Com o Governo "encolhido" perante Espanha, saem políticos e activistas à rua

Assinala-se neste sábado o 40.º aniversário da central de Almaraz e o Movimento Ibérico Antinuclear organizou uma manifestação em Madrid. As previsões apontam para a participação de 10 mil pessoas: 400 serão portuguesas.

Activistas e políticos portugueses já tinham rumado a Cáceres para pedir o encerramento de Almaraz
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Activistas e políticos portugueses já tinham rumado a Cáceres para pedir o encerramento de Almaraz RUI GAUDÊNCIO

A contestação adensa-se, mas até agora não há sinais de que a central nuclear de Almaraz vá ser encerrada, como defendem activistas dos dois lados da fronteira. Como os sinais vão no sentido contrário, espera-se que cerca de 10 mil pessoas saiam às ruas de Madrid neste sábado, dia em que se assinala o 40.º aniversário da central. Querem que Espanha encerre todas as centrais. Naquela que poderá ser a maior manifestação antinuclear de sempre na Península Ibérica, estarão também políticos portugueses que lamentam que o Governo esteja a ser subserviente em relação a Espanha, em vez de defender os interesses de Portugal.

Heloísa Apolónia, do Partido Ecologista Os Verdes, que marcará presença, lamenta que Espanha tivesse confirmado na sexta-feira que iria dar mais tempo às centrais para pedirem a renovação das licenças: “Significa que está aberto o processo para o funcionamento da central para além de 2020”, diz a deputada que não compreende por que razão “o Governo não consegue dizer com todas as letrinhas” que quer o encerramento da central. “O Governo português está a encolher-se muito em relação ao Governo espanhol. Tem de tomar consciência de que tem uma palavra a dizer, mas tem-se encolhido, encolhido, encolhido”, diz.

Quem também estará em Madrid é André Silva (PAN), que lamenta que a cimeira ibérica, na qual a questão esteve ausente, tivesse servido “como mero beberete e pró-forma diplomático” e que o Governo tivesse desconsiderado “a vontade unânime do Parlamento para travar o prolongamento de Almaraz”.

Jorge Costa, do BE (partido que se vai fazer representar pela coordenadora Catarina Martins), diz que o Governo tem tido uma atitude “subordinada em relação aos interesses do Estado espanhol.” E também não entende como pode o executivo receber de Espanha informações que provam que “não houve nenhum estudo sobre um eventual acidente” e, mesmo assim, tranquilizar as pessoas quanto à construção de um armazém.

O bloquista questiona: “Os accionistas da central nuclear de Almaraz são os operadores energéticos que dominam 40% do mercado de electricidade em Portugal. 40% da electricidade consumida em Portugal é vendida pelos donos de Almaraz. Que faz o Governo sobre isso? Que intervenção tem junto destes operadores? Que acção diplomática tem junto do Estado espanhol? Não sabemos. Desconhecemos inteiramente.”

Governo “finge não ver nem ouvir”

A caminhar entre a estação de Atocha e a Porta do Sol, estarão também ambientalistas de vários movimentos e organizações. Exigem um modelo energético mais justo e sustentável. Nuno Sequeira, da direcção da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza, diz que de Portugal vão seguramente, pelo menos, 400 pessoas. António Eloy, um dos líderes do Movimento Ibérico Antinuclear (MIA), salienta que “mais do que os números, o importante é a relevância dessas pessoas na luta pelo encerramento das centrais nucleares”. E lamenta as “manobras de inversão do governo português, que finge não ver nem ouvir”.

A grande pressão exercida pela Enel-Endesa, Iberderola e Gás Natural-Fenosa para renovarem as licenças de exploração entre este ano e o próximo é o primeiro aspecto referido pela subdirectora da Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável, Carla Graça. “Almaraz é o caso mais urgente porque será a primeira central a pedir a extensão de licença”, diz, temendo a possibilidade de o Governo espanhol conceder aquela autorização às centrais, “sem que as condições de segurança sejam asseguradas”, e lembrando, a propósito da construção do armazém naquela central, que não foram avaliados os impactes transfronteiriços.

Para a investigadora da Zero, a saúde pública e o desenvolvimento regional deveriam ser motivos suficientes para a aposta nas energias limpas. Com esse objectivo em mente, para Nuno Sequeira a resignação nunca é solução: “Esta manifestação mostra que os cidadãos estão empenhados em mostrar que não compactuam com a postura ‘pró-nuclear’ não só dos governos de Portugal e Espanha, mas também da Comissão Europeia.”