Demónios familiares

A adaptação televisiva de O Exorcista vai passar na Fox às segundas-feiras.

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Quando se soube que estava em produção uma versão televisiva de O Exorcista, o filme de 1973 que William Friedkin tornou num dos standards do cinema de terror, muitos olhos se reviraram, e não era por um ataque colectivo de possessão demoníaca. Mais um filme a ser reciclado para a televisão, esticado para dez ou mais episódios e, se tudo corresse bem, mais umas temporadas. Mais uma vítima de uma indústria que aposta em remakes, sequelas e spin-offs, porque é mais fácil vender um nome e um conceito com provas de sucesso. Já tentaram dar várias vezes nova vida a O Exorcista, com quatro sequelas do filme original, mas a ressurreição só aconteceu verdadeiramente agora, na televisão.

Durante dez semanas, vai ser o programa das segundas à noite (22h15) na Fox, a partir de 19 deste mês, chegando a Portugal com quase um ano de atraso em relação à sua estreia nos EUA. Mas isso não quer dizer que tenha sido um fracasso. Não foi um sucesso de audiências, mas fez o suficiente para merecer uma segunda temporada. Ou seja, O Exorcista vai continuar vivo, ao contrário do que aconteceu com outras recuperações televisivas de filmes de terror dos anos 1960 e 1970. A Semente do Diabo e O Génio do Mal não sobreviveram à primeira temporada.

Antes de ser um filme, O Exorcista foi um best seller que deu fama ao seu autor, William Peter Blatty, falecido em Janeiro passado. Friedkin, cineasta genial e temperamental, conseguiu elevá-lo do gueto do “filme de género” e transportá-lo para o mainstream, não só como um enorme êxito (é o nono de sempre nas bilheteiras norte-americanas), como também o reconhecimento da crítica (dez nomeações para os Óscares de 1974, venceu dois, um deles pelo argumento de Blatty). Teve continuações em livro e em filme, teve inúmeros clones e criou “clichés”. A possessão demoníaca tornou-se num sub-género – seja uma rapariga, uma casa, um carro, um livro ou um boneco.

Avancemos até 2016. O mundo estava realmente a pedir mais Exorcista? Provavelmente, não. Mas o terror, mais ou menos explícito, em networks ou no cabo, é uma presença constante na televisão, e apostar numa “propriedade” em vez de criar qualquer coisa era diminuir o risco. O conceito base não mexe uma linha em relação ao original. Uma casa, uma família, uma menina possuída por um demónio e dois padres, um deles, mais experiente em exorcismos, o outro, um padre da paróquia local em crise de fé. Muda de sítio, de Georgetown, em Washington, para Chicago. E não há ninguém a vomitar para cima de ninguém.

Vinte e três anos depois do filme, O Exorcista televisivo não é a coisa mais original do mundo, mas pelo menos bateu às portas certas. Mimetiza com competência o ambiente do primeiro filme, tem o subtexto da passagem da infância para a adolescência e descoberta da sexualidade, mas sem serem dez episódios com uma rapariga amarrada a uma cama, a caminhar pelo tecto e a torcer o pescoço, enquanto dois padres tentam expulsar um demónio com crucifixos, orações e água benta, e a família no quarto ao lado sem saber o que se passa.

Acima de tudo, é um thriller em ambiente religioso, com demónios (são vários), uma conspiração com toques de O Código Da Vinci e um regresso à acção de um rosto muito presente nos anos 1980 e 1990, Geena Davis, entre um elenco de gente mais habituada à televisão. Entre tantos remakes que precisavam de ser exorcizados das nossas vidas – MacGyver, Ficheiros Secretos – este é um demónio familiar e bem-vindo. 

Media é uma rubrica do P2, caderno de domingo do PÚBLICO