno Barra, e é mais um passo num caminho já percorrido pela Christian Lacroix ou por Oscar de la Renta. Colaborações com nomes sonantes do design mundial, “uma forma de alavancar a internacionalização” da Vista Alegre, reconhece Nuno Barra em Ílhavo.

O grupo VAA faz 47% das suas vendas em porcelana, “a rainha das cerâmicas”, como diz Filipa Catorze. A jovem responsável pelo museu em plena reabilitação, já sob alçada camarária, encanta-se a falar do quartzo, do feldspato e do caulino que lhe dão a brancura e limpidez e pára para cumprimentar muita gente na fábrica fundada em 1824, quando era a primeira unidade industrial de produção de porcelana. A Vista Alegre pertence desde 2009 ao Grupo Visabeira — estava deficitária, com prejuízos de 18 milhões de euros, fez despedimentos, o Estado e a Caixa Geral de Depósitos tornaram-se seus accionistas minoritários e até ao terceiro trimestre do ano passado reduziu o défice (para -1,4 milhões de euros de resultados operacionais) e investiu num novo forno e lojas.

Até essa data, as exportações representavam 68% do volume de negócios e “inverteu-se o ciclo de quebras” no mercado português, como se lê nos resultados trimestrais da VAA, com crescimento líquido na ordem dos 15%. Se as parcerias com grandes nomes internacionais dinamizam as vendas — os serviços mais vendidos são Transatlântica, seguido de Ornament, de Sam Baron, e da linha Butterfly com a Lacroix — “para Portugal é importante ter colaborações com artistas” nacionais, diz Nuno Barra, como Mariza, José de Guimarães, Joana Vasconcelos ou Álvaro Siza, porque “as pessoas não tem muitas referências do design português” – ainda assim, Marco Sousa Santos está a trabalhar numa colecção de cristal para o grupo.

Estar com Wanders na Maison & Object ou contactar com designers, artistas ou arquitectos que vêm investigar para Ílhavo serve outro propósito: “Estar no centro de onde nascem as tendências. A versão mais comum é ir às feiras buscar tendências, o que é tarde de mais. E eles”, Wanders ou a mais recente contratação espanhola, Jaime Hayon, “fazem as tendências”, diz Nuno Barra. 

Pedro Almodóvar disse “não” à Vista Alegre, mas outro espanhol disse entretanto que sim — Jaime Hayon, designer e artista, conhecido pelo seu trabalho no mobiliário para a Fritz Hansen ou para a Magis, mas mais recentemente na espanhola Lladró e na Baccarat, dirigiu também a Fabrica da Benetton no início da carreira. Mais “uma forma de trabalhar o mercado espanhol”, que é o segundo principal mercado do grupo e que segue o modelo aplicado desde que há cerca de cinco anos começaram este caminho — há um fee pago ao designer, que ganha em função das vendas, explica o responsável. Hayon é dono “de uma abordagem muito descomprometida”, diz Barra, um designer que se rodeia de colaboradores do anime japonês ou de writers de graffiti e que irá trabalhar o cristal, os gifts e potencialmente estrear-se nos serviços de mesa em Janeiro 2017.