Estudo considera urgente plano nacional de polimedicação nos idosos em Portugal

Cerca de 50% das hospitalizações que acontecem devido a medicação excessiva seriam evitáveis se existisse um plano de revisão da polifarmácia, dizem investigadores.

Cerca de 40% das pessoas que toma cinco ou mais medicamentos, não o faz de forma apropriada
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Cerca de 40% das pessoas que toma cinco ou mais medicamentos, não o faz de forma apropriada Paulo Pimenta

Uma investigação europeia concluiu que é urgente criar um Plano Nacional de Revisão da Polimedicação na população idosa em Portugal, onde “não há qualquer política para lidar com o problema”, que se “irá agravar”.

É urgente a “criação e implementação de um Plano Nacional de Revisão da Polimedicação na população mais velha, conclui o estudo europeu SIMPATHY”, afirma a Universidade de Coimbra (UC), numa nota enviada à agência Lusa.

“Apesar de ser um grave problema nos idosos, Portugal não tem qualquer política para lidar com a polimedicação (polifarmácia, uso de múltiplos medicamentos) desadequada”, sublinham, de acordo com a UC, os especialistas envolvidos na investigação.

Desenvolvido, nos últimos dois anos, por uma equipa multidisciplinar de dez instituições da Alemanha, Espanha, Grécia, Itália, Polónia, Portugal, Reino Unido e Suécia, o SIMPATHY (Stimulating Innovation Management of Polypharmacy and Adherence in The Elderly) foi coordenado pelo Governo da Escócia e obteve o financiamento de um milhão de euros da União Europeia (UE) através do 3.º Programa Europeu de Saúde.

O SIMPATHY envolveu uma equipa de investigadores das faculdades de Farmácia e de Medicina da UC e do consórcio [email protected] - Região Europeia de Referência para o Envelhecimento Activo e Saudável.

A pesquisa, que também contou com a colaboração da Universidade de Lisboa, teve como “objectivo estudar o impacto da polimedicação e da adesão à terapêutica na saúde da população mais idosa”.

A equipa, constituída por cerca de meia centena de peritos, efectuou o levantamento do “estado de arte” do problema e realizou vários estudos de caso nos países parceiros do projeto, concluindo que, no caso de Portugal, “não há qualquer política para lidar com este problema que já assume dimensões preocupantes e que se irá agravar nos próximos anos”, afirma João Malva, coordenador da equipa portuguesa, citado pela UC.

“Em 2060, Portugal será o país da UE com o maior decréscimo de natalidade e maior aumento no número de idosos com doenças crónicas”, alerta o investigador. Com “esta tensão demográfica”, acrescenta o especialista da Faculdade de Medicina da UC, “é urgente encontrar soluções”. Caso contrário, adverte, “o impacto na sociedade e no Sistema Nacional de Saúde será crítico”.

“Não podemos esquecer que as patologias crónicas associadas ao envelhecimento são múltiplas, potenciando a polifarmácia e aumentando o risco para os idosos” e, “além disso, acarretam elevados custos económicos e sofrimento às famílias”, salienta João Malva.

O investigador nota que “cerca de 40% das pessoas que toma cinco ou mais medicamentos, não o faz de forma apropriada, e cerca de 50% das hospitalizações que acontecem devido a medicação excessiva seriam evitáveis se existisse um plano de revisão da polifarmácia”.

Sobre a existência de boas práticas no espaço europeu em relação a esta matéria, João Malva afirma que “o Reino Unido, em especial a Escócia e Irlanda do Norte, e a Suécia” são exemplos a seguir.

Do estudo resultou, também, um Manual de Diagnóstico da Situação de Polimedicação no Idoso na Europa, onde são indicadas seis grandes recomendações para implementação de Programas de Revisão da Polifarmácia em todos os Estados-Membros da UE.

Entre essas recomendações, de referir o uso de abordagens multidisciplinares nos sistemas nacionais de saúde (“encarando o problema de forma holística”), a promoção de uma cultura que valorize a segurança e a qualidade na prescrição de medicamentos, e a recolha de dados nacionais que auxiliem a tomada de decisão política, refere a UC.

O manual, dirigido aos profissionais de saúde e aos decisores políticos, tem o editorial assinado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), reconhecendo a importância deste trabalho.