Moradores da Mouraria pedem ajuda da Assembleia Municipal de Lisboa em acção de despejo

O prédio foi vendido e os moradores receberam ordens de saída do local.

Moradores dizem que não têm possibilidades de sustentar os valores de renda que se praticam actualmente
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Moradores dizem que não têm possibilidades de sustentar os valores de renda que se praticam actualmente Daniel Rocha

Cerca de 20 moradores da Rua dos Lagares, na Mouraria, deslocaram-se esta terça-feira à Assembleia Municipal de Lisboa para pedir a intervenção dos deputados municipais devido a um possível despejo de que 40 pessoas poderão ser alvo.

Em causa estão 16 famílias que habitam no mesmo prédio daquela freguesia de Arroios e que poderão ser despejadas uma vez que o prédio foi vendido e os moradores receberam cartas com ordem de saída, "devido ao fim do contrato de arrendamento". Segundo os mesmos, têm de sair "até ao final do ano".

Carla Pinheiro, moradora na Mouraria há mais de 40 anos, interveio em representação dos restantes moradores e explicou que "o prédio foi vendido, mas antes da escritura, os novos proprietários mandaram cartas intimidatórias". Actualmente, os moradores pagam "rendas entre os 250 e os 400 euros", apontando não conseguir suportar valores mais altos.

"Ninguém quer saber de nós porque tudo é negócio", afirmou, vincando: "Só temos uma solução, ir viver na rua, pois não podemos suportar as rendas que hoje se praticam".

Para as famílias, que incluem idosos e crianças, "morar fora de Lisboa não é exequível", uma vez que "a maior parte das pessoas trabalham ao pé do bairro e não têm dinheiro para dois ou três passes", referiu Carla Pinheiro, em declarações à agência Lusa. "Nós nascemos e vivemos sempre na Mouraria, somos a luz do bairro", elencou.

Por isso, pediu aos deputados municipais que "ajudem a arranjar uma solução", defendendo que "se a Câmara de Lisboa tem casas, tem soluções, e deviam ser para casos como este".

Outra das moradoras que interveio na sessão plenária foi Alessandra Esposito, que foi taxativa: "se não forem tomadas medidas, teremos um bairro fantasma, onde a miséria será a única atracção". "Todos nós temos direito a um tecto e queremos contribuir para o futuro do nosso bairro", apontou.

Na reunião desta terça-feira da Assembleia Municipal de Lisboa (AML), a vereadora da Habitação da Câmara de Lisboa não esteve presente. Quem respondeu a estes moradores foi a presidente da AML, Helena Roseta, que lembrou que "já foi mudada a lei das rendas, mas ainda não foi promulgada pelo Presidente da República".

"Vamos ver qual é a melhor ajuda que vos podemos dar", observou a presidente, acrescentando que iria "transmitir à câmara as preocupações" e "esperar para ver que resposta é que será possível dar".

No final de Fevereiro, o vereador do Urbanismo informou que o município iria fazer uma vistoria e intimar os donos deste prédio degradado com 16 fogos, para os obrigar a fazer obras de reabilitação.

Desde aí, "a vistoria foi feita" pelos técnicos municipais, e apenas foi atribuída a classificação de "mau estado de conservação" a uma das fracções, enquanto as restantes foram classificadas com o nível médio, explicou Manuel Salgado. Carla Pinheiro disse à Lusa que o prédio já sofreu obras, "mas para inglês ver".

Estes moradores já estiveram por duas vezes em reuniões públicas do executivo municipal e também já pediram ajuda ao primeiro-ministro, António Costa, mas dada a falta de respostas admitem "lutar até ao fim".